segunda-feira, abril 13, 2009

Capítulo 17

O dia seguinte... – Parte I

Eram nove da manhã quando Pedro chegou ao seu escritório. Tinha sido uma noite muito difícil para ele, pois tinha perdido a conta ao número de vezes que tinha ligado para o telemóvel de Inês, sem qualquer sucesso. Ele sabia que tinha procedido mal, mas o erro que tinha cometido não era motivo suficiente para ela ter acabado tudo, sem lhe dar uma nova oportunidade.

Quando chegou ao pé de Carlos, este notou logo que algo se tinha passado. A cara sorridente que o seu amigo tinha tido nos últimos tempos, tinha desaparecido. E ele sabia que Pedro iria precisar muito do seu apoio para ultrapassar esta fase menos boa porque estava a passar. Por isso, achou que o melhor seria mesmo conseguir ele ele desabafasse e perguntou ao amigo se queria fazer uma pausa para tomar um cafe.
Pedro assentiu com ligeiro acenar de cabeça, e desceram até um cafézinho perto do escritório, que estava sempre muito vazio.

- Então, o que é que aconteceu ontem contigo? Porque é que estás assim?
- Ela acabou tudo comigo... – respondeu Pedro num tom muito baixo – Não consigo acreditar...
- O que é que tu fizeste?
- Lá estás tu a assumir que a culpa foi minha.
- E não foi?
- ... Sim, a culpa foