As palavras que nunca te direi
E tudo parecia correr bem na relação entre Pedro e Inês. Apesar de não conseguirem encontrarem-se todos os dias, quer por causa dos exames de Inês, quer por causa da campanha complicadíssima que tinha surgido na empresa de Pedro e que estava a aproximar-se do seu deadline, passavam quase uma hora por dia ao telemóvel a conversar.
E quando se juntavam para jantar, as emoções vinham à flor de cima. Ambos sentiam-se bem um com o outro e não havia um segundo em que as suas mãos não estivessem juntas. Há muito tempo que Inês não se sentia assim tão feliz. Depois do que tinha passado, nunca tinha imaginado que pudessse encontrar novamente um homem que a fizesse assim tão feliz. Mas também era esse o problema. Quanto mais se apaixonasse por alguém, maior seria o sofrimento se as coisas não corressem bem. Inês tinha jurado nunca mais deixar que alguém a magoasse como no passado. Mas com Pedro, as suas defesas abriram-se totalmente e estava a deixar este homem entrar no seu coração. E sabia que ele sentia o mesmo por ela.
Mas a relação ainda estava um bocado indefinida. Ambos gostavam de estar um com um outro, mas nenhum tinha ainda dado o primeiro passo no sentido de clarificar as coisas. Os dois andavam juntos, era certo. Mas nunca ninguém tinha falado numa relação mais séria.
Pedro nunca tinha tido no passado essa necessidade de ter uma relação com alguém. Para ele, o que interessava era o presente e viver dia a dia. Tinha sido esse um dos motivos para todas as relações dele terem acabado. O seu medo de compromissos era evidente para todos os que o rodeavam e quando as suas namoradas se apercebiam disso, estava dado o primeiro passo para o fim da relação.
Mas desta vez era diferente. Pedro não queria perder Inês por nada deste mundo. E ele estava disposto a fazer tudo por ela. Pela primeira vez na vida, Pedro sentia-se preparado para uma relação séria com uma mulher que ele achava que iria amar para o resto da vida. E estava disposto a demonstrar a Inês o que sentia.
Por seu turno, Inês também estava um pouco preocupada com esta indefinição. Mas por motivos diferentes de Pedro. Ela tinha acabado de sair de uma relação há pouco mais de seis meses, que não correu muito bem. Ela tinha sofrido bastante numa relação que tal como esta tinha começado muito bem. Mas com o tempo, ela acabou por conhecer melhor o agora ex-namorado. E se soubesse o que sabia agora, nunca se tinha dedicado de corpo e alma a ele. O seu coração andou magoado por muito tempo. Desde o fim desse namoro, que o seu coração estava fechado. Muitos tentaram romper a barreira que Inês tinha criado à sua volta. Mas só Pedro o tinha conseguido. Ela no início encontrava-se receosa de que a história se repetisse novamente. No seu íntimo tinha receio de que ele a magoasse. Mas agora que se estavam a conhecer melhor, ela sentiu que isso não iria acontecer, pois acreditava que Pedro a amava realmente e que faria tudo para que ela não saísse magoada. Inês começava assim a voltar a acreditar no amor. Mas mesmo assim, gostava desta indefinição. Não queria assumir nada mais sério enquanto não estivesse preparada. E achava que Pedro estava na mesma situação. E era isso que bastava a Inês por agora.
Porém, Inês não imaginava que Pedro pensava cada vez mais nesse asssunto, pois não queria partilhá-lha com mais ninguém. Ele sabia que ela não tinha saído com mais ninguém desde o dia em que se conheceram. Mas mesmo assim, ele queria que todos soubessem que ela era dele e que mais ninguém a podia ter.
Pedro sentia que estava numa nova fase da sua vida. Tinha finalmente encontrado alguém com quem queria passar o resto da vida. Sentia também que tinha mudado nas últimas semanas. E precisava de partilhar isso com uma das pessoas em quem mais tinha confiado no passado. Se bem que ultimamente, tinha deixado de confidenciar tanto com a Patrícia o que lhe ia na alma e preferido falar com o Carlos sobre a sua nova paixão. Pedro achava que era mais normal estar a falar de uma rapariga com um amigo do que com outra rapariga e tinha sido esse o único motivo para ter sido mais reservado com a Patrícia sobre esta nova fase da sua vida,
Mas tendo em conta que a sua relação com Inês estava tornar-se cada vez mais séria, Pedro achava que já era altura de falar com a amiga e saber a opinião dela. Patrícia tinha-o já apoiado várias vezes no último ano, sempre que ele tinha precisado dela. Tinham-se tornado próximos, ao ponto de terem combinado sair várias vezes fora do trabalho. Pedro estranhava sempre que Patrícia nunca vinha acompanhada quando eles saíam, mas pensou que devesse ao facto dela estar muito preocupada com a ascensão na empresa e não ter tempo para se envolver numa relação. Pedro conhecia bem a sua amiga e sabia que ela não era uma mulher para se envolver com alguém por quem não sentisse algo, apenas para não estar só. Era uma mulher forte e independente, que qualquer homem teria muita sorte se fosse o escolhido dela. E estava já a sentir-se mal por não partilhar com a amiga os sentimentos mais recentes.
Por isso decidiu almoçar com a Patrícia nesse dia. Só não sabia se ela estaria disponível, pois estavam em campanhas diferentes e não sabia se ela estaria muito ocupada. Mas nada melhor do que lhe perguntar. Pedro dirigiu-se à mesa de Patrícia, que estava absorta nos seus pensamentos a pensar numa nova ideia, e sem esta se aperceber de que ele tinha entrado, colocou-se atrás dela e deu-lhe um pequeno toque no ombro.
Patrícia quase deu um salto, pois tinha apanhado um pequeno choque. Não era novidade, pois tinham colocado recentemente uma alcatifa nova no escritório e o que não faltava era electricidade estática. Já tinha apanhado alguns choques, mas nenhum tão forte como este.
- Já vi que estás muito eléctrica. – Disse Pedro, não conseguindo evitar um sorriso.
- Parvo. Assustaste-me um bocado. Já ouviste falar em bater à porta?
- Tu é que me disseste que a tua porta estava sempre aberta para mim. Mesmo a da tua casa de banho.
- Hoje estás muito engraçadinho. Diz-me lá o que queres, pois estou um bocado atrapalhada com esta campanha. Tenho uma apresentação ao cliente amanhã, e ainda não consegui terminar tudo. Não tenho tempo para parvoíces. – disse Patrícia, tentando fingir que estava zangada com Pedro. Mas ela gostava quando ele vinha ter com ela e brincar um pouco. Já algum tempo que não o fazia.
- Já vi que vim cá perder o meu tempo. Queria ver se vinhas almoçar comigo, mas se estás assim tão ocupada, vou retirar-me dos teus aposentos e deixar-te trabalhar em paz…
- Fazes muito bem. – disse Patrícia, também não conseguindo evitar um ligeiro sorriso.
- Mas de certeza que não te consigo convencer? Conheço um arroz de polvo que está a chamar pelo teu nome.
- Já te disseram que és um chato? Tu tens o dom de chatear tanto as pessoas, que elas fazem tudo o queres, só para as deixarem em paz.
- Isso é claramente um sim. Então, saímos de cá quando forem quinze para a uma…
- Olha que vou contrariada. E tu pagas o almoço.
- Tu és uma negociadora difícil. Mas negócio fechado. Tudo para ter o prazer de almoçar contigo.
Após Pedro ter saído, Patrícia continuou a pensar. Mas agora, a campanha já não estava no seu pensamento. Ela não parava de pensar no motivo pelo qual ele a tinha convidado para almoçar. Não era a primeira vez. Na realidade, já tinham ido variadíssimas vezes almoçar um com o outro, mas já há algumas semanas que ela sentia que ele já não lhe dava tanta atenção como no passado. Por isso, este convite surgido do nada começou a incomodá-la. Só podia ser por causa da Inês. Essa mulher mistério de que já tinha ouvido Pedro tanto elogiar a Carlos nos últimos tempos.
Patrícia começou a ficar incomodada, com receio de que ele lhe dissesse que estava a apaixonar-se por essa rapariga. Tudo menos isso. Ela já tinha passado pela experiência de Pedro ter estado com muitas raparigas, mas nunca se tinha preocupado, pois ela percebia que as coisas não eram sérias e nunca iriam ter qualquer futuro. Mas desta vez ela diferente. Ela tinha já percebido que Pedro estava diferente para melhor e que eram cada vez menores as hipóteses dele vir a apaixonar-se por ela.
Por isso, respirou fundo e decidiu que iria contar-lhe durante o almoço o que sentia por ele. Antes que ele tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa sobre a nova namorada, iria despejar o que tinha dentro dela quase desde que o tinha conhecido. Foi uma decisão difícil. Patrícia sabia que as coisas nunca mais iriam ser as mesmas. Fosse qual fosse o resultado, tudo iria mudar na relação com Pedro. Se ele também gostasse dela, a sua relação iria evoluir de uma amizade para algo mais profundo e complicado. Se ele não sentisse o mesmo, as coisas ficariam constrangidas entre ambos a partir desse momento. Sempre que os dois falassem, ele iria sentir-se culpado por não retribuir os sentimentos dela e ela iria sentir-se embaraçada pelo que tinha acontecido. Mas era a altura de arriscar. Patrícia sempre foi uma pessoa muito cautelosa e só se expunha a alguém quando tinha a certeza de que era correspondida. Ela teve sempre um grande receio de sofrer e por isso contavam-se pelos dedos as situações em que tinha decidido assumir o risco. Mas esta era uma daquelas decisões que iria ter grande impacto no seu futuro. Ela só tinha pensado no Pedro nos últimos tempos e o receio de perdê-lo era mais forte do que tudo. Ela nunca tinha sido impulsiva e qualquer decisão requeria sempre muita reflexão para pensar em todas os cenários possíveis e os prós e os contras de qualquer alternativa. Mas agora ia ser diferente.
Patrícia respirou fundo de novo e não conseguiu pensar em mais nada até à hora do almoço.
- Isso não está fácil. – interrompeu Pedro. - Já está a sair fumo da tua cabeça. Se calhar é melhor deixares de pensar na campanha e fazer uma pausa para recuperar um pouco. É mesmo a altura certa para irmos almoçar.
- Tens toda a razão. Às vezes, quando não chegamos a uma conclusão, é melhor não continuar a pensar e seguir o que o instinto nos diz.
- É o que te estou a dizer há algum tempo. Estou a ver que finalmente começas a seguir alguns dos meus conselhos. Vamos?
- Estou mesmo atrás de ti.
Os dois saíram do escritório e foram almoçar num restaurante pequeno onde já tinham ido várias vezes no passado. Era um sítio sossegado onde não havia muita confusão e a comida era muito boa. Mas Pedro sabia que Patrícia adorava aquele restaurante pelas sobremesas. Eram das mais originais e mais saborosas que se podiam encontrar. E mesmo ele, que não era grande apreciador de doces, provava sempre da sobremesa de Patrícia.
Quando se sentaram à mesa foram logo atendidos por um empregado que já os conhecia há algum tempo e fizeram os pedidos. Enquanto esperavam pela comida, Patrícia pensou que esta seria a altura certa para fazer o que tinha decido no escritório.
- Já há algum tempo que não íamos almoçar juntos – disse Patrícia, tentava abrir caminho para a revelação que iria fazer.
- Pois é, eu sei. E a culpa é toda minha. Sei que tenho andado ocupado nos últimos tempos....
- Sim, só um bocadinho...
- Mas foi por um bom motivo. E tu já sabes do que estou a falar.
- De quem estás a falar... – corrigiu Patrícia.
- Sim, tens razão. Mas tu tens de conhecer a Inês. Nunca conheci ninguém como ela. Tenho a certeza de que ias gostar logo dela.
- É só uma questão de me a apresentares. Pois já a conheceste há algum tempo e quase não me falaste dela.
- A culpa é toda minha. É que as coisas estavam ainda no início, e não tinha a certeza de que iam durar. Mas está a correr muito bem e agora acho que é altura certa para os meus amigos a conhecerem.
- Vê-se pela tua cara. Nunca te vi tão feliz.
- Mas eu estou mesmo feliz. Tu não tens ideia do efeito que ela tem em mim. Eu só penso nela o dia inteiro. Pela primeira vez, existe alguém com quem eu queira estar por muito tempo ao meu lado. ...E queria dizer-te que...
- Eu também queria dizer-te... – disse Patrícia, ao mesmo que Pedro tentava completar a sua confissão.
- Oh! Desculpa interromper-te.
- Não, eu é que te peço desculpa. Diz tu primeiro...
- Não! Diz lá o que ias dizer... Eu digo-te daqui a bocado – disse Patrícia, sentido-se cada vez mais ansiosa para dizer o que sentia.
- Bem... Patrícia... Queria pedir-te o teu conselho. Eu sinto-me feliz com ela, mais ainda não nos conhecemos muito bem, e não sei como ela iria reagir se...
- Se...
- Se eu lhe dissesse que a amava..
- Pedro, tu sabes que eu faria tudo para te ajudar, mas eu nem conheço a rapariga...
- Pois não. Mas conheces-me a mim. Eu nunca te disse isso, mas eu acho que tu conheces-me melhor do que ninguém. Até mesmo do que a Inês. Tens sido a pessoa em que mais confio e cuja opinião eu mais respeito. Eu considero-te uma das minhas melhores amigas e gostaria de saber qual seria a tua reacção se uma pessoa como eu te dissesse que te amava.
- Pedro, tu sabes que eu sou muito amiga, mas nunca pensei em ti nesses termos.- respondeu Patrícia de forma hesitante.
Naquele momento, com aquela resposta espontânea, Patrícia apercebeu-se de que ainda não estava preparada para dizer a Pedro o que sentia. Melhor, sentiu que independentemente do que dissesse, nada iria acontecer entre os dois, pois era demais evidente que ele gostava mesmo de Inês, e que dizer-lhe alguma coisa apenas iria estragar a amizade que tinham.
- Sim, eu sei. Apenas querias que fingisses que eras a Inês e que um tipo que te conhece há pouco menos de um mês, e que tu sabes que nunca teve uma relação que durasse mais de um mês, mas com quem tu te tens passado um bom bocado te disesse que te amava. Qual seria a tua reacção? Acreditavas que eu estava a ser sincero?
- Pedro, eu não sei o que a Inês te diria, mas se ela te conhecesse como eu te conheço, eu saberia que ela seria a mulher mais feliz do mundo por tu lhe dizeres isso. Qualquer mulher daria tudo para que uma pessoa como tu lhe dissesse que ela era a mulher que tinha mudado a tua vida e que tinha transformado tanto.
- Obrigado por seres sincera. Acho que tu me convenceste. Eu estava com algumas dúvidas, mas agora acredito sinceramente que tenho mesmo de confessar-lhe o que sinto.
- Tudo para te ajudar. Sabes que eu fui sincera no que te disse e acho mesmo que ela nem sabe a sorte que tem em tu gostares dela.
- Patrícia, não sei o que faria sem ti. – disse Pedro a pegar na mão direita de Patrícia, que sentiu um pequeno choque no momento em que sentiu o toque da mão do seu amigo.
Patrícia colocou a mão esquerda por cima da de Pedro com muito carinho, ao mesmo tempo que se esforçava para esconder os seus sentimentos e não demonstrar a enorme dor que sentia por não ser ela a escolhida.
- Eu também não sei o que farias sem mim...- disse a rir, tentando quebrar aquele momento esquisito.
- Já estou farto de te dizer que ainda não percebo porque não existe ninguém na tua vida. Tu és daquelas pessoas que qualquer pessoa gostaria de ter ao seu lado para o resto da vida. Mas tenho a certeza de que um dia irás encontrar a pessoa certa – disse ao mesmo tempo, que também colocou a outra mão sobre as maõs de Patrícia.
- Vamos lá ver se isso acontece – mentiu Patrícia, que tinha a certeza de que já a tinha encontrado, e que estava mesmo à sua frente.
Pedro levantou-se da sua cadeira e colocou-se muito perto de Patrícia e deu-lhe um pequeno beijo na face.
- Tenho a certeza de que sim. Tal como eu encontrei a Inês, também tu irás encontrar alguém. – disse Pedro, antes mesmo de ser interrompido pelo empregado que trazia os pratos para a sua mesa.
O que Pedro não imaginava é que duas raparigas que tinham entrado no restaurante que estava completamente cheio e que estavam à entrada do restaurante à espera de que uma mesa ficasse livre tinham assistido a esta última cena, tendo logo de imediato saído do estabelecimento.
domingo, setembro 10, 2006
domingo, julho 16, 2006
Capítulo 13
A Amiga...
Após fechar a porta da sua casa, Inês suspirou. Já há algum tempo que não se sentia assim. O seu coração não parava de bater rapidamente com a emoção do encontro que tinha tido naquela noite. Desde o beijo de despedida, que ela não conseguia deixar de pensar nele. Ela não sabia como é que ele tinha conquistado o coração dela em tão pouco tempo.
Não há muito tempo, ela tinha jurado que nunca iria deixar que outra pesssoa chegasse tão próxima dela e a magoasse novamente. Mas Pedro tinha conseguido aos poucos convencê-la de que ele era diferente dos homens com que ela tinha estado no passado.
Ela começou a recear que se ele soubesse o passado dela, os sentimentos dele iriam mudar. Por um momento passou-lhe pela cabeça a ideia de que se ele gostasse mesmo dela, o seu passado não iria importar. Mas depressa voltou à realidade e decidiu que por mais que lhe custasse esconder algo dele, caso o não fizesse, ele iria deixá-la num piscar de olhos mesmo antes da relação começar.
Era um pequeno preço a pagar pela sua felicidade. E tomou a decisão de lhe contar tudo, quando estivessem juntos há mais tempo e isso já não iria causar qualquer problema entre os dois. Mas até esse momento, iria fazer tudo para que ele nunca soubesse nada. E isso incluía esconder coisas dele.
Inês cedo tinha aprendido que a vida não era um mar de rosas. Apesar da sua tenra idade, já tinha passado por muitas coisas que possivelmente pessoas já muito mais velhas nunca iriam passar. Ela tinha muita vergonha do que tinha feito e quanto menos pessoas soubessem, melhor seria para ela.
Logo após ter tomado essa decisão, Inês começou novamente a pensar em Pedro. Era algo que não conseguia parar de fazer, mesmo se quisesse. E ela não o queria, pois sentia-se invadida por uma sensação tão estranha, que só poderia ser o amor. E tinha que partilhar o que sentia com alguém.E esse alguém, apenas podia ser a Rita.
A Rita era a sua melhor amiga. Tinha-a conhecido na secundária há cerca de seis anos. Ainda se lembrava do dia em que a tinha encontrado. Desde sempre que Inês tinha sido uma rapariga muito sociável e que era sempre a alma do grupo dela. Ela foi sempre o centro das atenções, não só por causa da sua beleza latente mas também por causa da sua personalidade. Por seu turno, a Rita era uma rapariga que primava pela descrição e parecia deslocada no meio da turma. Ela era uma rapariga nova na escola que tinha sido transferida de uma escola em Aveiro, donde se tinha mudado com os pais e a irmã para Lisboa. E por esse motivo, não conhecia ninguém na escola, e não parecia integrar-se no resto da turma ao fim de duas semanas de aulas. Ocasionalmente, alguém metia conversa com ela, mas ela parecia não querer criar laços com ninguém.
Inês lembrou-se da primeira impressão que tinha tido dela. Era uma rapariga muito tímida, que se vestia muito discretamente e que procurava não dar muito nas vistas, apesar dos seus enormes cabelos louros. Era uma rapariga que qualquer rapaz consideraria engraçada, mas nada mais do que isso. A ideia com que tinha ficado das primeiras semanas de Rita na escola, era de que ela era uma rapariga muito mimada pelos pais e que se achava superior às outras pessoas da escola. Tinham corrido rumores de que ela vinha de uma família com algumas posses e que tinha vindo de um colégio privado com elevada reputação e distinção. E o facto de não se querer integrar com o resto da turma apenas reforçava essa ideia.
Por seu turno, Inês era a rapariga mais popular do ano dela. No último ano, o seu corpo tinha-se desenvolvido muito rapidamente e tinha-se tornado o olhar de todos os rapazes da turma dela, incluindo os comprometidos. E tinha-se tornado a inveja de todas as raparigas, que se sentiam incomodadas pela enorme atenção que todos os rapazes dedicavam a ela. Mas mesmo assim, ela andava sempre rodeada do seu grupo de amigas que a acompanhavam desde a preparatória. E nunca pensaria em incluir Rita nesse grupinho.
Mas um dia, a professora de Psicologia decidou dividir a turma em grupos de dois, para fazer um trabalho sobre a influência dos genes na personalidade das pessoas. E acabou por juntar a Rita com a Inês, esperando que aquela aluna que estava sempre calada e quietinha nas aulas espevitasse um bocado ao passar algum tempo com a rapariga mais irrequieta da turma e que estava sempre a interromper as aulas, pois do início ao fim estava sempre a sussurar com a colega do lado. Inês, logo após a professora a ter juntado à Rita, pensou que com tantas pessoas naquela turma, ela tinha logo que juntá-la a uma rapariga que não tinha nada a ver com ela e que insistia em se manter afastada do resto da turma.
Após o fim da aula, a Rita foi ter com Inês, para combinar onde iriam fazer o trabalho. Ambas decidiram que o melhor seriam encontrarem-se na biblioteca à tarde para pesquisarem para o trabalho.
Quando Inês chegou ao local combinado um quarto de hora atrasada, já a Rita tinha colocado em cima da mesa de trabalho quatro ou cinco livros de Psicologia, a maioria dos quais de psicólogos com nomes impronunciáveis. Inês pensou logo que estaria na presença de uma daquelas pessoas que dava muita importância ao estudos e que não se importava com mais nada. Pediu desculpa pelo atraso e começaram as duas a percorrer os livros, à procura dos capítulos que tinham a informação necessária para o trabalho delas. Foram praticamente duas horas de quase silêncio, apenas interrompido por algumas piadas de Inês, que não obtiveram qualquer reação por parte da sua colega. A Rita praticamente não disse qualquer palavra durante a tarde toda, tirando as respostas a algumas questões que Inês ia colocando. Após terem tirado fotocópias daquilo que lhes interessava, combinaram que no dia seguinte se iriam encontrar outra vez, desta vez na casa da Rita, para redigir o trabalho.
Durante a noite, Inês telefonou a uma das amigas do seu grupinho, a dizer que nunca tinha tido uma seca tão grande e que a sua colega de trabalho era uma das pessoas mais chatas e fechadas que tinha conhecido. Não tinha ficado com uma boa impressão dela e apenas queria terminar o trabalho o mais depressa possível para não ter mais qualquer contacto com ela.
No dia seguinte, após o almoço, Inês foi para a casa da Rita. Ficava numa zona de vivendas, a mais fina da cidade. Tocou à porta e foi atendida pela empregada que a convidou a esperar um pouco na sala, enquanto ia chamar a Rita. Inês deu uma vista de olhos rápida pela sala e reparou que parecia uma daquelas fotografias que se encontravam naquelas revistas de decoração das casas de pessoas famosas. Percebeu logo que a Rita vinha de uma família com posses e que seria esse o motivo para não se querer misturar com os colegas. Entretanto a Rita chegou e sugeriu-lhe irem para o quarto dela. Quando lá chegaram, Inês surpreendeu-se imenso. Ao contrário da exuberância do resto da casa, o quarto dela pautava-se pela simplicidade. Era um quarto que primava pela arrumação, sem nada fora do sítio, com uma pequena televisão e onde se destacava um enorme poster dos Backstreet Boys. Sentaram-se na secretária dela, onde já lá estava um computador portátil e algumas folhas impressas da Internet com mais alguma informação que Rita devia ter pesquisado durante a noite passada.
De início, decidiram que seria a Rita a escrever no computador, uma vez que Inês era daquelas pessoas que nunca conseguiria um emprego como secretária, pois era impossível existir alguém que teclasse mais lentamente do que ela. Começaram ambas a falar sobre o que tinham lido no dia anterior. A tarde passou devagar, não tendo sido tocado outro tema de conversa para além do trabalho. A Inês detestava falar só de trabalho. Achava que o trabalho em conjunto correria melhor se ambas estivessem mais descontraídas e menos formais e brincassem uma com a outra. Mas qualquer tentiva de quebrar o gelo era imediatamente recusada pela Rita que dizia que elas só se deveriam preocupar em acabar o trabalho. Este até estava bastante bom e faltava apenas o capítulo em que se tinha de dar a opinião pessoal sobre o tema. Inês perguntou à Rita o que ela achava do assunto ao que Rita ficou a reflectir por uns instantes antes de lhe responder.
- Eu não acredito que os nosso genes determinem a nossa personalidade. A nossa personalidade vai-se desenvolvendo à medida que o tempo vai passando e as pessoas mudam com o tempo.
- Mas tu não achas que as pessoas têm algumas características que herdam dos pais? – retorquiu Inês.
- Eu acho que a única coisa que herdamos dos nossos pais são as nossas características físicas: a cor do nosso cabelo, os nossos olhos ou o nariz. Mas não é pelo meu pai ou a minha mãe serem pessoas calmas, que eu também o vou ser.
- Eu não penso bem assim. Há certas pessoas que nascem tímidas e que nunca vão deixar de ser tímidas. Há certas características inatas que por mais que as pessoas tentem mudar, nunca o irão conseguir. Eu por exemplo, já nasci assim expansiva e faladora. Os meus pais sempre me disseram que desde bebé que era assim, e que sempre chamava as atenções de todos desde muito cedo.
- Eu também penso que isso é verdade. Mas isso não tem a ver com o que estamos a discutir. Tu estás a dizer que há certas características com que nascemos e que irão para sempre influenciar o que nós fazemos. Eu também concordo com isso. Mas eu acho que isso não se herda dos pais.
- Ao contrário de outras coisas... – disse Inês que detestava que as pessoas não concordassem com ela e estando já a ficar farta do tratamento algo frio da Rita desde o dia anterior.
- O que queres dizer com isso? – perguntou Rita com uma entoção que indicava que ela não tinha gostado do comentário.
- Vê o teu caso. Nota-se que os teus pais são ricos. Eles devem-se achar melhor do que os outros. E tu pelos vistos estás a seguir o mesmo caminho.
- Estás completamente enganada. Vê-se que tu não me conheces mesmo nada.
- Ai não? Então porque é que estás sempre afastada do resto das pessoas da nossa turma e mal lhe diriges uma palavra? Só pode ser pelo facto de achares que ele não merecem que lhes digas alguma coisa.
A dicussão estava a ficar cada vez pior. Mas Rita decidiu por um termo ao rumo que a conversa estava a tomar. Ela era uma pessoa calma e pacífica por natureza e não estava interessada em discutir mais.
- Se tu e todos os outros acham isso, então estão no vosso direito. Cada um é livre de pensar o que quer. Mesmo que estejam completamente errados.
- Não acredito em ti. Estás agora a fazer de coitadinha. – disse Inês, que nunca foi uma pessoa que deixasse as coisas a meio. – Prova-me o contrário. Tu nunca mostraste abertura para com os outros e sempre que eu tentava falar contigo com outra coisa para além do trabalho, tu não me ligavas. Diz-me lá então como é que eu estou enganada.
Rita hesitou antes de dizer qualquer coisa. Por um momento, ela pensou no que lhe iria responder. Não queria dizer a ninguém o que realmente passava pela cabeça. Muito muito menos a alguém como a Inês, que não era minimamente amiga dela.
- Tu nunca irias compreender. – suspirou com um ar de resignação.
- Experimenta-me.
- E ainda por cima, achas que eu iria contar alguma coisa à rapariga com a maior boca da escola? Se eu te dissesse alguma coisa, amanhã já todos saberiam disso.
- Agora vê-se que és tu que não me conheces. Se soubesses como eu sou, saberias que sou alguém em que toda a gente confia. Eu sou incapaz de mentir ou de trair a confiança de alguém.
- Não é o que parece. A imagem que passa de ti é de alguém que não tem qualquer preocupações com o futuro e que está disposta a fazer tudo para ter o que quer. Nem que isso implique perder a amizade de alguém, se isso permitir que mais pessoas passem a gostar de ti. Só queres ser popular, independentemente do que os outros possam sofrer.
- Eu não sou assim. Podes perguntar a qualquer amiga minha.
- Amigas tuas? Achas que elas gostam a sério de ti? Elas só andam contigo para aproveitarem a tua popularidade. Pelo menos, são os comentários que tenho ouvido das outras pessoas.
- Ai é? Também já deves ter ouvidos os comentários muito elogiosos que toda a gente faz a ti desde o dia em que chegaste à escola – disse Inês com uma voz muito irónica.
- Não, não ouvi. Mas imagino o que devam dizer. Mas não me importo nada com isso. Nunca me preocupei com as aparências, ao contrário de muitas pessoas.
- Espero que não te estivesses a referir-te a mim. Pois eu acho que tu também estás a julgar-me pelas aparências e a imagem que construíste de mim, e não pelo que eu sou na realidade.
- Talvez estejamos as duas a cometer o mesmo erro. – reconheceu Rita, já com algumas lágrimas nos seus olhos. Ela foi sempre um pesssoa que apesar de ter sofrido muito por dentro, sempre tentou nunca demonstrar aos outros qualquer fraqueza. Mas neste momento, não estava a conseguir guardar as emoções só para ela e começou a chorar.
Inês sentiu que estava no dever de tentar confortar a sua colega, pois as lágrimas não paravam de fluir dos olhos azuis que tinham agora um brilhozinho. Mas apercebeu-se que não tinha sido só a discussão que tinham tido que tinha provocado esta situação. Deveria existir algo mais que justificasse não só a atitude de Rita nesta tarde, mas a atitude dela desde que veio de Aveiro. Passado cinco minutos, a crise de choro tinha terminado, mas os olhos de Rita demonstravam que ela ainda estava muito perturbada com a situação.
- Peço desculpa por esta cena – disse Rita aos soluços.
- Não faz mal. Eu é que peço desculpa por te ter feito chorar.
- Inês, não foi culpa tua. Eu não estava a chorar pelo que me disseste. Mas a conversa que estávamos a ter, fez-me lembrar de uma coisa no passado que me causou muita dor e que eu estou a tentar esquecer há algum tempo. Mas de repente voltou e eu não consegui evitar chorar.
- Rita, eu sei que nós não somos amigas, mas parece-me que estás a precisar de desabafar com alguém. Parece que estás a carregar o peso do mundo nos teus ombros. Eu sei que tu já tens uma imagem de mim que se calhar não vais conseguir mudar, mas eu posso garantir-te que podes confiar em mim. Tens todo o direito de não o fazer, mas se não queres que os outros te julguem pelas aparências, eu peço-te que não faças o mesmo a meu respeito.
- Não é por ti, mas por mim. Eu não sei se te consigo contar. Eu já percebi que provavelmente fiz uma imagem de ti que não corresponde à realidade. Mas eu não sei se....
Inês interrompeu-a a meio e pôs a sua mão no ombro da sua colega.
- Tu não tens de me contar nada se o não quiseres. Todos temos os nossos segredos, muitos dos quais não revelamos aos nossos melhores amigos. Eu também já passei por muita coisa, mas cheguei à conclusão que há coisas que temos de guardar para nós.
Rita ficou em silêncio uns minutos, antes de decidir revelar o que tinha acontecido com ela no passado. Inês ouviu a história e começou também a chorar, pois sentiu uma grande empatia com a sua colega. Inês soube que a família da Rita tinha vindo de Aveiro de Lisboa apenas por causa dela, para se afastarem do local onde tudo se tinha passado.
Ela começou a perceber por que motivo Rita tinha manter-se afastada dos seus colegas desde que tinha chegado. Também ela achava que seria difícil para alguém que tivesse passado por aquela situação, que conseguisse confiar novamente nos outros. Mas decidiu que iria fazer todos os esforços para ajudar Rita a superar aquela fase em que se encontrava. Antes de lhe contar qualquer coisa, Rita apenas pediu a Inês que não tivesse pena dela. Mas no final, não era pena que Inês sentia pela sua nova amiga. Era um grande orgulho pelo esforço que Rita tinha feito para ultrapassar a tragédia que a tinha afectado no passado e pela força interior que ela tinha demonstrado, pois muitas outras raparigas na situação dela teriam caído numa depressão da qual seria difícil saír.
Foi nessa noite que surgiram os laços de confiança entre as duas que permaneceram até hoje. E Inês pensou que teria sido muito difícil ultrapassar as dificuldades que tinha tido ainda há pouco tempo, sem o apoio da sua amiga...
Mas pelo menos hoje tinha boas notícias para partilhar...
Após fechar a porta da sua casa, Inês suspirou. Já há algum tempo que não se sentia assim. O seu coração não parava de bater rapidamente com a emoção do encontro que tinha tido naquela noite. Desde o beijo de despedida, que ela não conseguia deixar de pensar nele. Ela não sabia como é que ele tinha conquistado o coração dela em tão pouco tempo.
Não há muito tempo, ela tinha jurado que nunca iria deixar que outra pesssoa chegasse tão próxima dela e a magoasse novamente. Mas Pedro tinha conseguido aos poucos convencê-la de que ele era diferente dos homens com que ela tinha estado no passado.
Ela começou a recear que se ele soubesse o passado dela, os sentimentos dele iriam mudar. Por um momento passou-lhe pela cabeça a ideia de que se ele gostasse mesmo dela, o seu passado não iria importar. Mas depressa voltou à realidade e decidiu que por mais que lhe custasse esconder algo dele, caso o não fizesse, ele iria deixá-la num piscar de olhos mesmo antes da relação começar.
Era um pequeno preço a pagar pela sua felicidade. E tomou a decisão de lhe contar tudo, quando estivessem juntos há mais tempo e isso já não iria causar qualquer problema entre os dois. Mas até esse momento, iria fazer tudo para que ele nunca soubesse nada. E isso incluía esconder coisas dele.
Inês cedo tinha aprendido que a vida não era um mar de rosas. Apesar da sua tenra idade, já tinha passado por muitas coisas que possivelmente pessoas já muito mais velhas nunca iriam passar. Ela tinha muita vergonha do que tinha feito e quanto menos pessoas soubessem, melhor seria para ela.
Logo após ter tomado essa decisão, Inês começou novamente a pensar em Pedro. Era algo que não conseguia parar de fazer, mesmo se quisesse. E ela não o queria, pois sentia-se invadida por uma sensação tão estranha, que só poderia ser o amor. E tinha que partilhar o que sentia com alguém.E esse alguém, apenas podia ser a Rita.
A Rita era a sua melhor amiga. Tinha-a conhecido na secundária há cerca de seis anos. Ainda se lembrava do dia em que a tinha encontrado. Desde sempre que Inês tinha sido uma rapariga muito sociável e que era sempre a alma do grupo dela. Ela foi sempre o centro das atenções, não só por causa da sua beleza latente mas também por causa da sua personalidade. Por seu turno, a Rita era uma rapariga que primava pela descrição e parecia deslocada no meio da turma. Ela era uma rapariga nova na escola que tinha sido transferida de uma escola em Aveiro, donde se tinha mudado com os pais e a irmã para Lisboa. E por esse motivo, não conhecia ninguém na escola, e não parecia integrar-se no resto da turma ao fim de duas semanas de aulas. Ocasionalmente, alguém metia conversa com ela, mas ela parecia não querer criar laços com ninguém.
Inês lembrou-se da primeira impressão que tinha tido dela. Era uma rapariga muito tímida, que se vestia muito discretamente e que procurava não dar muito nas vistas, apesar dos seus enormes cabelos louros. Era uma rapariga que qualquer rapaz consideraria engraçada, mas nada mais do que isso. A ideia com que tinha ficado das primeiras semanas de Rita na escola, era de que ela era uma rapariga muito mimada pelos pais e que se achava superior às outras pessoas da escola. Tinham corrido rumores de que ela vinha de uma família com algumas posses e que tinha vindo de um colégio privado com elevada reputação e distinção. E o facto de não se querer integrar com o resto da turma apenas reforçava essa ideia.
Por seu turno, Inês era a rapariga mais popular do ano dela. No último ano, o seu corpo tinha-se desenvolvido muito rapidamente e tinha-se tornado o olhar de todos os rapazes da turma dela, incluindo os comprometidos. E tinha-se tornado a inveja de todas as raparigas, que se sentiam incomodadas pela enorme atenção que todos os rapazes dedicavam a ela. Mas mesmo assim, ela andava sempre rodeada do seu grupo de amigas que a acompanhavam desde a preparatória. E nunca pensaria em incluir Rita nesse grupinho.
Mas um dia, a professora de Psicologia decidou dividir a turma em grupos de dois, para fazer um trabalho sobre a influência dos genes na personalidade das pessoas. E acabou por juntar a Rita com a Inês, esperando que aquela aluna que estava sempre calada e quietinha nas aulas espevitasse um bocado ao passar algum tempo com a rapariga mais irrequieta da turma e que estava sempre a interromper as aulas, pois do início ao fim estava sempre a sussurar com a colega do lado. Inês, logo após a professora a ter juntado à Rita, pensou que com tantas pessoas naquela turma, ela tinha logo que juntá-la a uma rapariga que não tinha nada a ver com ela e que insistia em se manter afastada do resto da turma.
Após o fim da aula, a Rita foi ter com Inês, para combinar onde iriam fazer o trabalho. Ambas decidiram que o melhor seriam encontrarem-se na biblioteca à tarde para pesquisarem para o trabalho.
Quando Inês chegou ao local combinado um quarto de hora atrasada, já a Rita tinha colocado em cima da mesa de trabalho quatro ou cinco livros de Psicologia, a maioria dos quais de psicólogos com nomes impronunciáveis. Inês pensou logo que estaria na presença de uma daquelas pessoas que dava muita importância ao estudos e que não se importava com mais nada. Pediu desculpa pelo atraso e começaram as duas a percorrer os livros, à procura dos capítulos que tinham a informação necessária para o trabalho delas. Foram praticamente duas horas de quase silêncio, apenas interrompido por algumas piadas de Inês, que não obtiveram qualquer reação por parte da sua colega. A Rita praticamente não disse qualquer palavra durante a tarde toda, tirando as respostas a algumas questões que Inês ia colocando. Após terem tirado fotocópias daquilo que lhes interessava, combinaram que no dia seguinte se iriam encontrar outra vez, desta vez na casa da Rita, para redigir o trabalho.
Durante a noite, Inês telefonou a uma das amigas do seu grupinho, a dizer que nunca tinha tido uma seca tão grande e que a sua colega de trabalho era uma das pessoas mais chatas e fechadas que tinha conhecido. Não tinha ficado com uma boa impressão dela e apenas queria terminar o trabalho o mais depressa possível para não ter mais qualquer contacto com ela.
No dia seguinte, após o almoço, Inês foi para a casa da Rita. Ficava numa zona de vivendas, a mais fina da cidade. Tocou à porta e foi atendida pela empregada que a convidou a esperar um pouco na sala, enquanto ia chamar a Rita. Inês deu uma vista de olhos rápida pela sala e reparou que parecia uma daquelas fotografias que se encontravam naquelas revistas de decoração das casas de pessoas famosas. Percebeu logo que a Rita vinha de uma família com posses e que seria esse o motivo para não se querer misturar com os colegas. Entretanto a Rita chegou e sugeriu-lhe irem para o quarto dela. Quando lá chegaram, Inês surpreendeu-se imenso. Ao contrário da exuberância do resto da casa, o quarto dela pautava-se pela simplicidade. Era um quarto que primava pela arrumação, sem nada fora do sítio, com uma pequena televisão e onde se destacava um enorme poster dos Backstreet Boys. Sentaram-se na secretária dela, onde já lá estava um computador portátil e algumas folhas impressas da Internet com mais alguma informação que Rita devia ter pesquisado durante a noite passada.
De início, decidiram que seria a Rita a escrever no computador, uma vez que Inês era daquelas pessoas que nunca conseguiria um emprego como secretária, pois era impossível existir alguém que teclasse mais lentamente do que ela. Começaram ambas a falar sobre o que tinham lido no dia anterior. A tarde passou devagar, não tendo sido tocado outro tema de conversa para além do trabalho. A Inês detestava falar só de trabalho. Achava que o trabalho em conjunto correria melhor se ambas estivessem mais descontraídas e menos formais e brincassem uma com a outra. Mas qualquer tentiva de quebrar o gelo era imediatamente recusada pela Rita que dizia que elas só se deveriam preocupar em acabar o trabalho. Este até estava bastante bom e faltava apenas o capítulo em que se tinha de dar a opinião pessoal sobre o tema. Inês perguntou à Rita o que ela achava do assunto ao que Rita ficou a reflectir por uns instantes antes de lhe responder.
- Eu não acredito que os nosso genes determinem a nossa personalidade. A nossa personalidade vai-se desenvolvendo à medida que o tempo vai passando e as pessoas mudam com o tempo.
- Mas tu não achas que as pessoas têm algumas características que herdam dos pais? – retorquiu Inês.
- Eu acho que a única coisa que herdamos dos nossos pais são as nossas características físicas: a cor do nosso cabelo, os nossos olhos ou o nariz. Mas não é pelo meu pai ou a minha mãe serem pessoas calmas, que eu também o vou ser.
- Eu não penso bem assim. Há certas pessoas que nascem tímidas e que nunca vão deixar de ser tímidas. Há certas características inatas que por mais que as pessoas tentem mudar, nunca o irão conseguir. Eu por exemplo, já nasci assim expansiva e faladora. Os meus pais sempre me disseram que desde bebé que era assim, e que sempre chamava as atenções de todos desde muito cedo.
- Eu também penso que isso é verdade. Mas isso não tem a ver com o que estamos a discutir. Tu estás a dizer que há certas características com que nascemos e que irão para sempre influenciar o que nós fazemos. Eu também concordo com isso. Mas eu acho que isso não se herda dos pais.
- Ao contrário de outras coisas... – disse Inês que detestava que as pessoas não concordassem com ela e estando já a ficar farta do tratamento algo frio da Rita desde o dia anterior.
- O que queres dizer com isso? – perguntou Rita com uma entoção que indicava que ela não tinha gostado do comentário.
- Vê o teu caso. Nota-se que os teus pais são ricos. Eles devem-se achar melhor do que os outros. E tu pelos vistos estás a seguir o mesmo caminho.
- Estás completamente enganada. Vê-se que tu não me conheces mesmo nada.
- Ai não? Então porque é que estás sempre afastada do resto das pessoas da nossa turma e mal lhe diriges uma palavra? Só pode ser pelo facto de achares que ele não merecem que lhes digas alguma coisa.
A dicussão estava a ficar cada vez pior. Mas Rita decidiu por um termo ao rumo que a conversa estava a tomar. Ela era uma pessoa calma e pacífica por natureza e não estava interessada em discutir mais.
- Se tu e todos os outros acham isso, então estão no vosso direito. Cada um é livre de pensar o que quer. Mesmo que estejam completamente errados.
- Não acredito em ti. Estás agora a fazer de coitadinha. – disse Inês, que nunca foi uma pessoa que deixasse as coisas a meio. – Prova-me o contrário. Tu nunca mostraste abertura para com os outros e sempre que eu tentava falar contigo com outra coisa para além do trabalho, tu não me ligavas. Diz-me lá então como é que eu estou enganada.
Rita hesitou antes de dizer qualquer coisa. Por um momento, ela pensou no que lhe iria responder. Não queria dizer a ninguém o que realmente passava pela cabeça. Muito muito menos a alguém como a Inês, que não era minimamente amiga dela.
- Tu nunca irias compreender. – suspirou com um ar de resignação.
- Experimenta-me.
- E ainda por cima, achas que eu iria contar alguma coisa à rapariga com a maior boca da escola? Se eu te dissesse alguma coisa, amanhã já todos saberiam disso.
- Agora vê-se que és tu que não me conheces. Se soubesses como eu sou, saberias que sou alguém em que toda a gente confia. Eu sou incapaz de mentir ou de trair a confiança de alguém.
- Não é o que parece. A imagem que passa de ti é de alguém que não tem qualquer preocupações com o futuro e que está disposta a fazer tudo para ter o que quer. Nem que isso implique perder a amizade de alguém, se isso permitir que mais pessoas passem a gostar de ti. Só queres ser popular, independentemente do que os outros possam sofrer.
- Eu não sou assim. Podes perguntar a qualquer amiga minha.
- Amigas tuas? Achas que elas gostam a sério de ti? Elas só andam contigo para aproveitarem a tua popularidade. Pelo menos, são os comentários que tenho ouvido das outras pessoas.
- Ai é? Também já deves ter ouvidos os comentários muito elogiosos que toda a gente faz a ti desde o dia em que chegaste à escola – disse Inês com uma voz muito irónica.
- Não, não ouvi. Mas imagino o que devam dizer. Mas não me importo nada com isso. Nunca me preocupei com as aparências, ao contrário de muitas pessoas.
- Espero que não te estivesses a referir-te a mim. Pois eu acho que tu também estás a julgar-me pelas aparências e a imagem que construíste de mim, e não pelo que eu sou na realidade.
- Talvez estejamos as duas a cometer o mesmo erro. – reconheceu Rita, já com algumas lágrimas nos seus olhos. Ela foi sempre um pesssoa que apesar de ter sofrido muito por dentro, sempre tentou nunca demonstrar aos outros qualquer fraqueza. Mas neste momento, não estava a conseguir guardar as emoções só para ela e começou a chorar.
Inês sentiu que estava no dever de tentar confortar a sua colega, pois as lágrimas não paravam de fluir dos olhos azuis que tinham agora um brilhozinho. Mas apercebeu-se que não tinha sido só a discussão que tinham tido que tinha provocado esta situação. Deveria existir algo mais que justificasse não só a atitude de Rita nesta tarde, mas a atitude dela desde que veio de Aveiro. Passado cinco minutos, a crise de choro tinha terminado, mas os olhos de Rita demonstravam que ela ainda estava muito perturbada com a situação.
- Peço desculpa por esta cena – disse Rita aos soluços.
- Não faz mal. Eu é que peço desculpa por te ter feito chorar.
- Inês, não foi culpa tua. Eu não estava a chorar pelo que me disseste. Mas a conversa que estávamos a ter, fez-me lembrar de uma coisa no passado que me causou muita dor e que eu estou a tentar esquecer há algum tempo. Mas de repente voltou e eu não consegui evitar chorar.
- Rita, eu sei que nós não somos amigas, mas parece-me que estás a precisar de desabafar com alguém. Parece que estás a carregar o peso do mundo nos teus ombros. Eu sei que tu já tens uma imagem de mim que se calhar não vais conseguir mudar, mas eu posso garantir-te que podes confiar em mim. Tens todo o direito de não o fazer, mas se não queres que os outros te julguem pelas aparências, eu peço-te que não faças o mesmo a meu respeito.
- Não é por ti, mas por mim. Eu não sei se te consigo contar. Eu já percebi que provavelmente fiz uma imagem de ti que não corresponde à realidade. Mas eu não sei se....
Inês interrompeu-a a meio e pôs a sua mão no ombro da sua colega.
- Tu não tens de me contar nada se o não quiseres. Todos temos os nossos segredos, muitos dos quais não revelamos aos nossos melhores amigos. Eu também já passei por muita coisa, mas cheguei à conclusão que há coisas que temos de guardar para nós.
Rita ficou em silêncio uns minutos, antes de decidir revelar o que tinha acontecido com ela no passado. Inês ouviu a história e começou também a chorar, pois sentiu uma grande empatia com a sua colega. Inês soube que a família da Rita tinha vindo de Aveiro de Lisboa apenas por causa dela, para se afastarem do local onde tudo se tinha passado.
Ela começou a perceber por que motivo Rita tinha manter-se afastada dos seus colegas desde que tinha chegado. Também ela achava que seria difícil para alguém que tivesse passado por aquela situação, que conseguisse confiar novamente nos outros. Mas decidiu que iria fazer todos os esforços para ajudar Rita a superar aquela fase em que se encontrava. Antes de lhe contar qualquer coisa, Rita apenas pediu a Inês que não tivesse pena dela. Mas no final, não era pena que Inês sentia pela sua nova amiga. Era um grande orgulho pelo esforço que Rita tinha feito para ultrapassar a tragédia que a tinha afectado no passado e pela força interior que ela tinha demonstrado, pois muitas outras raparigas na situação dela teriam caído numa depressão da qual seria difícil saír.
Foi nessa noite que surgiram os laços de confiança entre as duas que permaneceram até hoje. E Inês pensou que teria sido muito difícil ultrapassar as dificuldades que tinha tido ainda há pouco tempo, sem o apoio da sua amiga...
Mas pelo menos hoje tinha boas notícias para partilhar...
terça-feira, agosto 09, 2005
Capítulo 12
Uma noite inesquecível...
Estava uma noite um bocado fria. Já era final de Novembro e o Inverno estava a chegar.
Pedro encontrou-se com Inês à porta do cafézingo, que estava a abarrotar. Era dia de jogo e ninguém queria perder pitada do jogo que envolvia o Sporting com uma equipa turca com um nome impronunciável.
Ele era um fanático de futebol e do Sporting, e nunca perdia um jogo. Mas hoje, nada mais para além de Inês parecia importante.
Sentaram-se numa mesa que entretanto tinha ficado vazia. Pedro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Senti imenso a tua falta.
- Eu também. Não consegui concentrar-me no exame, porque só pensava no que te havia de dizer.
- Não me digas. Então correu-te mal.
- Não tão bem como queria, mas tinha coisas mais importantes em que pensar.
- Eu também só pensei em ti desde aquela noite. Ainda não percebo porque me beijaste... Eu pensei que...
- ... que eu queria que as coisas corressem mais devagar? – interrompeu Inês - Era também o que eu pensava. Mas quando estava a entrar em casa olhei para ti e não resisti. Fiz algo que o meu coração me estava a pedir mas que a minha cabeça não me deixava.
- Não está arrependida do que fizeste? – disse Pedro, ao colocar as suas mãos por cima das mãos dela.
- Não. Por estranho que pareça, não. Eu não quero que ninguém saia magoado.
- Mas porque é que alguém haveria de magoar-se?
Patrícia hesitou um bocado antes de responder. Mas finalmente decidiu desabafar as suas inseguranças.
- Nós dois sabemos que as relações são difíceis e que exigem sempre muito trabalho para que as coisas corram bem. Existem sempre obstáculos que são difíceis de ultrapassar. E que certas pessoas quando sentem dificuldades, preferem afastar-se. E isso causa sempre muito sofrimento à outra pessoa.
- Eu prometo-te que isso nunca irá acontecer. Eu estarei sempre do teu lado. Eu sei que não sou um homem perfeito e que o meu passado não é nada famoso. Mas eu estou disposto a mudar. Acredita em mim...
- Eu acredito, mas lá no fundo tenho medo que um dia destes, um de nós decida abandonar o outro sem sequer dar uma explicação.
- Eu também tenho medo. Eu tenho medo de que um dia não estaremos juntos, porque isso me faria sofrer muito.
- Mas então se nós dois sabemos que poderemos sofrer, porque é que vale a pena começar uma relação?
- Porque se não tentarmos, nunca saberia o que poderia ter acontecido. E isso poderia ser algo que nos iria marcar para toda a vida.
- Mas e se...
- Mas e se nós fossemos perfeitos um para o outro? – interrompeu Pedro.
Inês ficou sem palavras. Por alguns momentos, ambos ficaram em silêncio, a olhar um para o outro. Inês apertou com força as mãos de Pedro e por fim decidiu-se a dizer o que tinha medo de dizer:
- Queres mesmo tentar? Apesar de só nos conhecermos há alguns dias?
- Por vezes, podemos conhecer uma pessoa há muitos anos, mas não conhecê-la mesmo. Sabes o que eu quero dizer?
- Sim – murmurou Inês.
- Mas noutras vezes, basta conhecer uma pessoa um segundo para sabermos que ela será a mulher da nossa vida.
- E foi o que te aconteceu.
- Não. Foi o que nos aconteceu. Por mais difícil que seja para ti admitir isso.
Inês sorriu e assentiu com um ligeiro acenar da cabeça.
Depois de pagaram a conta levantaram-se da mesa e saíram para fora do café. A noite continuava fria.
Pedro sem pergutar, pôs o seu casaco nas costas de Inês. Ela sorriu e ele foi atrás dela.
Ambos tinham medo do que poderia acontecer, mas sabiam que se não tentassem, talvez perderia a melhor oportunidade das suas vidas.
Pedro agarrou a mão de Inês. Ela agarrou com suavidade a maõ dele. Enquanto andavam lado a lado de mãos dadas, sentiam que hoje era mesmo o primeiro dia do resto das suas vidas.
De repente estavam ao pé da casa de Inês. Ambos pararam ao mesmo tempo a pensar no que se iria passar a seguir.
- Queres subir um bocado?
- É uma proposta tentadora. Mas tenho de ir dormir, pois estou muito cansado.
Inês pareceu desapontada com a reacção dele. Ela tinha dúvidas sobre o que queria que acontecese naquela noite. Por um lado ela gostava muito dele. Por outro, ainda só tinham saído juntos duas vezes. Mas ficou a pensar no que Pedro estaria a pensar.
- Também acho que foi uma noite comprida. Também me sinto algo cansada. Eu depois telefono-te...
Inês deu um beijo ligeiro nos lábios de Pedro. Este olhou para os olhos lindos de Inês e retribuiu o beijo. Passou com as mãos pelos cabelos longos dela e fechou os olhos. Nenhum deles queria deixar de beijar o outro. Ambos sentiam-se como se estivessem a beijar alguém pela primeira vez.
Era uma sensação indescritível.
Pedro sentiu que nunca tinha beijado ninguém a sério. Pela primeira vez. beijava alguém que amava.
Inês já estava a ficar sem fólego, mas também não quis parar. Ela sentiu que talvez pudesse ser realmente feliz com ele. A sua cabeça era um turbilhão de emoções que a fazia sentir-se confusa.
Quando ambos pararam, sorriram um para o outro. Pedro deu um ligeiro beijo na face da Inês e despediu-se.
Inês ficou a olhar para ele enquanto ele se ia embora. Quando ele desapareceu da sua vista, sorriu e entrou na sua casa.
Estava uma noite um bocado fria. Já era final de Novembro e o Inverno estava a chegar.
Pedro encontrou-se com Inês à porta do cafézingo, que estava a abarrotar. Era dia de jogo e ninguém queria perder pitada do jogo que envolvia o Sporting com uma equipa turca com um nome impronunciável.
Ele era um fanático de futebol e do Sporting, e nunca perdia um jogo. Mas hoje, nada mais para além de Inês parecia importante.
Sentaram-se numa mesa que entretanto tinha ficado vazia. Pedro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
- Senti imenso a tua falta.
- Eu também. Não consegui concentrar-me no exame, porque só pensava no que te havia de dizer.
- Não me digas. Então correu-te mal.
- Não tão bem como queria, mas tinha coisas mais importantes em que pensar.
- Eu também só pensei em ti desde aquela noite. Ainda não percebo porque me beijaste... Eu pensei que...
- ... que eu queria que as coisas corressem mais devagar? – interrompeu Inês - Era também o que eu pensava. Mas quando estava a entrar em casa olhei para ti e não resisti. Fiz algo que o meu coração me estava a pedir mas que a minha cabeça não me deixava.
- Não está arrependida do que fizeste? – disse Pedro, ao colocar as suas mãos por cima das mãos dela.
- Não. Por estranho que pareça, não. Eu não quero que ninguém saia magoado.
- Mas porque é que alguém haveria de magoar-se?
Patrícia hesitou um bocado antes de responder. Mas finalmente decidiu desabafar as suas inseguranças.
- Nós dois sabemos que as relações são difíceis e que exigem sempre muito trabalho para que as coisas corram bem. Existem sempre obstáculos que são difíceis de ultrapassar. E que certas pessoas quando sentem dificuldades, preferem afastar-se. E isso causa sempre muito sofrimento à outra pessoa.
- Eu prometo-te que isso nunca irá acontecer. Eu estarei sempre do teu lado. Eu sei que não sou um homem perfeito e que o meu passado não é nada famoso. Mas eu estou disposto a mudar. Acredita em mim...
- Eu acredito, mas lá no fundo tenho medo que um dia destes, um de nós decida abandonar o outro sem sequer dar uma explicação.
- Eu também tenho medo. Eu tenho medo de que um dia não estaremos juntos, porque isso me faria sofrer muito.
- Mas então se nós dois sabemos que poderemos sofrer, porque é que vale a pena começar uma relação?
- Porque se não tentarmos, nunca saberia o que poderia ter acontecido. E isso poderia ser algo que nos iria marcar para toda a vida.
- Mas e se...
- Mas e se nós fossemos perfeitos um para o outro? – interrompeu Pedro.
Inês ficou sem palavras. Por alguns momentos, ambos ficaram em silêncio, a olhar um para o outro. Inês apertou com força as mãos de Pedro e por fim decidiu-se a dizer o que tinha medo de dizer:
- Queres mesmo tentar? Apesar de só nos conhecermos há alguns dias?
- Por vezes, podemos conhecer uma pessoa há muitos anos, mas não conhecê-la mesmo. Sabes o que eu quero dizer?
- Sim – murmurou Inês.
- Mas noutras vezes, basta conhecer uma pessoa um segundo para sabermos que ela será a mulher da nossa vida.
- E foi o que te aconteceu.
- Não. Foi o que nos aconteceu. Por mais difícil que seja para ti admitir isso.
Inês sorriu e assentiu com um ligeiro acenar da cabeça.
Depois de pagaram a conta levantaram-se da mesa e saíram para fora do café. A noite continuava fria.
Pedro sem pergutar, pôs o seu casaco nas costas de Inês. Ela sorriu e ele foi atrás dela.
Ambos tinham medo do que poderia acontecer, mas sabiam que se não tentassem, talvez perderia a melhor oportunidade das suas vidas.
Pedro agarrou a mão de Inês. Ela agarrou com suavidade a maõ dele. Enquanto andavam lado a lado de mãos dadas, sentiam que hoje era mesmo o primeiro dia do resto das suas vidas.
De repente estavam ao pé da casa de Inês. Ambos pararam ao mesmo tempo a pensar no que se iria passar a seguir.
- Queres subir um bocado?
- É uma proposta tentadora. Mas tenho de ir dormir, pois estou muito cansado.
Inês pareceu desapontada com a reacção dele. Ela tinha dúvidas sobre o que queria que acontecese naquela noite. Por um lado ela gostava muito dele. Por outro, ainda só tinham saído juntos duas vezes. Mas ficou a pensar no que Pedro estaria a pensar.
- Também acho que foi uma noite comprida. Também me sinto algo cansada. Eu depois telefono-te...
Inês deu um beijo ligeiro nos lábios de Pedro. Este olhou para os olhos lindos de Inês e retribuiu o beijo. Passou com as mãos pelos cabelos longos dela e fechou os olhos. Nenhum deles queria deixar de beijar o outro. Ambos sentiam-se como se estivessem a beijar alguém pela primeira vez.
Era uma sensação indescritível.
Pedro sentiu que nunca tinha beijado ninguém a sério. Pela primeira vez. beijava alguém que amava.
Inês já estava a ficar sem fólego, mas também não quis parar. Ela sentiu que talvez pudesse ser realmente feliz com ele. A sua cabeça era um turbilhão de emoções que a fazia sentir-se confusa.
Quando ambos pararam, sorriram um para o outro. Pedro deu um ligeiro beijo na face da Inês e despediu-se.
Inês ficou a olhar para ele enquanto ele se ia embora. Quando ele desapareceu da sua vista, sorriu e entrou na sua casa.
domingo, novembro 14, 2004
Capítulo 11
O segundo encontro?
Tinham passado três dias desde o primeiro encontro e Pedro estava extremamente ansioso por receber o telefonema de Inês. Já por duas vezes tinha conseguido controlar os seus impulsos e não lhe telefonou.
Nunca se tinha sentido tão bem na vida. Se soubesse que o amor era assim, já se teria apaixonado há mais tempo. Era uma sensação indescritível. Ele sentia que o seu coração batia mais depressa quando pensava nela. A mínima coisa fazia-lhe recordar-se dela. Ele sentia uma enorme emoção e um grande prazer apenas em pensar nela. E não era uma coisa sexual. Ele ficaria satisfeito apenas pela oportunidade de lhe tocar na mão ou de cheirar o seu perfume.
E todos no escritório repararam na mudança. Mas somente Carlos e Patrícia sabiam do motivo.
Pedro sabia que ela estava em alturas de exames, pelo que o tempo dela era escasso. Mas porque é que ela não esquecia a faculdade e ia ter com ele? Seria o que ele faria. Mas isso seria muito egoísta da parte dele. Deu-se por si a pensar que era a primeira vez que pensava nos interesses da pessoa com quem estava em detrimento do que ele queria. O que estaria a acontecer com ele? Será que o amor estava a transformá-lo? O pior de tudo, é que ele não se importava de mudar por ela.
De repente o seu telemóvel tocou. Pedro respirou fundo antes de atendê-lo, porque não queria parecer muito nervoso.
- Está sim?
- Olá! Sentiste a minha falta?
- Tu nem sabes quanto. Estive nestes últimos três dias a pensar em ti.
- Por acaso não foste o único homem em quem eu pensei.
- Não me digas? Estás a tentar fazer-me cíumes? Devo avisar-te de que não sou ciumento, pelo que estás a perder o teu tempo.
- Por enquanto. Mas só para descansar-te, eu estive a entreter-me com o Freud e com o Jung. São velhos amigos...
- Realmente são um bocadinho velhos para a tua idade. Mas também se pode dizer isso de mim.
- Tu não és assim “tão” velho.
- Obrigado pelo teu apoio. Estou numa crise de meia idade, pelo que estou agora a entreter-me com míudas mais novas, para dar a impressão que sou mais novo.
- E eu fui estúpida suficiente para cair nos teus braços.
- Pois foste. Mas és a minha estúpida. Mas falando mais a sério, quando é que eu poderei te ver outra vez?
- Estava a pensar hoje à noite. E desta vez sou eu que escolho o local.
- Por mim tudo bem. Apenas quero estar contigo, em qualquer sítio do mundo.
- Tu estás a sair-me um romântico.
- Eu sei. É uma faceta minha que teimou em aparecer.
- Eu conheço um cafézinho muito simpático. É perfeito para conversarmos mais um bocadinho. Eu gostei imenso do que se passou entre nós na outra noite.
- Eu também. Mas queria falar-te daquele beijo que me deste.
- Não gostaste? E eu que pensei que tivesse sido tão bom para ti como foi para mim?
- Não, eu também gostei. Mas queria saber porque é que fizeste aquilo?
- Não consigo explicar-te por telefone. Mas logo à noite eu digo-te o motivo. E se tiveres sorte, tens também direito a uma repetição.
- Não consigo esperar tanto tempo.
- Vais ter de fazer um esforço. Beijinhos.
- Beijinhos.
Quando desligou o telefone, Pedro teve novamente de respirar fundo. O seu coração não parava de saltitar pela emoção de a ver outra vez.
Mas ainda faltavam algumas horas, pelo que teve de voltar novamente ao trabalho.
No final do dia, Pedro preparava-se ansiosamente para sair do trabalho, quando sentiu uma palmada nas costas. Era Carlos, que também tinha terminado o seu dia de trabalho.
- Sabes que a minha mulher hoje foi a um seminário sobre o papel da mulher no século XXI? E os míudos estão com a minha querida sogra. Queres tomar um copo? Já há muito tempo que não fazemos isso...
- Desculpa lá, mas hoje é um péssimo dia. Já tenho planos marcados.
- Agora que és um homem comprometido, já não tens tempo para os teu amigos – brincou Carlos.
- Se fosse na semana passada, tinha aceitado a tua sugestão. Mas hoje tenho mesmo um compromisso a que não posso faltar.
- Estás mesmo a falar a sério. Nunca te tinha visto assim tão entusiasmado com alguém.
- Nunca estive mais sério na minha vida. Até amanhã.
Pedro despediu de Carlos e dirigiu-se para o café onde iria finalmente ver a mulher que tinha alterado para sempre a sua vida.
Tinham passado três dias desde o primeiro encontro e Pedro estava extremamente ansioso por receber o telefonema de Inês. Já por duas vezes tinha conseguido controlar os seus impulsos e não lhe telefonou.
Nunca se tinha sentido tão bem na vida. Se soubesse que o amor era assim, já se teria apaixonado há mais tempo. Era uma sensação indescritível. Ele sentia que o seu coração batia mais depressa quando pensava nela. A mínima coisa fazia-lhe recordar-se dela. Ele sentia uma enorme emoção e um grande prazer apenas em pensar nela. E não era uma coisa sexual. Ele ficaria satisfeito apenas pela oportunidade de lhe tocar na mão ou de cheirar o seu perfume.
E todos no escritório repararam na mudança. Mas somente Carlos e Patrícia sabiam do motivo.
Pedro sabia que ela estava em alturas de exames, pelo que o tempo dela era escasso. Mas porque é que ela não esquecia a faculdade e ia ter com ele? Seria o que ele faria. Mas isso seria muito egoísta da parte dele. Deu-se por si a pensar que era a primeira vez que pensava nos interesses da pessoa com quem estava em detrimento do que ele queria. O que estaria a acontecer com ele? Será que o amor estava a transformá-lo? O pior de tudo, é que ele não se importava de mudar por ela.
De repente o seu telemóvel tocou. Pedro respirou fundo antes de atendê-lo, porque não queria parecer muito nervoso.
- Está sim?
- Olá! Sentiste a minha falta?
- Tu nem sabes quanto. Estive nestes últimos três dias a pensar em ti.
- Por acaso não foste o único homem em quem eu pensei.
- Não me digas? Estás a tentar fazer-me cíumes? Devo avisar-te de que não sou ciumento, pelo que estás a perder o teu tempo.
- Por enquanto. Mas só para descansar-te, eu estive a entreter-me com o Freud e com o Jung. São velhos amigos...
- Realmente são um bocadinho velhos para a tua idade. Mas também se pode dizer isso de mim.
- Tu não és assim “tão” velho.
- Obrigado pelo teu apoio. Estou numa crise de meia idade, pelo que estou agora a entreter-me com míudas mais novas, para dar a impressão que sou mais novo.
- E eu fui estúpida suficiente para cair nos teus braços.
- Pois foste. Mas és a minha estúpida. Mas falando mais a sério, quando é que eu poderei te ver outra vez?
- Estava a pensar hoje à noite. E desta vez sou eu que escolho o local.
- Por mim tudo bem. Apenas quero estar contigo, em qualquer sítio do mundo.
- Tu estás a sair-me um romântico.
- Eu sei. É uma faceta minha que teimou em aparecer.
- Eu conheço um cafézinho muito simpático. É perfeito para conversarmos mais um bocadinho. Eu gostei imenso do que se passou entre nós na outra noite.
- Eu também. Mas queria falar-te daquele beijo que me deste.
- Não gostaste? E eu que pensei que tivesse sido tão bom para ti como foi para mim?
- Não, eu também gostei. Mas queria saber porque é que fizeste aquilo?
- Não consigo explicar-te por telefone. Mas logo à noite eu digo-te o motivo. E se tiveres sorte, tens também direito a uma repetição.
- Não consigo esperar tanto tempo.
- Vais ter de fazer um esforço. Beijinhos.
- Beijinhos.
Quando desligou o telefone, Pedro teve novamente de respirar fundo. O seu coração não parava de saltitar pela emoção de a ver outra vez.
Mas ainda faltavam algumas horas, pelo que teve de voltar novamente ao trabalho.
No final do dia, Pedro preparava-se ansiosamente para sair do trabalho, quando sentiu uma palmada nas costas. Era Carlos, que também tinha terminado o seu dia de trabalho.
- Sabes que a minha mulher hoje foi a um seminário sobre o papel da mulher no século XXI? E os míudos estão com a minha querida sogra. Queres tomar um copo? Já há muito tempo que não fazemos isso...
- Desculpa lá, mas hoje é um péssimo dia. Já tenho planos marcados.
- Agora que és um homem comprometido, já não tens tempo para os teu amigos – brincou Carlos.
- Se fosse na semana passada, tinha aceitado a tua sugestão. Mas hoje tenho mesmo um compromisso a que não posso faltar.
- Estás mesmo a falar a sério. Nunca te tinha visto assim tão entusiasmado com alguém.
- Nunca estive mais sério na minha vida. Até amanhã.
Pedro despediu de Carlos e dirigiu-se para o café onde iria finalmente ver a mulher que tinha alterado para sempre a sua vida.
sexta-feira, agosto 06, 2004
Capítulo 10
O amor impossível...
Quando chegou a casa, já eram cerca de onze horas da noite. Atirou os sapatos para o meio da sala, para ficar mais confortável.
Decidiu tomar um duche. Despiu-se completamente e atirou as roupas todas que trazia para o chão. Como não vivia mais ninguém em casa, não se importava com o facto de ter a casa completamente desarrumada.
Foi para o quarto de banho e tomou um duche relaxante. Era um dos momentos que mais gostava no seu dia, pois tinha tempo para estar só e pensar a sério na sua vida.
Após o duche, lembrou-se que não tinha o jantar preparado. Detestava cozinhar. Mas lá descongelou uns bifes que preparou com algumas batatas fritas e um ovo. Sempre tinha que comer, apesar achar que tinha ganho alguns quilos nos últimos tempos.
Durante o jantar, recordou-se do dia passado na agência de publicidade. De repente ouviu o telefone a tocar.
- Está sim?
- Olá, tudo bem contigo? Não te estou a interromper, pois não? – ouviu-se uma voz feminina do outro lado da linha.
- Por acaso estava a jantar. Mas soube bem ouvir a tua voz. Estava mesmo a precisar de desabafar contigo.
- Diz-me lá o que te aconteceu que te fez ficar assim...
Foi uma conversa longa em que nenhum acontecimento dos últimos dias ficou por contar. Contou tudo o que estava dentro do seu coração pois já não conseguia aguentar dentro de si o que sentia.
A voz do outro lado da linha foi bastante compreensiva e soube ouvir o desabafo que saiu da sua boca, tendo feito os possíveis para transmitir um sinal de esperança no futuro.
Terminado o telefonema e o jantar, eram horas de se ir deitar. Mas antes teve de escrever no seu diario. Era algo que fazia todos os dias desde a adolescência.
“Querido Diário:
Hoje foi um dia de grandes revelações. Finalmente descobri que já não acredito no amor.
Já te falei várias vezes das inúmeras desilusões que já tive. Mas nunca nenhuma teve um impacto tão grande como a de hoje. Tu já sabes que amo alguém que nunca teve qualquer interesse por mim. Para ele, somos apenas bons amigos.
Mas eu sempre tive a esperança que ele um dia acordasse e reparasse em mim.
É legítimo acreditar nisso, não achas? Quantas vezes não se diz que às vezes não vale a pena procurar incessantemente o verdadeiro amor, porque ele está mesmo ao pé de nós. E mais cedo ou mais tarde, o destino nos irá juntar.
Bem, como estás a imaginar, não foi isso que aconteceu. Como é que foi possível ele não reparar nos inúmeros sinais que tenho enviado? Ele será cego? Ou serei assim tão repulsiva, que nenhum homem gosta de mim?
Não acho que seja esse o caso, pois já muitos homens se mostraram interessados em mim. Mas não aquele que eu quero desde o dia em que o conheci.
Eu lembro-me do primeiro dia em que o vi no escritório. Era um daqueles típicos machos portugueses, que não se inibia de se atirar às miúdas giras que não conhecia. Mas como já te contei isto, e não te quero maçar novamente, só te relembro que ele tinha qualquer coisa que me atraiu. Eu nunca me interessei por aquele tipo de homens que só têm uma coisa na cabeça. Mas senti que ele era diferente. Era apenas uma fachada, que se desmoronaria quando ele encontrasse a mulher certa que o obrigasse a mudar. E eu ingénua como era, sempre pensei que seria eu.
Mas já lá vão quase quatro anos e eu não consigo esquece-lo. Podem chamar-me patética e incurável, mas nunca deixei de gostar dele. Ele falava comigo sobre as suas conquistas e reparei que ele ainda não tinha encontrado alguém que realmente amasse. Por isso sempre mantive a esperança.
Claro que sempre que ele falava comigo ou flirtava um bocado, sempre tentei encontrar indícios de que ele gostava de mim. Coisas que para ele deviam ser perfeitamente normais, como um toque no ombro, um elogio ao meu penteado, um comentário menos próprio sobre o meu peito, ou uma confidência mais íntima, eram interpretados como sinais de que ele estava interessado por mim.
Às vezes, com o imenso stress que nós estamos, esquecemo-nos disso e acomodamo-nos com a nossa vida complicada. Mas é nos momentos mais calmos, que não consigo deixar de pensar nele. Ele não sai da minha cabeça. Por mais que eu tente pensar noutra coisa, não consigo.
Mas hoje, algo fez-me cair à terra. Soube por um amigo mútuo que ele finalmente encontrou alguém que ele realmente amava. Eu já tinha notado que ele andava diferente nos últimos dias. Ele andava mais distraído e parecia que estava sempre nervoso com qualquer coisa. Pelo que contou ao nosso amigo, era o amor.
Meu Deus, o que eu fiz para merecer isto? Foi um choque tão grande para mim. Senti como se uma parte de mim tivesse morrido. Todas as minhas esperanças desvaneceram-se num segundo. O que é que eu poderia agora fazer?
Nada. Absolutamente nada. Tive a minha oportunidade e não a aproveitei. Tive cinco anos em que o coração dele estava livre, mas sempre tive receio de que ele me rejeitasse. Tive medo de arriscar, pois preferi manter a nossa amizade. Sempre pensei que tinha tomado a decisão certa, pois um dia ele iria aperceber-se de que me amava.
Mas não foi isso que aconteceu. Se soubesse o que sei hoje, teria tomado uma decisão diferente há quatro anos. Estávamos os dois a falar, quando ele me disse que estava a ter problemas com a namorada nessa data, e que não sabia o que fazer. Ele sentia que ela não era a mulher certa para ele, mas que já estava farto de procurar. Perguntou porque é que ele não conseguia arranjar uma mulher como eu. Eu devia ter arriscado nessa altura e revelado os meus sentimentos. Porque é que eu não o fiz? Agora é fácil dizer, mas na altura eu era uma mulher um bocado tímida. Acabada de sair da faculdade, sempre tive um pequeno grupo de amigos a quem conseguia falar de tudo. Mas sempre tive um certo receio de me expor a outras pessoas com quem não tinha confiança. Como o decorrer dos anos e da minha necessidade de contacto permanente com desconhecidos na publicidade, perdi essa timidez. É uma situação perfeitamente normal. Só lamento não o ter feito mais cedo. Se naquela noite, eu tivesse maior confiança em mim, tudo hoje poderia ser diferente.
Poderia estar hoje a contar-te como é que o nosso filho estava a crescer ou o jantar romântico que eu lhe tinha preparado. Mas isso nunca irá acontecer.
Disseram-me para ter esperança no futuro. Mas que futuro posso ter, se não estou junto do homem que eu sei que é a minha alma gémea? Fomos feitos um para o outro e eu compreendo o que ele sente e ele compreende-me a mim. É por isso que somos bons amigos.
Mas falando nisso, não consigo perceber porque é que ele não me contou sobre ela. Ele sempre me contou tudo sobre a vida íntima dele. Porquê?
Mas já tenho preocupações a mais para pensar ainda mais nisso.
Só me apetece dormir e esquecer que este dia alguma vez aconteceu.
Por isso, Querido Diário, boa noite para ti. Amanhã será outro dia e tu és sempre o meu primeiro confidente.
Patrícia “.
Patrícia fechou o seu diário e guardou-o na gaveta da sua mesa de cabeceira. Sentiu algumas lágrimas a cairem, que não conseguiu parar... Os seus olhos brilhavam como as estrelas numa noite de lua cheia. Sentia-se nos seus olhos uma tristeza muito grande...
Quando chegou a casa, já eram cerca de onze horas da noite. Atirou os sapatos para o meio da sala, para ficar mais confortável.
Decidiu tomar um duche. Despiu-se completamente e atirou as roupas todas que trazia para o chão. Como não vivia mais ninguém em casa, não se importava com o facto de ter a casa completamente desarrumada.
Foi para o quarto de banho e tomou um duche relaxante. Era um dos momentos que mais gostava no seu dia, pois tinha tempo para estar só e pensar a sério na sua vida.
Após o duche, lembrou-se que não tinha o jantar preparado. Detestava cozinhar. Mas lá descongelou uns bifes que preparou com algumas batatas fritas e um ovo. Sempre tinha que comer, apesar achar que tinha ganho alguns quilos nos últimos tempos.
Durante o jantar, recordou-se do dia passado na agência de publicidade. De repente ouviu o telefone a tocar.
- Está sim?
- Olá, tudo bem contigo? Não te estou a interromper, pois não? – ouviu-se uma voz feminina do outro lado da linha.
- Por acaso estava a jantar. Mas soube bem ouvir a tua voz. Estava mesmo a precisar de desabafar contigo.
- Diz-me lá o que te aconteceu que te fez ficar assim...
Foi uma conversa longa em que nenhum acontecimento dos últimos dias ficou por contar. Contou tudo o que estava dentro do seu coração pois já não conseguia aguentar dentro de si o que sentia.
A voz do outro lado da linha foi bastante compreensiva e soube ouvir o desabafo que saiu da sua boca, tendo feito os possíveis para transmitir um sinal de esperança no futuro.
Terminado o telefonema e o jantar, eram horas de se ir deitar. Mas antes teve de escrever no seu diario. Era algo que fazia todos os dias desde a adolescência.
“Querido Diário:
Hoje foi um dia de grandes revelações. Finalmente descobri que já não acredito no amor.
Já te falei várias vezes das inúmeras desilusões que já tive. Mas nunca nenhuma teve um impacto tão grande como a de hoje. Tu já sabes que amo alguém que nunca teve qualquer interesse por mim. Para ele, somos apenas bons amigos.
Mas eu sempre tive a esperança que ele um dia acordasse e reparasse em mim.
É legítimo acreditar nisso, não achas? Quantas vezes não se diz que às vezes não vale a pena procurar incessantemente o verdadeiro amor, porque ele está mesmo ao pé de nós. E mais cedo ou mais tarde, o destino nos irá juntar.
Bem, como estás a imaginar, não foi isso que aconteceu. Como é que foi possível ele não reparar nos inúmeros sinais que tenho enviado? Ele será cego? Ou serei assim tão repulsiva, que nenhum homem gosta de mim?
Não acho que seja esse o caso, pois já muitos homens se mostraram interessados em mim. Mas não aquele que eu quero desde o dia em que o conheci.
Eu lembro-me do primeiro dia em que o vi no escritório. Era um daqueles típicos machos portugueses, que não se inibia de se atirar às miúdas giras que não conhecia. Mas como já te contei isto, e não te quero maçar novamente, só te relembro que ele tinha qualquer coisa que me atraiu. Eu nunca me interessei por aquele tipo de homens que só têm uma coisa na cabeça. Mas senti que ele era diferente. Era apenas uma fachada, que se desmoronaria quando ele encontrasse a mulher certa que o obrigasse a mudar. E eu ingénua como era, sempre pensei que seria eu.
Mas já lá vão quase quatro anos e eu não consigo esquece-lo. Podem chamar-me patética e incurável, mas nunca deixei de gostar dele. Ele falava comigo sobre as suas conquistas e reparei que ele ainda não tinha encontrado alguém que realmente amasse. Por isso sempre mantive a esperança.
Claro que sempre que ele falava comigo ou flirtava um bocado, sempre tentei encontrar indícios de que ele gostava de mim. Coisas que para ele deviam ser perfeitamente normais, como um toque no ombro, um elogio ao meu penteado, um comentário menos próprio sobre o meu peito, ou uma confidência mais íntima, eram interpretados como sinais de que ele estava interessado por mim.
Às vezes, com o imenso stress que nós estamos, esquecemo-nos disso e acomodamo-nos com a nossa vida complicada. Mas é nos momentos mais calmos, que não consigo deixar de pensar nele. Ele não sai da minha cabeça. Por mais que eu tente pensar noutra coisa, não consigo.
Mas hoje, algo fez-me cair à terra. Soube por um amigo mútuo que ele finalmente encontrou alguém que ele realmente amava. Eu já tinha notado que ele andava diferente nos últimos dias. Ele andava mais distraído e parecia que estava sempre nervoso com qualquer coisa. Pelo que contou ao nosso amigo, era o amor.
Meu Deus, o que eu fiz para merecer isto? Foi um choque tão grande para mim. Senti como se uma parte de mim tivesse morrido. Todas as minhas esperanças desvaneceram-se num segundo. O que é que eu poderia agora fazer?
Nada. Absolutamente nada. Tive a minha oportunidade e não a aproveitei. Tive cinco anos em que o coração dele estava livre, mas sempre tive receio de que ele me rejeitasse. Tive medo de arriscar, pois preferi manter a nossa amizade. Sempre pensei que tinha tomado a decisão certa, pois um dia ele iria aperceber-se de que me amava.
Mas não foi isso que aconteceu. Se soubesse o que sei hoje, teria tomado uma decisão diferente há quatro anos. Estávamos os dois a falar, quando ele me disse que estava a ter problemas com a namorada nessa data, e que não sabia o que fazer. Ele sentia que ela não era a mulher certa para ele, mas que já estava farto de procurar. Perguntou porque é que ele não conseguia arranjar uma mulher como eu. Eu devia ter arriscado nessa altura e revelado os meus sentimentos. Porque é que eu não o fiz? Agora é fácil dizer, mas na altura eu era uma mulher um bocado tímida. Acabada de sair da faculdade, sempre tive um pequeno grupo de amigos a quem conseguia falar de tudo. Mas sempre tive um certo receio de me expor a outras pessoas com quem não tinha confiança. Como o decorrer dos anos e da minha necessidade de contacto permanente com desconhecidos na publicidade, perdi essa timidez. É uma situação perfeitamente normal. Só lamento não o ter feito mais cedo. Se naquela noite, eu tivesse maior confiança em mim, tudo hoje poderia ser diferente.
Poderia estar hoje a contar-te como é que o nosso filho estava a crescer ou o jantar romântico que eu lhe tinha preparado. Mas isso nunca irá acontecer.
Disseram-me para ter esperança no futuro. Mas que futuro posso ter, se não estou junto do homem que eu sei que é a minha alma gémea? Fomos feitos um para o outro e eu compreendo o que ele sente e ele compreende-me a mim. É por isso que somos bons amigos.
Mas falando nisso, não consigo perceber porque é que ele não me contou sobre ela. Ele sempre me contou tudo sobre a vida íntima dele. Porquê?
Mas já tenho preocupações a mais para pensar ainda mais nisso.
Só me apetece dormir e esquecer que este dia alguma vez aconteceu.
Por isso, Querido Diário, boa noite para ti. Amanhã será outro dia e tu és sempre o meu primeiro confidente.
Patrícia “.
Patrícia fechou o seu diário e guardou-o na gaveta da sua mesa de cabeceira. Sentiu algumas lágrimas a cairem, que não conseguiu parar... Os seus olhos brilhavam como as estrelas numa noite de lua cheia. Sentia-se nos seus olhos uma tristeza muito grande...
quarta-feira, agosto 04, 2004
Capítulo 9
O dia seguinte...
Parecia-lhe que tudo estava a correr bem. Estava a ter as melhores ideias desde há algum tempo. Todos os seus colegas o elogiavam pela campanha que ele estava a desenvolver.
Era tudo por causa da sua musa. Ela dava-lhe inspiração, e ele não conseguia esquecê-la.
No final do brainstorming, deixou-se ficar na sala de reuniões, enquanto todos os seus colegas tiraram uma pausa para o café.
Pedro estava absorto nos seus pensamentos, a pensar quando é que ela lhe iria telefonar, quando ouviu algo.
- Então, pá. Estás a dormir? Eu perguntei-te como é que tinha corrido a noite de ontem.
- O que é que te parece?- disse Pedro, respondendo a Carlos.
- Pela tua disposição durante a manhã, diria que muito bem.
- Foi melhor ainda. Não me farto de pensar que nunca sentido tão feliz com a vida.
- Não acredito. O velho Pedro, o Don Juan do escritório, está apaixonado por alguém. Vais desapontar muitas raparigas, que ainda não tiveram oportunidade de estar contigo.
- Não me interessa. Para mim, só existe uma mulher no mundo. Não vou pensar em mais ninguém para o resto da minha vida.
- Não é a primeira vez que dizes isso. Mas acabas sempre por voltar a ser o bom e velho Pedro. Mais cedo ou mais tarde.
- Desta vez é diferente. Eu sinto que é diferente. Não acreditas em mim?
- Eu acredito que tu acredites nisso. Mas não acho que tu possas mudar tão de repente. Uma pessoa não dá uma volta de 180 graus, desta forma...
De repente, sentiram que alguém tinha reentrado na sala.
Os dois amigos viraram-se e viram Patrícia, que tinha também decidido participar na conversa, pois parecia muito animada.
- Estávamos só a discutir o Benfica. Acho que este ano é que vai ser. Demos uma volta de 180 graus e nem mesmo a mudança de treinador irá fazer-nos parar. – disfarçou Pedro, que não queria que as novidades sobre a sua vida pessoal fossem do conhecimento de Patrícia.
- Os homens e o futebol. Eu também gosto de ver os jogos, mas não sou nenhuma fanática. Arranjem uma vida.
- Eu já tenho uma. – respondeu Carlos. Ou já te esqueceste que sou um homem de família.
- O mesmo já não posso dizer do Pedro. Do que é que estás à espera para assentar. Não achas que já é idade de cresceres e apareceres?
- Muito obrigado pela tua preocupação. Mas já sou crescidinho para tomar as minhas decisões - retorquiu Pedro, evitando reconhecer que Patrícia tinha toda a razão no que dizia.
- Desculpa se fui longe de mais. Mesmo sendo amigos há algum tempo, se calhar não te devia ter dito isto. Mas acho que nunca irás ser realmente feliz, se continuares a agir da mesma forma desde os teus tempos de faculdade.
- Patrícia... Já nos conhecemos há alguns anos e ainda não sabes quando estou a brincar. Eu não fiquei chateado com o que disseste, porque tens toda a razão. Mas a vida é minha e eu faço com ela o que eu quiser. Mas já que estamos a falar das nossas vidas amorosas, eu estou preocupado contigo, pois já não te ouço falar de um namorado há algum tempo.
- Tu sabes como é a nossa vida. Não consigo arranjar tempo suficiente para investir numa relação a sério. E eu não consigo envolver-me com alguém só com o intuito de me divertir como tu...
- Ah! Essa magoou-me – brincou Pedro, apontando para o seu coração.
- Mas estou a falar a sério. Tu sabes que eu sou uma pessoa um bocado tímida com as pessoas que não conheço, e... acho que se eu estiver destinada a alguém, mais cedo ou mais tarde, os nossos destinos irão cruzar-se.
- Mas que romântica que me saíste, Patrícia. Essa postura de mulher independente que não precisa de homens para ser feliz, afinal esconde uma sonhadora por baixo.
Carlos finalizou desta forma a conversa, que já estava a tornar-se um bocada embaraçosa para os três.
Eles sempre tinham sido bons amigos e divertiam-se sempre bastante no escritório. Mas sentiu que Pedro não queria que a conversa continuasse.
Pedro desculpou-se a dizer que tinha de fazer uns telefonemas e deixou os seus colegas na sala de reuniões.
- Não sei porque é que ele age desta forma, Carlos. Não concordas comigo?
- Oh, Patrícia, até parece que não o conheces. Ele faz sempre o que ele quer, independentemente do que eu diga, do que tu digas ou do que outra qualquer pessoa diga.
- Mas acho que ele está a desperdiçar uma boa oportunidade de ser feliz. Daqui a 5 anos, ele vai arrepender-se da vida que levou e nessa altura já poderá ser um bocado tarde.
- Tarde para quê?- perguntou Carlos.
- Tarde de mais para ele- disfarçou Patrícia, que compreendeu que já tinha falado de mais. – Se calhar ele já encontrou alguém que lhe podia fazer feliz, mas ainda não se apercebeu disso.
- Realmente, acho que ele já encontrou alguém. Não fui eu que te contei, mas acho que ele agora está realmente interessado em alguém.
- Não acredito- exclamou Patrícia, que ficou realmente surpresa com o que lhe foi dito.
- É melhor acreditares. Mas qual o teu interesse nisso?
- Nenhum em especial. Nós somos amigos, e preocupo-me com ele. E ele nunca mais me contou nada sobre a vida amorosa dele. Antes, ele contava-me tudo.
- Não sei porquê, mas algo me diz que não é só isso.
- Então, isto é um local de trabalho ou um bar? – gritou o chefe de ambos, quando os viu a conversar na sala.
- Já estamos andando- disse Carlos, ao levantar-se rapidamente da cadeira e acompanhando o chefe até à sala dele, pois tinha umas ideias que queria desenvolver.
Patrícia ainda se deixou ficar na cadeira mais um bocado. Ouviu-se um pequeno suspiro e ficou com uma expressão de resignação. Se estivesse alguém naquela sala, teria notada uma pequena lágrima a cair dos seus olhos.
Parecia-lhe que tudo estava a correr bem. Estava a ter as melhores ideias desde há algum tempo. Todos os seus colegas o elogiavam pela campanha que ele estava a desenvolver.
Era tudo por causa da sua musa. Ela dava-lhe inspiração, e ele não conseguia esquecê-la.
No final do brainstorming, deixou-se ficar na sala de reuniões, enquanto todos os seus colegas tiraram uma pausa para o café.
Pedro estava absorto nos seus pensamentos, a pensar quando é que ela lhe iria telefonar, quando ouviu algo.
- Então, pá. Estás a dormir? Eu perguntei-te como é que tinha corrido a noite de ontem.
- O que é que te parece?- disse Pedro, respondendo a Carlos.
- Pela tua disposição durante a manhã, diria que muito bem.
- Foi melhor ainda. Não me farto de pensar que nunca sentido tão feliz com a vida.
- Não acredito. O velho Pedro, o Don Juan do escritório, está apaixonado por alguém. Vais desapontar muitas raparigas, que ainda não tiveram oportunidade de estar contigo.
- Não me interessa. Para mim, só existe uma mulher no mundo. Não vou pensar em mais ninguém para o resto da minha vida.
- Não é a primeira vez que dizes isso. Mas acabas sempre por voltar a ser o bom e velho Pedro. Mais cedo ou mais tarde.
- Desta vez é diferente. Eu sinto que é diferente. Não acreditas em mim?
- Eu acredito que tu acredites nisso. Mas não acho que tu possas mudar tão de repente. Uma pessoa não dá uma volta de 180 graus, desta forma...
De repente, sentiram que alguém tinha reentrado na sala.
Os dois amigos viraram-se e viram Patrícia, que tinha também decidido participar na conversa, pois parecia muito animada.
- Estávamos só a discutir o Benfica. Acho que este ano é que vai ser. Demos uma volta de 180 graus e nem mesmo a mudança de treinador irá fazer-nos parar. – disfarçou Pedro, que não queria que as novidades sobre a sua vida pessoal fossem do conhecimento de Patrícia.
- Os homens e o futebol. Eu também gosto de ver os jogos, mas não sou nenhuma fanática. Arranjem uma vida.
- Eu já tenho uma. – respondeu Carlos. Ou já te esqueceste que sou um homem de família.
- O mesmo já não posso dizer do Pedro. Do que é que estás à espera para assentar. Não achas que já é idade de cresceres e apareceres?
- Muito obrigado pela tua preocupação. Mas já sou crescidinho para tomar as minhas decisões - retorquiu Pedro, evitando reconhecer que Patrícia tinha toda a razão no que dizia.
- Desculpa se fui longe de mais. Mesmo sendo amigos há algum tempo, se calhar não te devia ter dito isto. Mas acho que nunca irás ser realmente feliz, se continuares a agir da mesma forma desde os teus tempos de faculdade.
- Patrícia... Já nos conhecemos há alguns anos e ainda não sabes quando estou a brincar. Eu não fiquei chateado com o que disseste, porque tens toda a razão. Mas a vida é minha e eu faço com ela o que eu quiser. Mas já que estamos a falar das nossas vidas amorosas, eu estou preocupado contigo, pois já não te ouço falar de um namorado há algum tempo.
- Tu sabes como é a nossa vida. Não consigo arranjar tempo suficiente para investir numa relação a sério. E eu não consigo envolver-me com alguém só com o intuito de me divertir como tu...
- Ah! Essa magoou-me – brincou Pedro, apontando para o seu coração.
- Mas estou a falar a sério. Tu sabes que eu sou uma pessoa um bocado tímida com as pessoas que não conheço, e... acho que se eu estiver destinada a alguém, mais cedo ou mais tarde, os nossos destinos irão cruzar-se.
- Mas que romântica que me saíste, Patrícia. Essa postura de mulher independente que não precisa de homens para ser feliz, afinal esconde uma sonhadora por baixo.
Carlos finalizou desta forma a conversa, que já estava a tornar-se um bocada embaraçosa para os três.
Eles sempre tinham sido bons amigos e divertiam-se sempre bastante no escritório. Mas sentiu que Pedro não queria que a conversa continuasse.
Pedro desculpou-se a dizer que tinha de fazer uns telefonemas e deixou os seus colegas na sala de reuniões.
- Não sei porque é que ele age desta forma, Carlos. Não concordas comigo?
- Oh, Patrícia, até parece que não o conheces. Ele faz sempre o que ele quer, independentemente do que eu diga, do que tu digas ou do que outra qualquer pessoa diga.
- Mas acho que ele está a desperdiçar uma boa oportunidade de ser feliz. Daqui a 5 anos, ele vai arrepender-se da vida que levou e nessa altura já poderá ser um bocado tarde.
- Tarde para quê?- perguntou Carlos.
- Tarde de mais para ele- disfarçou Patrícia, que compreendeu que já tinha falado de mais. – Se calhar ele já encontrou alguém que lhe podia fazer feliz, mas ainda não se apercebeu disso.
- Realmente, acho que ele já encontrou alguém. Não fui eu que te contei, mas acho que ele agora está realmente interessado em alguém.
- Não acredito- exclamou Patrícia, que ficou realmente surpresa com o que lhe foi dito.
- É melhor acreditares. Mas qual o teu interesse nisso?
- Nenhum em especial. Nós somos amigos, e preocupo-me com ele. E ele nunca mais me contou nada sobre a vida amorosa dele. Antes, ele contava-me tudo.
- Não sei porquê, mas algo me diz que não é só isso.
- Então, isto é um local de trabalho ou um bar? – gritou o chefe de ambos, quando os viu a conversar na sala.
- Já estamos andando- disse Carlos, ao levantar-se rapidamente da cadeira e acompanhando o chefe até à sala dele, pois tinha umas ideias que queria desenvolver.
Patrícia ainda se deixou ficar na cadeira mais um bocado. Ouviu-se um pequeno suspiro e ficou com uma expressão de resignação. Se estivesse alguém naquela sala, teria notada uma pequena lágrima a cair dos seus olhos.
terça-feira, agosto 03, 2004
Capítulo 8
Mais vale tarde...
Tinha sido uma das melhores noites da sua vida. Pedro iria para sempre lembrar-se deste dia. Nunca se tinha sentido tão apaixonado por ninguém.
Afinal ele sempre era capaz de amar...
- E agora? – Disse Inês interrompendo os pensamentos de Pedro. – O que é que estás a pensar fazer?
- Sinceramente?... Estava a pensar levar-te a casa.
- Já? A esta hora? Sempre pensei que tivesses mais jeito para conquistar as raparigas com quem tu sais.
- Eu tenho muito jeito para isso. Mas como tu já estás conquistada, não preciso de me esforçar tanto.
- Não me digas. Não tomes as coisas como garantidas. Pretendo fazer-te trabalhar muito para conseguires alcançar os teus objectivos.
- E que objectivos são esses?- questionou Pedro, sem conseguir esconder um sorriso malicioso.
- Tu sabes bem do que eu estou a falar... – respondeu Inês, sem evitar um esboçar de sorriso.
- Não sei, não. Diz-me lá...
- Tu sabes. É aquilo em que todos os homens pensam quando levam uma rapariga inocente para jantar.
- Estás a falar da sobremesa?
- Sim, se é assim que tu lhe chamas.
- Eu e toda a gente que eu conheço. Como é que tu lhe chamarias?
- Devo avisar que não tenho muita paciência para estes jogos. É uma das coisas que tens de aprender sobre mim.
- Se queres mesmo saber, eu não queria prolongar esta noite, pois tenho medo de fazer algo que a estragasse completamente. Está tudo a correr tão bem, que não quero correr riscos.
- Eu também gostei bastante desta noite – disse com a voz mais suave que Pedro tinha ouvido, ao mesmo tempo que agarrava na sua mão. Pedro sentiu um arrepio e um nervoso interior. Gostou do toque suave e da leve carícia na sua pele. Sentiu o perfume que tanto tinha gostado e que nunca iria esquecer. Sentiu o desejo de beijá-la e de dizer a Inês que a amava. Mas controlou os seus instintos naturais e apertou com ternura a mão dela, indicando que também que também tinha vontade de reforçar a relação.
- Vamos então acabar por hoje, antes que me arrependa.
- Queres que eu te leve a casa?
- Não deixa estar que eu tomo um taxi.
- A esta hora? Nem penses. Eu dou-te boleia.
- Não é preciso. Eu não sou uma donzela indefesa que não se consegue defender. Esta não é a primeira vez que saio à noite.
- Eu insisto. Não quereria que acontecesse algo à melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos.
Ele conseguiu finalmente convencê-la a ir com ele. Continuaram a conversar animadamente durante a viagem, sem darem pelos quilómetros a passar. Quando estavam perto da casa da Inês, ela pediu para ele parar o carro. A noite estava quase a chegar ao fim.
- Eu vivo já ali à frente. Eu sei que não parece grande coisa, mas é limpa e tem espaço suficiente para guardar todas as minhas coisas.
- Realmente, não parece grande coisa. – brincou Pedro. Não queres vir morar comigo?
- Não achas que é um bocado cedo? – disse Inês com uma cara séria. Ainda agora nos conhecemos...
- Estava só a brincar. Não te queria assustar. – tentou Pedro tranquilizar a sua companhia.
- Eu percebi. Não tens grande sentido de humor. Um ponto a menos.
- Um ponto a menos? O que queres dizer com isso?
- Eu tenho um jogo com as minhas amigas, em que classificamos os nossos encontros, atribuindo pontos positivos e pontos negativos.
- E qual foi o meu resultado?
- É melhor nem saberes. Tiveste a minha pior pontuação nos últimos três anos.
- Tu és mesmo mázinha...
- Eu bem te disse que não tinhas sentido de humor. Mas é um defeito teu que vou tentar aceitar nas próximas vezes que nos encontrarmos...
- Próximas vezes? Significa que queres voltar a sair comigo?
- O que é que achas? Foi uma das melhores noites da minha vida. Nunca tinha conversado tanto com um rapaz. Parece que encontrei finalmente alguém que está interessado em algo mais do que o meu corpo.
- Por acaso, é essa a impressão que estou a tentar passar. Na prática, só me interesso por ti, porque tens um corpo espectacular. Não estou interessado no resto.
- Retiro o que disse há bocado. Afinal, sempre tens um sentido de humor.
- Parece que sim.
- Não sei porquê, sinto que me esqueci de alguma coisa.
- Tens contigo a tua bolsa?
- Não, não é isso. Bem, se fosse importante eu lembrava-me. Mas uma coisa que eu sei é que gostaria imenso de te ver outra vez...
- Eu também. Que tal amanhã?
- Vai ser complicado, pois tenho de estudar para um exame. Eu telefono-te quando puder.
- De certeza que me telefonas? Vou ficar à espera...
- Eu não perdia a oportunidade de estar contigo novamente por nada deste mundo. – disse Inês antes de dar um beijo na face de Pedro.
- Gosto mesmo de ti. E tu sabes disso, não sabes?
- Sim, eu sei.
Pedro despediu-se de Inês e viu-a a entrar o edício onde se situava o apartamento dela. Sentiu-se frustrado por não a ter beijado. Era o clímax perfeito para aquela noite. Pedro, dirigiu-se lentamente para o carro, a lamentar a sua sorte, mas com a esperança que no próximo encontro o beijo seria ainda melhor, pois a intimidade entre eles seria ainda maior.
Quando ia a abrir a porta do carro, sentiu um toque no ombro. Quando se virou, não teve tempo de reagir ao beijo nos lábios que Inês lhe deu. Sentiu que estava no céu e que se morresse naquele instante, morria como a pessoa mais feliz do mundo. Ainda tentou beijá-la novamente, mas Inês afastou lentamente os seus lábios e disse calmamente antes de se deslocar novamente para a casa dela:
- Eu sabia que me havia esquecido de algo.
Tinha sido uma das melhores noites da sua vida. Pedro iria para sempre lembrar-se deste dia. Nunca se tinha sentido tão apaixonado por ninguém.
Afinal ele sempre era capaz de amar...
- E agora? – Disse Inês interrompendo os pensamentos de Pedro. – O que é que estás a pensar fazer?
- Sinceramente?... Estava a pensar levar-te a casa.
- Já? A esta hora? Sempre pensei que tivesses mais jeito para conquistar as raparigas com quem tu sais.
- Eu tenho muito jeito para isso. Mas como tu já estás conquistada, não preciso de me esforçar tanto.
- Não me digas. Não tomes as coisas como garantidas. Pretendo fazer-te trabalhar muito para conseguires alcançar os teus objectivos.
- E que objectivos são esses?- questionou Pedro, sem conseguir esconder um sorriso malicioso.
- Tu sabes bem do que eu estou a falar... – respondeu Inês, sem evitar um esboçar de sorriso.
- Não sei, não. Diz-me lá...
- Tu sabes. É aquilo em que todos os homens pensam quando levam uma rapariga inocente para jantar.
- Estás a falar da sobremesa?
- Sim, se é assim que tu lhe chamas.
- Eu e toda a gente que eu conheço. Como é que tu lhe chamarias?
- Devo avisar que não tenho muita paciência para estes jogos. É uma das coisas que tens de aprender sobre mim.
- Se queres mesmo saber, eu não queria prolongar esta noite, pois tenho medo de fazer algo que a estragasse completamente. Está tudo a correr tão bem, que não quero correr riscos.
- Eu também gostei bastante desta noite – disse com a voz mais suave que Pedro tinha ouvido, ao mesmo tempo que agarrava na sua mão. Pedro sentiu um arrepio e um nervoso interior. Gostou do toque suave e da leve carícia na sua pele. Sentiu o perfume que tanto tinha gostado e que nunca iria esquecer. Sentiu o desejo de beijá-la e de dizer a Inês que a amava. Mas controlou os seus instintos naturais e apertou com ternura a mão dela, indicando que também que também tinha vontade de reforçar a relação.
- Vamos então acabar por hoje, antes que me arrependa.
- Queres que eu te leve a casa?
- Não deixa estar que eu tomo um taxi.
- A esta hora? Nem penses. Eu dou-te boleia.
- Não é preciso. Eu não sou uma donzela indefesa que não se consegue defender. Esta não é a primeira vez que saio à noite.
- Eu insisto. Não quereria que acontecesse algo à melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos.
Ele conseguiu finalmente convencê-la a ir com ele. Continuaram a conversar animadamente durante a viagem, sem darem pelos quilómetros a passar. Quando estavam perto da casa da Inês, ela pediu para ele parar o carro. A noite estava quase a chegar ao fim.
- Eu vivo já ali à frente. Eu sei que não parece grande coisa, mas é limpa e tem espaço suficiente para guardar todas as minhas coisas.
- Realmente, não parece grande coisa. – brincou Pedro. Não queres vir morar comigo?
- Não achas que é um bocado cedo? – disse Inês com uma cara séria. Ainda agora nos conhecemos...
- Estava só a brincar. Não te queria assustar. – tentou Pedro tranquilizar a sua companhia.
- Eu percebi. Não tens grande sentido de humor. Um ponto a menos.
- Um ponto a menos? O que queres dizer com isso?
- Eu tenho um jogo com as minhas amigas, em que classificamos os nossos encontros, atribuindo pontos positivos e pontos negativos.
- E qual foi o meu resultado?
- É melhor nem saberes. Tiveste a minha pior pontuação nos últimos três anos.
- Tu és mesmo mázinha...
- Eu bem te disse que não tinhas sentido de humor. Mas é um defeito teu que vou tentar aceitar nas próximas vezes que nos encontrarmos...
- Próximas vezes? Significa que queres voltar a sair comigo?
- O que é que achas? Foi uma das melhores noites da minha vida. Nunca tinha conversado tanto com um rapaz. Parece que encontrei finalmente alguém que está interessado em algo mais do que o meu corpo.
- Por acaso, é essa a impressão que estou a tentar passar. Na prática, só me interesso por ti, porque tens um corpo espectacular. Não estou interessado no resto.
- Retiro o que disse há bocado. Afinal, sempre tens um sentido de humor.
- Parece que sim.
- Não sei porquê, sinto que me esqueci de alguma coisa.
- Tens contigo a tua bolsa?
- Não, não é isso. Bem, se fosse importante eu lembrava-me. Mas uma coisa que eu sei é que gostaria imenso de te ver outra vez...
- Eu também. Que tal amanhã?
- Vai ser complicado, pois tenho de estudar para um exame. Eu telefono-te quando puder.
- De certeza que me telefonas? Vou ficar à espera...
- Eu não perdia a oportunidade de estar contigo novamente por nada deste mundo. – disse Inês antes de dar um beijo na face de Pedro.
- Gosto mesmo de ti. E tu sabes disso, não sabes?
- Sim, eu sei.
Pedro despediu-se de Inês e viu-a a entrar o edício onde se situava o apartamento dela. Sentiu-se frustrado por não a ter beijado. Era o clímax perfeito para aquela noite. Pedro, dirigiu-se lentamente para o carro, a lamentar a sua sorte, mas com a esperança que no próximo encontro o beijo seria ainda melhor, pois a intimidade entre eles seria ainda maior.
Quando ia a abrir a porta do carro, sentiu um toque no ombro. Quando se virou, não teve tempo de reagir ao beijo nos lábios que Inês lhe deu. Sentiu que estava no céu e que se morresse naquele instante, morria como a pessoa mais feliz do mundo. Ainda tentou beijá-la novamente, mas Inês afastou lentamente os seus lábios e disse calmamente antes de se deslocar novamente para a casa dela:
- Eu sabia que me havia esquecido de algo.
segunda-feira, agosto 02, 2004
Capítulo 7
O jantar
Eram nove da noite. Pedro estava nervoso como nunca tinha estado na sua vida. Quando é que ela chegaria?Normalmente, ele nunca esperava por ninguém. Fazia sempre questão de chegar um bocado atrasado, para dar um ar de homem atarefado, que tinha conseguido tirar umas horas da sua vida ocupada para jantar. Mas hoje era diferente. Ele teve que vir mais cedo, pois não aguentava a expectativa. Ele estava à porta do restaurante que tinha escolhido. Era um local muito simpático onde já tinha estado várias vezes, e onde se comia bastante bem. Estava uma noite limpa, onde apenas se via o luar e as estrelas a brilhar no céu. De vez em quando soprava uma pequena brisa, que o fazia arrepiar-se... Olhou novamente para o relógio. Já eram nove e quinze. Ela estava atrasada.
Pedro pensou se ela viria mesmo. Começou a sentir um aperto no coração. Nunca tinha sentido o medo de ter levado uma banhada.
Será que ela não conseguiu encontrar o resturante? Ou decidiu que não se queria envolver comigo. Resistiu à tentação de ligar-lhe para o telemóvel. Apenas lhe daria um ar desesperado.
Mas de um momento para o outro, os seus medos desvaneceram-se. Inês tinha chegado de repente, usando um vestido preto, muito justo, e que relelava a sua óptima figura.
- Olá. Desculpa lá o atraso. Sabes como é que as mulheres são. Procuram estar sempre no seu melhor. E eu sou uma pessoa atrasada por natureza. Por isso, os meus amigos já combinam as coisas comigo para meia hora antes. – disse Inês, com um ar divertido.
- Eu também cheguei agora – mentiu Pedro, a tentar esconder o seu alivio por ela ter chegado. E já agora, estás linda.
- Obrigado. Eu fiz por isso- disse com uma grande autoconfiança, a que Pedro não estava habituado. Normalmente, as mulheres com quem ele estava agradeciam e trocavam cumprimentos.
Entraram no restaurante e foram ter à mesa que Pedro tinha reservado. Ele tinha tomado todas as precauções para que a noite fosse perfeita. Nada iria estragar o que ele tinha planeado.
- Este restaurante parece-me muito simpático- disse Inês a iniciar a conversa.
- É mesmo. Já vim cá várias vezes e nunca me arrependi.
- Ai foi? Já vi que trazes aqui todas as mulheres que conheces.
Naquele instante, Pedro arrrependeu-se do que tinha dito. Tentou manter-se calmo, mas Inês insistiu.
- Pois é. Aposto que estás a seguir o teu plano padrão. Primeiro o jantar. Depois alguns copos e de seguida...
- Achas mesmo? Eu não acho que serviria de muito, pois tu és uma mulher diferente de todas o que eu conheci. Nada do que eu faço normalmente resultaria contigo.
- Acredito. E qual é que é o teu plano para esta noite?
- Tudo a seu tempo. Mas tens razão. Começa com o jantar. Eu sugiro a lasanha. È muito deliciosa.
- Acho que não. Prefiro algo mais leve. Como tu disseste hoje à tarde, estou a precisar de uma dieta.
Pedro apercebeu-se imediatamente que ela não precisava de qualquer dieta. O seu corpo era muito bem proporcionado e tinha a leveza de uma gazela. E o vestido que ela usava era perfeito, mostrando todo o seu corpo, incluindo os seus fabulosos seios.
- Pedro? Eu estou aqui! - disse Inês apontado para a sua cara, a notar que os olhos de Pedro se tinha desviado mais para baixo
- Eu sei. Mas não consegui deixar de olhar para o teu colar. È lindo. Deve ser valioso.
- Foi a minha avó que me ofereceu. É uma velha herança de família. – respondeu Inês, fingindo acreditar na explicação. Ela sentiu que Pedro não conseguia tirar os olhos dela, e gostava dessa sensação. Mas lembrou- se do que tinha acontecido ao último homem que apenas estava interessado no seu corpo.
- Então, o que vais realmente pedir? Por mim, até podias escolher o bife na frigideira com molho de natas. Tu estás perfeita. Se calhar até ficavas melhor com mais alguns quilitos.
- Tantos elogios não te levam a lado nenhum. Mas sabe sempre bem ouvi-los.
O empregado aproximou-se da mesa deles e apontou os pedidos. Passado cinco minutos, voltou com uma garrafa de espumante, das mais caras que Pedro adorava.
- Este espumante é óptimo. Tem um gosto suave e escorre facilmente pela garganta .
- Por acaso, nem sou muito adepta da bebida. Só nos bares, é que exagero um bocado. Não sou daquelas raparigas que conseguem aguentar a noite toda a beber.
- Por acaso, não foi essa a primeira impressão com que fiquei de ti.
- Tu sabes que a primeira impressão é a mais importante de todas na publicidade. – disse Inês. Mas nem sempre, dão a verdadeira imagem da pessoa. Só quando falamos com ela, é que conseguimos ver como é que ela é realmente.
- Tens razão. Mas digo-te que a primeira impressão que tive de ti marcou-me muito. Tu podes não acreditar, mas quando te vi pela primeira vez, senti que eras a minha alma gémea.
- Acreditas nisso? Eu não acho que exista alguém com quem estamos destinados a estar na vida. A vida é imprevisível, bem como o amor. Não acho que o nosso destino esteja traçado.
- Tens pouca fé no amor. Nunca sentiste algo por alguém te fizesse sentir a pessoa mais feliz do mundo? E que achasses que irias ficar com ela para sempre?
- Já. E é por isso que não acredito em almas gémeas.
Pedro não conseguiu encontrar palavras para desculpar-se pelo que tinha dito. Soube naquele instante que tinha tocado num ponto sensivel para Inês. E que ela ainda não estava preparada para lhe contar. Por isso, não insitiu na conversa e mudou rapidamente de assunto.
- Talvez tenhas razão. Mas se existissem, tu era de certeza a minha.
Ele conseguiu arrancar um sorriso sincero a ela. E ficou a gostar ainda mais dela, pois sentiu nela uma grande força interior e uma grande honestidade.
O empregado serviu o jantar. Conversaram bastante sobre as suas vidas. Pedro nunca tinha sentido tanta empatia com outra rapariga. Ficou a saber que ela ainda estava a estudar na faculdade. Estava no último ano de Psicologia e estava em altura de exames. Era filha única, pelo que foi mimada pelos pais. Mas isso não a impediu de ser uma rapariga humilde e que lutava para conseguir os seus objectivos. Tinha vindo de Cascais, quando entrou para a faculdade e vivia com duas colegas de quarto, na zona de Benfica. Trabalhava em part-time, pois não queria depender dos pais, mas sim ser independente. Era assistente numa pequena empresa de informática, que tinha sido criada há pouco tempo, com a explosão das dot. com. Pedro soube também que ela não andava com ninguém actualmente, mas ela não lhe disse nada sobre o seu passado amoroso.
Ele por sua vez, sentiu que lhe podia contar tudo. E foi o que fez. Disse não só o que fazia, onde vivia e do que gostava, mas também os motivos de ainda estar solteiro com aquela idade.
- Tu podes não acreditar, mas nunca me abri tanto com uma rapariga. Eu sinto que posso confiar em ti e que tu me compreendes.
- Sabes que quando disseste que nunca tinhas tido uma relação com mais de 5 meses, deixaste-me um pouco preocupada. Tu és daqueles homens que não consegue ligar-se a ninguém e que tem medo de expor o que realmente sente. E por isso tem medo de envolver –se mais profundamente com alguém.
- È essa a tua análise clínica? E tenho hipótese de cura, Sra. Doutora?
- Não sei bem. Recomendo uma sessão de terapia três vezes por semana, para ver se conseguimos resolver os teus problemas e identificar o que está dentro do teu subconsciente.
- Contigo, até aceitaria ir 7 dias por semana. Qualquer pessoa ficaria maluca, só para ter a oportunidade de passar umas horitas contigo.
- Tu não paras, pois não?
- Não, e vou continuar a insistir que és a mulher da minha vida sempre que estivermos juntos.
- O que não irá acontecer mais, se não parares com isso. É que eu até gosto de estar contigo, mas...
- Há sempre um mas...
- Por acaso, desta vez nem há. Eu estou a gostar imenso desta noita. Estás a superar as minhas expectativas...
- A sério? Eu bem fiz por isso?
- É certo que elas eram muito baixas, por isso não era difícil.
- Estou a ver um lado mazinho que te desconhecia...
- Foi o que já te disse. Nunca confies nas tuas primeiras impressões.
Foram interropidos pelo empregado. Eram os únicos que estavam no restaurante. A noite tinha corrido tão bem, que nem deram pelo tempo a passar. Era quase uma da manhã.... E Pedro surpreendeu-se consigo próprio, pois nunca tinha imaginado que falar com alguém o pudesse fazer tão feliz. Algo estava a mudar nele.
Pedro pagou a conta, e saíram ambos do restaurante...
Eram nove da noite. Pedro estava nervoso como nunca tinha estado na sua vida. Quando é que ela chegaria?Normalmente, ele nunca esperava por ninguém. Fazia sempre questão de chegar um bocado atrasado, para dar um ar de homem atarefado, que tinha conseguido tirar umas horas da sua vida ocupada para jantar. Mas hoje era diferente. Ele teve que vir mais cedo, pois não aguentava a expectativa. Ele estava à porta do restaurante que tinha escolhido. Era um local muito simpático onde já tinha estado várias vezes, e onde se comia bastante bem. Estava uma noite limpa, onde apenas se via o luar e as estrelas a brilhar no céu. De vez em quando soprava uma pequena brisa, que o fazia arrepiar-se... Olhou novamente para o relógio. Já eram nove e quinze. Ela estava atrasada.
Pedro pensou se ela viria mesmo. Começou a sentir um aperto no coração. Nunca tinha sentido o medo de ter levado uma banhada.
Será que ela não conseguiu encontrar o resturante? Ou decidiu que não se queria envolver comigo. Resistiu à tentação de ligar-lhe para o telemóvel. Apenas lhe daria um ar desesperado.
Mas de um momento para o outro, os seus medos desvaneceram-se. Inês tinha chegado de repente, usando um vestido preto, muito justo, e que relelava a sua óptima figura.
- Olá. Desculpa lá o atraso. Sabes como é que as mulheres são. Procuram estar sempre no seu melhor. E eu sou uma pessoa atrasada por natureza. Por isso, os meus amigos já combinam as coisas comigo para meia hora antes. – disse Inês, com um ar divertido.
- Eu também cheguei agora – mentiu Pedro, a tentar esconder o seu alivio por ela ter chegado. E já agora, estás linda.
- Obrigado. Eu fiz por isso- disse com uma grande autoconfiança, a que Pedro não estava habituado. Normalmente, as mulheres com quem ele estava agradeciam e trocavam cumprimentos.
Entraram no restaurante e foram ter à mesa que Pedro tinha reservado. Ele tinha tomado todas as precauções para que a noite fosse perfeita. Nada iria estragar o que ele tinha planeado.
- Este restaurante parece-me muito simpático- disse Inês a iniciar a conversa.
- É mesmo. Já vim cá várias vezes e nunca me arrependi.
- Ai foi? Já vi que trazes aqui todas as mulheres que conheces.
Naquele instante, Pedro arrrependeu-se do que tinha dito. Tentou manter-se calmo, mas Inês insistiu.
- Pois é. Aposto que estás a seguir o teu plano padrão. Primeiro o jantar. Depois alguns copos e de seguida...
- Achas mesmo? Eu não acho que serviria de muito, pois tu és uma mulher diferente de todas o que eu conheci. Nada do que eu faço normalmente resultaria contigo.
- Acredito. E qual é que é o teu plano para esta noite?
- Tudo a seu tempo. Mas tens razão. Começa com o jantar. Eu sugiro a lasanha. È muito deliciosa.
- Acho que não. Prefiro algo mais leve. Como tu disseste hoje à tarde, estou a precisar de uma dieta.
Pedro apercebeu-se imediatamente que ela não precisava de qualquer dieta. O seu corpo era muito bem proporcionado e tinha a leveza de uma gazela. E o vestido que ela usava era perfeito, mostrando todo o seu corpo, incluindo os seus fabulosos seios.
- Pedro? Eu estou aqui! - disse Inês apontado para a sua cara, a notar que os olhos de Pedro se tinha desviado mais para baixo
- Eu sei. Mas não consegui deixar de olhar para o teu colar. È lindo. Deve ser valioso.
- Foi a minha avó que me ofereceu. É uma velha herança de família. – respondeu Inês, fingindo acreditar na explicação. Ela sentiu que Pedro não conseguia tirar os olhos dela, e gostava dessa sensação. Mas lembrou- se do que tinha acontecido ao último homem que apenas estava interessado no seu corpo.
- Então, o que vais realmente pedir? Por mim, até podias escolher o bife na frigideira com molho de natas. Tu estás perfeita. Se calhar até ficavas melhor com mais alguns quilitos.
- Tantos elogios não te levam a lado nenhum. Mas sabe sempre bem ouvi-los.
O empregado aproximou-se da mesa deles e apontou os pedidos. Passado cinco minutos, voltou com uma garrafa de espumante, das mais caras que Pedro adorava.
- Este espumante é óptimo. Tem um gosto suave e escorre facilmente pela garganta .
- Por acaso, nem sou muito adepta da bebida. Só nos bares, é que exagero um bocado. Não sou daquelas raparigas que conseguem aguentar a noite toda a beber.
- Por acaso, não foi essa a primeira impressão com que fiquei de ti.
- Tu sabes que a primeira impressão é a mais importante de todas na publicidade. – disse Inês. Mas nem sempre, dão a verdadeira imagem da pessoa. Só quando falamos com ela, é que conseguimos ver como é que ela é realmente.
- Tens razão. Mas digo-te que a primeira impressão que tive de ti marcou-me muito. Tu podes não acreditar, mas quando te vi pela primeira vez, senti que eras a minha alma gémea.
- Acreditas nisso? Eu não acho que exista alguém com quem estamos destinados a estar na vida. A vida é imprevisível, bem como o amor. Não acho que o nosso destino esteja traçado.
- Tens pouca fé no amor. Nunca sentiste algo por alguém te fizesse sentir a pessoa mais feliz do mundo? E que achasses que irias ficar com ela para sempre?
- Já. E é por isso que não acredito em almas gémeas.
Pedro não conseguiu encontrar palavras para desculpar-se pelo que tinha dito. Soube naquele instante que tinha tocado num ponto sensivel para Inês. E que ela ainda não estava preparada para lhe contar. Por isso, não insitiu na conversa e mudou rapidamente de assunto.
- Talvez tenhas razão. Mas se existissem, tu era de certeza a minha.
Ele conseguiu arrancar um sorriso sincero a ela. E ficou a gostar ainda mais dela, pois sentiu nela uma grande força interior e uma grande honestidade.
O empregado serviu o jantar. Conversaram bastante sobre as suas vidas. Pedro nunca tinha sentido tanta empatia com outra rapariga. Ficou a saber que ela ainda estava a estudar na faculdade. Estava no último ano de Psicologia e estava em altura de exames. Era filha única, pelo que foi mimada pelos pais. Mas isso não a impediu de ser uma rapariga humilde e que lutava para conseguir os seus objectivos. Tinha vindo de Cascais, quando entrou para a faculdade e vivia com duas colegas de quarto, na zona de Benfica. Trabalhava em part-time, pois não queria depender dos pais, mas sim ser independente. Era assistente numa pequena empresa de informática, que tinha sido criada há pouco tempo, com a explosão das dot. com. Pedro soube também que ela não andava com ninguém actualmente, mas ela não lhe disse nada sobre o seu passado amoroso.
Ele por sua vez, sentiu que lhe podia contar tudo. E foi o que fez. Disse não só o que fazia, onde vivia e do que gostava, mas também os motivos de ainda estar solteiro com aquela idade.
- Tu podes não acreditar, mas nunca me abri tanto com uma rapariga. Eu sinto que posso confiar em ti e que tu me compreendes.
- Sabes que quando disseste que nunca tinhas tido uma relação com mais de 5 meses, deixaste-me um pouco preocupada. Tu és daqueles homens que não consegue ligar-se a ninguém e que tem medo de expor o que realmente sente. E por isso tem medo de envolver –se mais profundamente com alguém.
- È essa a tua análise clínica? E tenho hipótese de cura, Sra. Doutora?
- Não sei bem. Recomendo uma sessão de terapia três vezes por semana, para ver se conseguimos resolver os teus problemas e identificar o que está dentro do teu subconsciente.
- Contigo, até aceitaria ir 7 dias por semana. Qualquer pessoa ficaria maluca, só para ter a oportunidade de passar umas horitas contigo.
- Tu não paras, pois não?
- Não, e vou continuar a insistir que és a mulher da minha vida sempre que estivermos juntos.
- O que não irá acontecer mais, se não parares com isso. É que eu até gosto de estar contigo, mas...
- Há sempre um mas...
- Por acaso, desta vez nem há. Eu estou a gostar imenso desta noita. Estás a superar as minhas expectativas...
- A sério? Eu bem fiz por isso?
- É certo que elas eram muito baixas, por isso não era difícil.
- Estou a ver um lado mazinho que te desconhecia...
- Foi o que já te disse. Nunca confies nas tuas primeiras impressões.
Foram interropidos pelo empregado. Eram os únicos que estavam no restaurante. A noite tinha corrido tão bem, que nem deram pelo tempo a passar. Era quase uma da manhã.... E Pedro surpreendeu-se consigo próprio, pois nunca tinha imaginado que falar com alguém o pudesse fazer tão feliz. Algo estava a mudar nele.
Pedro pagou a conta, e saíram ambos do restaurante...
segunda-feira, junho 07, 2004
Capítulo 6
A dúvida
Pedro não conseguiu concentrar-se o dia todo. Não parava de pensar em Inês.
Pela primeira vez na vida, Pedro estava com medo de ligar a uma mulher. O seu maior pesadelo era que ela tivesse mudado de ideias e já não quisesse sair com ele...
Ou pior ainda, que o número de telemóvel que ela lhe tinha dado era falso. E se ela se tivesse enganado a escrever o número?
Todas estas ideias passaram pela sua cabeça, antes dele finalmente decidir ligar-lhe. Pouco passava da sua hora de saída (embora ele ficasse sempre mais tempo do que o previsto no seu horário de trabalho).
- Estou?- ouviu-se uma voz masculina. Pedro assustou-se. Por que razão estaria ele a ligar para um homem?
- Estou? Está aí alguém?
- Boa tarde. Podia falar com a Inês?
- Deve ser engano. Eu não conheço nenhuma Inês. Quem é que fala?
Pedro desligou se seguida o telefone, nem sequer se dignando a responder à pergunta do seu interlocutor. Por sorte, o seu telemóvel não tinha o número identificado.
Ele começou a sentir-se atrapalhado. Por que motivo não tinha ele conseguido falar com ela? Todas as hipóteses em que ele tinha pensado voltaram à sua cabeça. Com maior calma, marcou novamente o número que Inês lhe tinha dado.
- Estou? - respondeu uma voz que era claramente a de um anjo. Era ela. Devia ter marcado o número errado há bocado. O que ele iria dizer?
- Estou? Inês?
- Sim. é ela própria. Mas quem é que fala?
- O homem dos teus sonhos... - ouviu-se um riso no outro lado da linha.
- Olá, Pedro. Estava a pensar porque tinhas demorado tanto tempo a ligar. Pensei que estivesses mais interessado em mim. Depois de tudo o que me disseste...
- Tu deste-me a volta à cabeça. Estive o dia todo a pensar se te devia ou não ligar...
- E o que é que decidiste?
Pedro sorriu. Gostava de uma mulher com um bom sentido de humor.
- Decidi que já não queria ver-te novamente. Mas por uma questão de consciência, pensei que irias ficar a noite toda acordada à espera do meu telefonema,preocupada com o que poderia ter acontecido comigo...
- E decidiste-me ligar. Que atencioso...
- Na verdade, queria saber se ainda estavas interessada em jantar comigo.
- Depende. Onde é que me pensas levar?
- Ao McDonald's. Soube que agora servem umas saladas óptimas.
- Como é que adivinhaste que eu estava em dieta? Também tu achas que estou a ficar gorda...- gracejou Inês.
- Sim realmente, eu próprio disse-me a mim próprio. é melhor convidá-la hoje, porque daqui a uma semana ela já parece um hipopótamo...
- Que gentil. É a primeira vez que me chamam de hipopótamo. Tu realmente sabes o que as mulheres gostam de ouvir.
- Pois sei. Já sou um homem muito experiente. Ao contrário de ti, que és uma rapariga ingénua e que é facilmente enganada por pessoas com intenções menos respeitaveis.
- Já paraste de gozar comigo?
- Eu não estou a gozar. Aliás, eu estou falar muito a sério- disse Pedro, não conseguindo evitar uma riso.
- Pois, pois. A seguir vais dizer que és o homem da minha vida.
- Como é que adivinhaste. Nós fomos feitos um para o outro. Só preciso de uma hipótese para te mostrar isso. Vamos a um restaurante pequeno que eu conheço ao pé de Alcantara. É sossegado e muito calmo. De certeza que vais gostar.
- Espero bem que sim...
Pedro não conseguiu concentrar-se o dia todo. Não parava de pensar em Inês.
Pela primeira vez na vida, Pedro estava com medo de ligar a uma mulher. O seu maior pesadelo era que ela tivesse mudado de ideias e já não quisesse sair com ele...
Ou pior ainda, que o número de telemóvel que ela lhe tinha dado era falso. E se ela se tivesse enganado a escrever o número?
Todas estas ideias passaram pela sua cabeça, antes dele finalmente decidir ligar-lhe. Pouco passava da sua hora de saída (embora ele ficasse sempre mais tempo do que o previsto no seu horário de trabalho).
- Estou?- ouviu-se uma voz masculina. Pedro assustou-se. Por que razão estaria ele a ligar para um homem?
- Estou? Está aí alguém?
- Boa tarde. Podia falar com a Inês?
- Deve ser engano. Eu não conheço nenhuma Inês. Quem é que fala?
Pedro desligou se seguida o telefone, nem sequer se dignando a responder à pergunta do seu interlocutor. Por sorte, o seu telemóvel não tinha o número identificado.
Ele começou a sentir-se atrapalhado. Por que motivo não tinha ele conseguido falar com ela? Todas as hipóteses em que ele tinha pensado voltaram à sua cabeça. Com maior calma, marcou novamente o número que Inês lhe tinha dado.
- Estou? - respondeu uma voz que era claramente a de um anjo. Era ela. Devia ter marcado o número errado há bocado. O que ele iria dizer?
- Estou? Inês?
- Sim. é ela própria. Mas quem é que fala?
- O homem dos teus sonhos... - ouviu-se um riso no outro lado da linha.
- Olá, Pedro. Estava a pensar porque tinhas demorado tanto tempo a ligar. Pensei que estivesses mais interessado em mim. Depois de tudo o que me disseste...
- Tu deste-me a volta à cabeça. Estive o dia todo a pensar se te devia ou não ligar...
- E o que é que decidiste?
Pedro sorriu. Gostava de uma mulher com um bom sentido de humor.
- Decidi que já não queria ver-te novamente. Mas por uma questão de consciência, pensei que irias ficar a noite toda acordada à espera do meu telefonema,preocupada com o que poderia ter acontecido comigo...
- E decidiste-me ligar. Que atencioso...
- Na verdade, queria saber se ainda estavas interessada em jantar comigo.
- Depende. Onde é que me pensas levar?
- Ao McDonald's. Soube que agora servem umas saladas óptimas.
- Como é que adivinhaste que eu estava em dieta? Também tu achas que estou a ficar gorda...- gracejou Inês.
- Sim realmente, eu próprio disse-me a mim próprio. é melhor convidá-la hoje, porque daqui a uma semana ela já parece um hipopótamo...
- Que gentil. É a primeira vez que me chamam de hipopótamo. Tu realmente sabes o que as mulheres gostam de ouvir.
- Pois sei. Já sou um homem muito experiente. Ao contrário de ti, que és uma rapariga ingénua e que é facilmente enganada por pessoas com intenções menos respeitaveis.
- Já paraste de gozar comigo?
- Eu não estou a gozar. Aliás, eu estou falar muito a sério- disse Pedro, não conseguindo evitar uma riso.
- Pois, pois. A seguir vais dizer que és o homem da minha vida.
- Como é que adivinhaste. Nós fomos feitos um para o outro. Só preciso de uma hipótese para te mostrar isso. Vamos a um restaurante pequeno que eu conheço ao pé de Alcantara. É sossegado e muito calmo. De certeza que vais gostar.
- Espero bem que sim...
terça-feira, maio 18, 2004
Capítulo 5
O primeiro encontro
- Nunca fiz uma coisa destas. Mas não sei porquê, quando te vi, soube que tinha de falar contigo – começou Pedro, quando estava a tomar o quarto café do dia. Notava-se que ele já estava a ficar um bocado eléctrico.
- Aposto que dizes isso a todas as raparigas que encontras no elevador – disse a bonita ninfa com uma voz ainda mais, bela do que ele tinha alguma vez imaginado.
- Não sei se vais acreditar, mas eu já te tinha visto antes.
- Pois, pois. Não é a primeira vez que ouço isso. Não tens pontos por originalidade.
- A sério. Por acaso, tinha-te visto ontem e pensei que nunca mais ter iria ver.
- Isto está a ficar um bocado estranho. Normalmente não costuma falar com desconhecidos que encontro no elevador.
- Eu sou o Pedro, tenho 25 anos, trabalho em publicidade, solteiro e bom rapaz.
Já deixei de ser desconhecido.
- Mas ainda não me disseste o teu nome.
- Talvez ainda seja um bocado cedo para revelar. Sabes que sempre me disseram que as mulheres misteriosas eram mais interessantes.
- Uhm. Não sei quem te disse isso, mas essa pessoa está completamente certa.
- Estava só a gozar contigo. Eu sou a Inês.
- Pedro e Inês. Parece-me familiar – disse Pedro, com um ligeiro sorriso.
- Espero que a nossa possível relação não acabe de forma tão trágica- gracejou Inês, com uma graciosidade que só lhe fazia crescer o interesse por ela.
- Já estás a pensar no futuro. Eu estava a pensar num futuro mais próximo. Queres jantar comigo nesta noite?
- Não achas que é muito cedo? Ainda agora nos conhecemos. E porque pensas que quero sair contigo?
- Porque acho que o teu namorado não te merece. Tu precisas de alguém como eu para te fazer feliz.
- Tu estás um bocado presunçoso. E quem disse que eu tinha namorado?
- Uma rapariga tão atraente como tu e com uma personalidade tão cativante, deve ter tido montes de pretendentes. O dificil deve ter sido escolher...
- É essa a tua melhor frase de engate? Penseu que conseguias fazer melhor - disse Inês a gracejar.
- Porque é que não acreditas que eu estou a falar a sério?
- Porque conheço o teu tipo. Infelizmente... - suspirou Inês.
Nesse momento, Pedro olhou para os olhos de Inês e viu um brilhozinho que o emocionou. Não podia estar mais apaixonado. Era algo impensável para um homem com o seu passado.
- Suponho que já tiveste algumas decepções... - disse Pedro, a tentar dar um tom mais sério - Mas alguém que te fez sofrer, não te merece.
- E se por algum acaso, eu decidisse ir jantar contigo. E no dia seguinte um café. Depois um passeio na Praia. Eu começaria a ter sentimentos mais fortes por ti. A nossa relação iria depois para um nivel mais íntimo. E depois? Consegue prometer-me que nunca me irias magoar?
- Eu nunca te magoaria... Nem todos os homens são iguais...
- Eu sei. Mas tu és o tipo de homem com quem eu jurei nunca mais me meter. Aposto que sou apenas mais uma das tuas conquistas. Mais uma para a tua colecção...
- Vou-te dizer um segredo. Apesar de te só conhecer há uma hora, sinto que te posso dizer tudo. Até eu te conhecer, nunca pensei em ter uma relação mais estável. Eu não sou um homem que consegue comprometer-se...
- É assim que pensas convencer-me a jantar contigo? Não estás a fazer um bom trabalho- interrompeu Inês...
- ...mas sinto que és a mulher que me irá fazer mudar de atitude. Eu sinto isso no meu coração. Dá-me uma hipótese e irás ver que não te irás arrepender.
- Eu devo ser a pessoa mais estúpida do mundo...mas...
- Isso é um sim?
- ...Mas há qualquer coisa que me leve a acreditar em ti...
Inês levantou-se de repente da cadeira. E com a voz mais sexy, deu-lhe o número de telemóvel.
- Liga-me quando quiseres o tal jantar... E tu é que pagas...
Pedro sorriu e despediu-se com um beijo na face de Inês. E sentiu novamente o seu perfume que lhe fez instintivamente inspirar profundamente. Era o cheiro do amor...
À medida que Inês se afastava dele, Pedro só pensava que o Cupido tinha acertado em cheio no seu coração...
- Nunca fiz uma coisa destas. Mas não sei porquê, quando te vi, soube que tinha de falar contigo – começou Pedro, quando estava a tomar o quarto café do dia. Notava-se que ele já estava a ficar um bocado eléctrico.
- Aposto que dizes isso a todas as raparigas que encontras no elevador – disse a bonita ninfa com uma voz ainda mais, bela do que ele tinha alguma vez imaginado.
- Não sei se vais acreditar, mas eu já te tinha visto antes.
- Pois, pois. Não é a primeira vez que ouço isso. Não tens pontos por originalidade.
- A sério. Por acaso, tinha-te visto ontem e pensei que nunca mais ter iria ver.
- Isto está a ficar um bocado estranho. Normalmente não costuma falar com desconhecidos que encontro no elevador.
- Eu sou o Pedro, tenho 25 anos, trabalho em publicidade, solteiro e bom rapaz.
Já deixei de ser desconhecido.
- Mas ainda não me disseste o teu nome.
- Talvez ainda seja um bocado cedo para revelar. Sabes que sempre me disseram que as mulheres misteriosas eram mais interessantes.
- Uhm. Não sei quem te disse isso, mas essa pessoa está completamente certa.
- Estava só a gozar contigo. Eu sou a Inês.
- Pedro e Inês. Parece-me familiar – disse Pedro, com um ligeiro sorriso.
- Espero que a nossa possível relação não acabe de forma tão trágica- gracejou Inês, com uma graciosidade que só lhe fazia crescer o interesse por ela.
- Já estás a pensar no futuro. Eu estava a pensar num futuro mais próximo. Queres jantar comigo nesta noite?
- Não achas que é muito cedo? Ainda agora nos conhecemos. E porque pensas que quero sair contigo?
- Porque acho que o teu namorado não te merece. Tu precisas de alguém como eu para te fazer feliz.
- Tu estás um bocado presunçoso. E quem disse que eu tinha namorado?
- Uma rapariga tão atraente como tu e com uma personalidade tão cativante, deve ter tido montes de pretendentes. O dificil deve ter sido escolher...
- É essa a tua melhor frase de engate? Penseu que conseguias fazer melhor - disse Inês a gracejar.
- Porque é que não acreditas que eu estou a falar a sério?
- Porque conheço o teu tipo. Infelizmente... - suspirou Inês.
Nesse momento, Pedro olhou para os olhos de Inês e viu um brilhozinho que o emocionou. Não podia estar mais apaixonado. Era algo impensável para um homem com o seu passado.
- Suponho que já tiveste algumas decepções... - disse Pedro, a tentar dar um tom mais sério - Mas alguém que te fez sofrer, não te merece.
- E se por algum acaso, eu decidisse ir jantar contigo. E no dia seguinte um café. Depois um passeio na Praia. Eu começaria a ter sentimentos mais fortes por ti. A nossa relação iria depois para um nivel mais íntimo. E depois? Consegue prometer-me que nunca me irias magoar?
- Eu nunca te magoaria... Nem todos os homens são iguais...
- Eu sei. Mas tu és o tipo de homem com quem eu jurei nunca mais me meter. Aposto que sou apenas mais uma das tuas conquistas. Mais uma para a tua colecção...
- Vou-te dizer um segredo. Apesar de te só conhecer há uma hora, sinto que te posso dizer tudo. Até eu te conhecer, nunca pensei em ter uma relação mais estável. Eu não sou um homem que consegue comprometer-se...
- É assim que pensas convencer-me a jantar contigo? Não estás a fazer um bom trabalho- interrompeu Inês...
- ...mas sinto que és a mulher que me irá fazer mudar de atitude. Eu sinto isso no meu coração. Dá-me uma hipótese e irás ver que não te irás arrepender.
- Eu devo ser a pessoa mais estúpida do mundo...mas...
- Isso é um sim?
- ...Mas há qualquer coisa que me leve a acreditar em ti...
Inês levantou-se de repente da cadeira. E com a voz mais sexy, deu-lhe o número de telemóvel.
- Liga-me quando quiseres o tal jantar... E tu é que pagas...
Pedro sorriu e despediu-se com um beijo na face de Inês. E sentiu novamente o seu perfume que lhe fez instintivamente inspirar profundamente. Era o cheiro do amor...
À medida que Inês se afastava dele, Pedro só pensava que o Cupido tinha acertado em cheio no seu coração...
quarta-feira, agosto 06, 2003
Capítulo 4
Um encontro ocasional
Pedro tinha de se recompor da noite passada. Ao mesmo tempo que ia ouvindo a sua rádio favorita, tomou um duche prolongado, tentando não pensar mais na noite anterior. De seguida fez a barba e foi tomar o pequeno almoço no café do bairro. Nessa manhã, sentiu a necessidade de tomar dois cafés e comer uma enorme tosta mista.
De seguida, chamou um taxi. Tinha de ir à oficina buscar o seu Mercedes. Ele já sentia falta do seu carro. As mulheres não deviam ter direito a tirar a carta de condução.
Sempre que ele se lembrava daquele acidente, pensava que não era assim tão difícil pisar mo travão. Provavelmente, a mulher estava a conversar ao telemóvel a contar as novidades que tinha sobre o namorado da melhor amiga ou então a retocar a maquilhagem.
Pedro conduziu até ao emprego. Naquela zona era difícil estacionar, mas ele tinha direito a um lugar de estacionamento, o H13. A agência de publicidade ficava no 12 º andar de um prédio relativamente recente, que continha também três grandes empresas multinacionais na área de alimentação, uma consultora, uma escola de inglês e duas empresas na área das novas tecnologias.
Hoje tinha chegado relativamente cedo, por volta das 9h30. Não era habitual, pelo que ele devia estar um bocado perturbado. Nessa hora, o elevador parava em todos os andares, pelo que demorava uma eternidade para chegar ao último andar. Do seu gabinete, tinha uma vista lindíssima sobre a cidade.
Logo que chegou, Pedro foi tomar o seu terceiro café do dia. Às vezes, quando tinha de trabalhar até tarde, costumava tomar cinco ou seis por dia. Na sala de cafés (assim chamadas pelos colaboradores da empresa), conversava um bocado com Carlos, quando sentiu um toque leve no ombro. Era Patrícia, que tinha acabado de chegar.
- Hoje chegaste cedo. Não é nada normal chegares primeiro que eu. – gracejou Patrícia.
- Deves estar a brincar. Eu cheguei à hora habitual. Tu é que te atrasaste um bocado. Deves ter tido uma grande noite...
- Por acaso...
- Alguém teve sorte ontem à noite. Diz lá quem foi o sortudo.- perguntou Pedro, com ar de quem estava muito curioso .
- Ninguém que tu conheças. E tu não tens nada a ver com isso...
- Porque não? Tenho de zelar pela felicidade das minhas colegas. E se elas começam a sair com pessoas pouco recomendáveis...
- Sim. Pessoas como o Pedro – brincou Carlos. – Até parece que estás com ciúmes.
- Ciúmes? Como é que adivinhaste? Como é que soubeste que a Patrícia era a mulher da minha vida. Eu até estava a pensar em pedi-la hoje em casamento. Bem, fica para outra oportunidade.
- Tu? Casar? Não sei porquê, mas não te vejo a estar casado. Parece-me que vais ficar solteiro para o resto da vida. E vais ter ai uns três ou quatro filhos de mulheres casadas – replicou Patrícia, que estava a gostar daquela conversa.
- As pessoas podem mudar. Não concordas?
Carlos fingiu que pensava um bocado e depois respondeu à pergunta de Pedro.
- As pessoas sim. Mas tu vais ficar sempre na mesma.
- Vou considerar isso como sendo um elogio.
De repente, um telemóvel tocou. Pedro procurou o telemóvel no bolso do casco, mas não o conseguiu encontrar.
- Merda. Não me digam que eu perdi o telemóvel.
- Não o deixaste em cima da tua mesa?
- Acho que não. A última vez que me lembro de o ter utilizado, foi no carro, quando liguei para a minha irmã.
- Não te preocupes. O mais provável é teres deixado-o no teu Mercedes. E como é que ele estava, quando o foste buscar?
- Estava como novo. Não se via nem um risco. E fizeram uma limpeza ao carro. Limpara e aspiraram–no completamente. Já sabes como sou desarrumado.
- Pois. Desde momento que estivemos três horas à procura daquele briefing para o cliente na tua secretária. Parecia que estávamos no meio de uma guerra. Imagina que ainda lá estava um jornal de três meses atrás, ainda por ler.
- Homens! Não se importam de viver em pocilgas. E ainda te admiras de nenhuma mulher querer entrar em tua casa- Retorquiu Patrícia.
Pedro assentiu com um abanar de cabeça e desceu até à garagem. Ficou aliviado quando encontrou o telemóvel no carro. Mas tinha uma chamada não atendida, de um número não identificado. Ele detestava quando aquilo acontecia. Mas pensava sempre que se fosse realmente importante, voltavam a ligar.
Chamou novamente o elevador para subir, que surpreendentemente, chegou num instante. Quando parou no rês de chão, Pedro quase teve um ataque cardíaco. Qual não foi a sua surpresa quando viu entrar no elevador a mulher que tanto o tinha perturbado no dia anterior.
Quando ela disse bom dia, ele sentiu-se diferente, incapaz de pronunciar uma única palavra. O seu coração batia cada vez mais rápido, sem que ele o pudesse fazer qualquer coisa. Ela era mais linda do que ele pensava. Vestia um daqueles vestidos floridos, que as raparigas costumam usar no verão, que evidenciavam todas as curvas do corpo feminino. E o cheiro dela não ajudava. Devia ser o perfume com o aroma mais delicioso que tinha encontrado. Só lhe apetecia cheirar a parte de trás do pescoço e dar-lhe um beijo suave.
Mas nada. Ele não tinha qualquer reacção. Ela ia para o 10º andar. O tempo não era muito. A sua mente estava nublada, sem qualquer indício do que deveria fazer. Era talvez a última hipótese que teria para poder falar com ela. Tinha de dizer qualquer coisa.
- Sabias que “em 1930 um homem foi preso, acusado de bestialismo por molestar sexualmente um pato em Nova Iorque” * ?
Tinha sido a coisa mais parva que tinha dito na vida. Tinha ouvido essa notícia de manhã na rádio, e foi a única coisa que lhe tinha vindo à cabeça. Seguiu-se um momento muito embaraçoso para ele. Será que ela achava que ele era um tarado sexual? Tinha desperdiçado a melhor oportunidade da sua vida.
- Sim, sabia. Isso é ... um desbloqueador de conversa – respondeu de forma surpreendente. – também a ouvi hoje de manhã. Eu não consigo perder um único programa. É um dos meus únicos vícios.
O seu sorriso era um dos mais bonito s que tinha visto. E a simpatia com que respondeu fê-lo pensar que ela tinha gostado do que ele tinha dito.
- Eu tenho de ouvir todos os dias esse programa. As minhas manhãs são terríveis. Custa-me muito acordar.
O elevador chegou ao 10 º andar. Ela despediu-se e ia a sair do elevador, quando Pedro gritou:
- Eu sei que pode parecer um bocado repentino, mas queres tomar um cafézinho?
* in “O Homem que mordeu o cão”
Pedro tinha de se recompor da noite passada. Ao mesmo tempo que ia ouvindo a sua rádio favorita, tomou um duche prolongado, tentando não pensar mais na noite anterior. De seguida fez a barba e foi tomar o pequeno almoço no café do bairro. Nessa manhã, sentiu a necessidade de tomar dois cafés e comer uma enorme tosta mista.
De seguida, chamou um taxi. Tinha de ir à oficina buscar o seu Mercedes. Ele já sentia falta do seu carro. As mulheres não deviam ter direito a tirar a carta de condução.
Sempre que ele se lembrava daquele acidente, pensava que não era assim tão difícil pisar mo travão. Provavelmente, a mulher estava a conversar ao telemóvel a contar as novidades que tinha sobre o namorado da melhor amiga ou então a retocar a maquilhagem.
Pedro conduziu até ao emprego. Naquela zona era difícil estacionar, mas ele tinha direito a um lugar de estacionamento, o H13. A agência de publicidade ficava no 12 º andar de um prédio relativamente recente, que continha também três grandes empresas multinacionais na área de alimentação, uma consultora, uma escola de inglês e duas empresas na área das novas tecnologias.
Hoje tinha chegado relativamente cedo, por volta das 9h30. Não era habitual, pelo que ele devia estar um bocado perturbado. Nessa hora, o elevador parava em todos os andares, pelo que demorava uma eternidade para chegar ao último andar. Do seu gabinete, tinha uma vista lindíssima sobre a cidade.
Logo que chegou, Pedro foi tomar o seu terceiro café do dia. Às vezes, quando tinha de trabalhar até tarde, costumava tomar cinco ou seis por dia. Na sala de cafés (assim chamadas pelos colaboradores da empresa), conversava um bocado com Carlos, quando sentiu um toque leve no ombro. Era Patrícia, que tinha acabado de chegar.
- Hoje chegaste cedo. Não é nada normal chegares primeiro que eu. – gracejou Patrícia.
- Deves estar a brincar. Eu cheguei à hora habitual. Tu é que te atrasaste um bocado. Deves ter tido uma grande noite...
- Por acaso...
- Alguém teve sorte ontem à noite. Diz lá quem foi o sortudo.- perguntou Pedro, com ar de quem estava muito curioso .
- Ninguém que tu conheças. E tu não tens nada a ver com isso...
- Porque não? Tenho de zelar pela felicidade das minhas colegas. E se elas começam a sair com pessoas pouco recomendáveis...
- Sim. Pessoas como o Pedro – brincou Carlos. – Até parece que estás com ciúmes.
- Ciúmes? Como é que adivinhaste? Como é que soubeste que a Patrícia era a mulher da minha vida. Eu até estava a pensar em pedi-la hoje em casamento. Bem, fica para outra oportunidade.
- Tu? Casar? Não sei porquê, mas não te vejo a estar casado. Parece-me que vais ficar solteiro para o resto da vida. E vais ter ai uns três ou quatro filhos de mulheres casadas – replicou Patrícia, que estava a gostar daquela conversa.
- As pessoas podem mudar. Não concordas?
Carlos fingiu que pensava um bocado e depois respondeu à pergunta de Pedro.
- As pessoas sim. Mas tu vais ficar sempre na mesma.
- Vou considerar isso como sendo um elogio.
De repente, um telemóvel tocou. Pedro procurou o telemóvel no bolso do casco, mas não o conseguiu encontrar.
- Merda. Não me digam que eu perdi o telemóvel.
- Não o deixaste em cima da tua mesa?
- Acho que não. A última vez que me lembro de o ter utilizado, foi no carro, quando liguei para a minha irmã.
- Não te preocupes. O mais provável é teres deixado-o no teu Mercedes. E como é que ele estava, quando o foste buscar?
- Estava como novo. Não se via nem um risco. E fizeram uma limpeza ao carro. Limpara e aspiraram–no completamente. Já sabes como sou desarrumado.
- Pois. Desde momento que estivemos três horas à procura daquele briefing para o cliente na tua secretária. Parecia que estávamos no meio de uma guerra. Imagina que ainda lá estava um jornal de três meses atrás, ainda por ler.
- Homens! Não se importam de viver em pocilgas. E ainda te admiras de nenhuma mulher querer entrar em tua casa- Retorquiu Patrícia.
Pedro assentiu com um abanar de cabeça e desceu até à garagem. Ficou aliviado quando encontrou o telemóvel no carro. Mas tinha uma chamada não atendida, de um número não identificado. Ele detestava quando aquilo acontecia. Mas pensava sempre que se fosse realmente importante, voltavam a ligar.
Chamou novamente o elevador para subir, que surpreendentemente, chegou num instante. Quando parou no rês de chão, Pedro quase teve um ataque cardíaco. Qual não foi a sua surpresa quando viu entrar no elevador a mulher que tanto o tinha perturbado no dia anterior.
Quando ela disse bom dia, ele sentiu-se diferente, incapaz de pronunciar uma única palavra. O seu coração batia cada vez mais rápido, sem que ele o pudesse fazer qualquer coisa. Ela era mais linda do que ele pensava. Vestia um daqueles vestidos floridos, que as raparigas costumam usar no verão, que evidenciavam todas as curvas do corpo feminino. E o cheiro dela não ajudava. Devia ser o perfume com o aroma mais delicioso que tinha encontrado. Só lhe apetecia cheirar a parte de trás do pescoço e dar-lhe um beijo suave.
Mas nada. Ele não tinha qualquer reacção. Ela ia para o 10º andar. O tempo não era muito. A sua mente estava nublada, sem qualquer indício do que deveria fazer. Era talvez a última hipótese que teria para poder falar com ela. Tinha de dizer qualquer coisa.
- Sabias que “em 1930 um homem foi preso, acusado de bestialismo por molestar sexualmente um pato em Nova Iorque” * ?
Tinha sido a coisa mais parva que tinha dito na vida. Tinha ouvido essa notícia de manhã na rádio, e foi a única coisa que lhe tinha vindo à cabeça. Seguiu-se um momento muito embaraçoso para ele. Será que ela achava que ele era um tarado sexual? Tinha desperdiçado a melhor oportunidade da sua vida.
- Sim, sabia. Isso é ... um desbloqueador de conversa – respondeu de forma surpreendente. – também a ouvi hoje de manhã. Eu não consigo perder um único programa. É um dos meus únicos vícios.
O seu sorriso era um dos mais bonito s que tinha visto. E a simpatia com que respondeu fê-lo pensar que ela tinha gostado do que ele tinha dito.
- Eu tenho de ouvir todos os dias esse programa. As minhas manhãs são terríveis. Custa-me muito acordar.
O elevador chegou ao 10 º andar. Ela despediu-se e ia a sair do elevador, quando Pedro gritou:
- Eu sei que pode parecer um bocado repentino, mas queres tomar um cafézinho?
* in “O Homem que mordeu o cão”
terça-feira, agosto 05, 2003
Capítulo 3
O Sonho
Quando Pedro acordou, tentou recordar-se de todos os pormenores do sonho que tinha tido.
Ele só pensava que nunca tinha tido um sonho como aquele.
Só se lembrava de alguns pormenores. Mas que pormenores...
Era uma manhã linda de Primavera. Ele estava dentro de uma igreja para assistir a um casamento. Estava sentado junto de uma mulher muito atraente que nunca tinha visto e a combinar um encontro para depois do copo de água, quanto ouve a marcha nupcial a anunciar a entrada da noiva.
Era a mulher que tinha encontrado no dia anterior. Nunca tinha visto um anjo tão bonito na terra. Vestia um lindo vestido branco, muito trabalhado que mostravam um decote pouco profundo, mas que ainda assim faziam suspirar qualquer homem na sala.
Quando a noiva chegou ao altar, o padre perguntou onde estava o noivo. Todos os olhos se viraram para Pedro e para a sua acompanhante com um ar reprovador.
- O que estás a a fazer aí? Não devias estar junto da Susana? – gritou Pedro, que era o seu padrinho.
Ele correu então o mais depressa possível em direcção à porta da igreja, e quando estava prestes a sair, ouviu uma voz doce que mais parecia de um anjo:
- Eu amo-te. – disse Susana, com lágrimas nos olhos.
Foi o suficiente para Pedro deixar de correr. Ele inspirou fundo e deslocou-se lentamente para junto da sua noiva. Quando se encontrou junto dela, pediu-lhe desculpas e beijou-a na boca...
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Foi esse beijo que o fez acordar do sonho. Mais propriamente, dum pesadelo. Sim, porque para ele, o casamento era o maior tormento que poderia acontecer a um homem. O homem não é um ser monogâmico por natureza. Tem a necessidade de ter várias parceiras. Por isso, o casamento era algo contra a natureza do homem. Para além, disso, era também como ser condenado a prisão perpétua, pois ficaria privado para sempre da sua liberdade.
Foi isso que o assustou. Nunca tinha pensado em casar, ainda para mais numa altura em que estava no pleno da sua vida.
Mas aquela mulher tinha-o perturbado. E ele nunca mais a iria ver na vida....
Susana? Seria esse o seu nome? Ou seria Maria? Ana? Marta?
Não, Susana parecia bem. Seria a sua Suzie.
Pedro sentiu que tinha de sair daquele estado de quase catatonia. Tinha de encarar a realidade. Tinha tido um bilhete de lotaria premiado nas mãos, mas tinha-o perdido antes de o pode reclamar.
Mais valia pensar em outras mulheres que também nunca iria ter: a Giselle Bunchen, a Laetitia Casta ou a Marisa Cruz.
Quando Pedro acordou, tentou recordar-se de todos os pormenores do sonho que tinha tido.
Ele só pensava que nunca tinha tido um sonho como aquele.
Só se lembrava de alguns pormenores. Mas que pormenores...
Era uma manhã linda de Primavera. Ele estava dentro de uma igreja para assistir a um casamento. Estava sentado junto de uma mulher muito atraente que nunca tinha visto e a combinar um encontro para depois do copo de água, quanto ouve a marcha nupcial a anunciar a entrada da noiva.
Era a mulher que tinha encontrado no dia anterior. Nunca tinha visto um anjo tão bonito na terra. Vestia um lindo vestido branco, muito trabalhado que mostravam um decote pouco profundo, mas que ainda assim faziam suspirar qualquer homem na sala.
Quando a noiva chegou ao altar, o padre perguntou onde estava o noivo. Todos os olhos se viraram para Pedro e para a sua acompanhante com um ar reprovador.
- O que estás a a fazer aí? Não devias estar junto da Susana? – gritou Pedro, que era o seu padrinho.
Ele correu então o mais depressa possível em direcção à porta da igreja, e quando estava prestes a sair, ouviu uma voz doce que mais parecia de um anjo:
- Eu amo-te. – disse Susana, com lágrimas nos olhos.
Foi o suficiente para Pedro deixar de correr. Ele inspirou fundo e deslocou-se lentamente para junto da sua noiva. Quando se encontrou junto dela, pediu-lhe desculpas e beijou-a na boca...
--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Foi esse beijo que o fez acordar do sonho. Mais propriamente, dum pesadelo. Sim, porque para ele, o casamento era o maior tormento que poderia acontecer a um homem. O homem não é um ser monogâmico por natureza. Tem a necessidade de ter várias parceiras. Por isso, o casamento era algo contra a natureza do homem. Para além, disso, era também como ser condenado a prisão perpétua, pois ficaria privado para sempre da sua liberdade.
Foi isso que o assustou. Nunca tinha pensado em casar, ainda para mais numa altura em que estava no pleno da sua vida.
Mas aquela mulher tinha-o perturbado. E ele nunca mais a iria ver na vida....
Susana? Seria esse o seu nome? Ou seria Maria? Ana? Marta?
Não, Susana parecia bem. Seria a sua Suzie.
Pedro sentiu que tinha de sair daquele estado de quase catatonia. Tinha de encarar a realidade. Tinha tido um bilhete de lotaria premiado nas mãos, mas tinha-o perdido antes de o pode reclamar.
Mais valia pensar em outras mulheres que também nunca iria ter: a Giselle Bunchen, a Laetitia Casta ou a Marisa Cruz.
segunda-feira, agosto 04, 2003
Capítulo 2
No trabalho
Pedro chegou ao emprego por volta das 11h00. Já era habitual que ele chegasse ao escritório um pouco antes da hora do almoço.
Mas desta vez, existia uma coisa diferente. Quando chegava, Pedro começava logo a pensar na campanha publicitária que tinha em mãos. Mas desta vez, ele não conseguia deixar de pensar na mulher que tinha visto.
- Em que estás a pensar? - perguntou Carlos, ao ve-lo tão distraído. Tinham-se conhecido há cerca de dois anos, quando entraram ambos para a mesma agência. Ele era o oposto dele, e se calhar era essa a razão porque se tinham tornado bons amigos.
Carlos era um homem responsável, que tinha casado com a namorada do liceu, após seis anos de namoro. Mas mesmo assim, conseguiram entender-se logo no momento em que se conheceram.
- Pedro? Está alguém em casa?
- Hum?! Desculpa lá. Mas estava distraído.
- Deixa-me adivinhar. Estavas a pensar numa rapariga qualquer que acabaste de ver na rua?- disse Carlos a sorrir.
- Como é que adivinhaste?
- Eu já te conheço há algum tempo. E sei que daqui a meia hora já estás a pensar na melhor forma de convidar a Luísa, da contabilidade para sair hoje à noite.
- Mas ela não arranjou um namorado há duas semanas?
- Isso nunca te impediu antes.
- Pois não Enquanto elas não tiverem um anel no dedo, para mim ainda estão disponíveis. Mas desta vez é diferente.
- Pois. Foi um amor à primeira vista.
- Amor? Quem falou em amor? Eu encontrei a mulher mais boa do mundo e tu vens cá falar-me em amor?
- Ah! Este já é o Pedro que eu conheço...
- Mas digo-te, nunca tinha tido um desejo tão forte de estar com alguém. Ela não é melhor do que a Marisa Cruz e a Pamela Anderson juntas.
- Deves estar mesmo apanhado por ela. Sempre disseste que não existia ninguém como a Marisa Cruz.
- Eu estava enganado. Mas agora não sei o que fazer.
- Porque não experimentas telefonar-lhe?
- Porque não tenho o número de telefone dela. Não cheguei a falar com ela. E acho que nunca mais a vou ver....
- Do que estão a falar? - interrompeu Patrícia. Patrícia era a única mulher que estava na equipa criativa de agência. Era uma mulher muito engraçada, morena, e com uma alegria contagiante. Pedro sempre a achara muito atraente, mas nunca a tinha convidado para sair.
- Nada de especial.- disse Carlos. Estávamos só a discutir a vida amorosa do Pedro.
- Ah! Deve ter sido um conversa muito curta?
- Engraçadinha - gracejou Pedro. Até parece que tu tens uma vida amorosa.
- Mas eu não estou com ninguém por opção. Sou uma mulher independente que não tem tempo para ter uma vida pessoal. Tu sabes como são os nossos horários.
- Pois. São desculpas. Tu estáss é à espera que alguém deste escritório te convide para tomar um copo- brincou Carlos, sem imaginar que Patrícia iria ficar vermelhíssima.
- Nãoo acham que é altura de começarmos a trabalhar? Temos um deadline amanhã e acho que a Patrícia já está arrependida de nos ter interrompido.
Foi desta forma que Pedro decidiu terminar conversa, porque sabia que o trabalho era a melhor forma de não pensar noutras coisas.
...................................................................................................
Depois de um árduo dia de trabalho, em que o almoço tinha sido uma sandes de atum comprada à pressa numa loja de sandes que ficava perto do escritório , Pedro preparava-se para sair quando ouviu Carlos a chamá-lo.
- Então, já de saída?
- Já? São dez da noite e estou mesmo a precisar de jantar.
- Já esqueceste a tal rapariga?
- Bem, até tu falares agora, nunca mais tinha pensado nela.
- O Pedro que eu conheço está de volta. Bem vindo.
- Não gozes comigo. E tu? A tua mulher não está à tua espera, em casa?
- Ela a esta hora deve estar a ver a telenovela, por isso não vai sentir minimamente a minha falta até à meia-noite.
- Ela e mais metade de Portugal...
Pedro despediu-se de Carlos. Apanhou o taxi que tinha chamado e foi para casa. Era uma casa enorme e muito vazia. Via-se que não vivia lá uma mulher. Tinha um móvel com uma televisão de plasma, um leitor DVD, cinco colunas enormes, um subwoofer, um PC topo de gama. Não havia outra decoração, que Pedro considerava como sendo mariquices próprias de mulheres.
Foi à cozinha, retirou a lasanha do congelador, colocou-a durante 10 minutos no microondas e comeu-na na sala, enquanto via um daqueles concursos em que se mostrava o quão ignorantes são os portugueses. Era uma comédia melhor do que os Malucos do Riso.
Ele tinha tido um dia muito cansativo e adormeceu na sala , ao mesmo que uma concorrente respondia que cinco ao quadrado eram 10.
Pedro chegou ao emprego por volta das 11h00. Já era habitual que ele chegasse ao escritório um pouco antes da hora do almoço.
Mas desta vez, existia uma coisa diferente. Quando chegava, Pedro começava logo a pensar na campanha publicitária que tinha em mãos. Mas desta vez, ele não conseguia deixar de pensar na mulher que tinha visto.
- Em que estás a pensar? - perguntou Carlos, ao ve-lo tão distraído. Tinham-se conhecido há cerca de dois anos, quando entraram ambos para a mesma agência. Ele era o oposto dele, e se calhar era essa a razão porque se tinham tornado bons amigos.
Carlos era um homem responsável, que tinha casado com a namorada do liceu, após seis anos de namoro. Mas mesmo assim, conseguiram entender-se logo no momento em que se conheceram.
- Pedro? Está alguém em casa?
- Hum?! Desculpa lá. Mas estava distraído.
- Deixa-me adivinhar. Estavas a pensar numa rapariga qualquer que acabaste de ver na rua?- disse Carlos a sorrir.
- Como é que adivinhaste?
- Eu já te conheço há algum tempo. E sei que daqui a meia hora já estás a pensar na melhor forma de convidar a Luísa, da contabilidade para sair hoje à noite.
- Mas ela não arranjou um namorado há duas semanas?
- Isso nunca te impediu antes.
- Pois não Enquanto elas não tiverem um anel no dedo, para mim ainda estão disponíveis. Mas desta vez é diferente.
- Pois. Foi um amor à primeira vista.
- Amor? Quem falou em amor? Eu encontrei a mulher mais boa do mundo e tu vens cá falar-me em amor?
- Ah! Este já é o Pedro que eu conheço...
- Mas digo-te, nunca tinha tido um desejo tão forte de estar com alguém. Ela não é melhor do que a Marisa Cruz e a Pamela Anderson juntas.
- Deves estar mesmo apanhado por ela. Sempre disseste que não existia ninguém como a Marisa Cruz.
- Eu estava enganado. Mas agora não sei o que fazer.
- Porque não experimentas telefonar-lhe?
- Porque não tenho o número de telefone dela. Não cheguei a falar com ela. E acho que nunca mais a vou ver....
- Do que estão a falar? - interrompeu Patrícia. Patrícia era a única mulher que estava na equipa criativa de agência. Era uma mulher muito engraçada, morena, e com uma alegria contagiante. Pedro sempre a achara muito atraente, mas nunca a tinha convidado para sair.
- Nada de especial.- disse Carlos. Estávamos só a discutir a vida amorosa do Pedro.
- Ah! Deve ter sido um conversa muito curta?
- Engraçadinha - gracejou Pedro. Até parece que tu tens uma vida amorosa.
- Mas eu não estou com ninguém por opção. Sou uma mulher independente que não tem tempo para ter uma vida pessoal. Tu sabes como são os nossos horários.
- Pois. São desculpas. Tu estáss é à espera que alguém deste escritório te convide para tomar um copo- brincou Carlos, sem imaginar que Patrícia iria ficar vermelhíssima.
- Nãoo acham que é altura de começarmos a trabalhar? Temos um deadline amanhã e acho que a Patrícia já está arrependida de nos ter interrompido.
Foi desta forma que Pedro decidiu terminar conversa, porque sabia que o trabalho era a melhor forma de não pensar noutras coisas.
...................................................................................................
Depois de um árduo dia de trabalho, em que o almoço tinha sido uma sandes de atum comprada à pressa numa loja de sandes que ficava perto do escritório , Pedro preparava-se para sair quando ouviu Carlos a chamá-lo.
- Então, já de saída?
- Já? São dez da noite e estou mesmo a precisar de jantar.
- Já esqueceste a tal rapariga?
- Bem, até tu falares agora, nunca mais tinha pensado nela.
- O Pedro que eu conheço está de volta. Bem vindo.
- Não gozes comigo. E tu? A tua mulher não está à tua espera, em casa?
- Ela a esta hora deve estar a ver a telenovela, por isso não vai sentir minimamente a minha falta até à meia-noite.
- Ela e mais metade de Portugal...
Pedro despediu-se de Carlos. Apanhou o taxi que tinha chamado e foi para casa. Era uma casa enorme e muito vazia. Via-se que não vivia lá uma mulher. Tinha um móvel com uma televisão de plasma, um leitor DVD, cinco colunas enormes, um subwoofer, um PC topo de gama. Não havia outra decoração, que Pedro considerava como sendo mariquices próprias de mulheres.
Foi à cozinha, retirou a lasanha do congelador, colocou-a durante 10 minutos no microondas e comeu-na na sala, enquanto via um daqueles concursos em que se mostrava o quão ignorantes são os portugueses. Era uma comédia melhor do que os Malucos do Riso.
Ele tinha tido um dia muito cansativo e adormeceu na sala , ao mesmo que uma concorrente respondia que cinco ao quadrado eram 10.
sexta-feira, junho 20, 2003
Capítulo 1
O Primeiro dia
Tudo começou num dia como tantos outros. Era um dia cinzento, com o céu coberto de nuvens que apenas deixavam passar alguns raios de sol.
Pedro estava a andar calmamente numa das ruas mais movimentadas de Lisboa, quando tudo aconteceu...
Ele era um jovem publicitário de 25 anos, e que era o sonho de qualquer mulher. Tinha acabado de comprar uma casa nova com 4 assoalhadas no centro de Lisboa (com um empréstimo de 30 anos), tinha um Mercedes do último modelo (que estava na oficina devido a um toque sofrido num acidente causado por uma condutora sem qualquer experiência) e tinha sido recentemente promovido. Era um homem elegante, que fazia musculação 3 vezes por semana no ginásio ao pé de casa e que tinha sido modelo durante os anos de faculdade para pagar as despesas. Desde os 18 anos que vivia sozinho. Quando foi para a faculdade, estava decidido a tornar-se independente dos seus pais, que tinham fortuna mais do que suficiente para que o filho nunca precissasse de trabalhar.
Mas ele estava decidido a ser livre e seguir a seu próprio caminho, sem estar sujeito a ninguém.
Ele nunca se sentiu preso por qualquer mulher. A sua única paixão tinha sido a Joana. Colega desde o primeiro ano da faculdade, tinham-se aproximado porque tinham em comum uma forte vontade de viver as coisas dia-a-dia nunca pensando no futuro. Eram pessoas muito parecidas que faziam sempre o que queria, independentemente do que os outros pensassem. Mas um certo dia, Joana decidiu que queria algo mais. Foi nesse preciso momento que começou o fim da relação. Pedro nunca tinha pensado em ter uma relação muito séria que pudesse cortar a sua liberdade.
Desde esse dia, há quase quatro anos, que Pedro já tinha tido cerca de 15 namoradas. Nenhuma relação nunca durou mais de dois meses. Inexplicavelmente, ou talvez não, sempre que Pedro conseguia o que queria, desinteressava-se rapidamente. Perdia totalmente o desejo pela sua companheira. E após uma semana sem responder aos telefonemas, passava para a rapariga seguinte.
Até aquele dia. Pedro viu-a do outro lado da rua. Já tinha estado raparigas mais giras e mais sexys. Mas nunca tinha sentido nada assim. Ele não conseguiu perceber o que estava a passar dentro dele. Foi atracção à primeira vista. Foi algo instintivo. Ela era alta, loira e de olhos claros. Vestia uma mini saia curtinha e um top branco que não mostrava quase nada do seu corpo. Devia ter uns 20 ou 21 anos e devia andar na faculdade, porque levava debaixo do braço um livro ou uma enciclopédia que parecia muito pesada.
Tentou atravessar rapidamente a rua, mas foi impedido pelos carros que passavam a alta velocidade. Assim, sem poder fazer nada, viu-a a entrar num Fiat Uno já com alguns anos e ir-se embora.
Foi a primeira vez que ele a viu. Ele não sabia que não seria a última vez que se encontrariam.
Subscrever:
Mensagens (Atom)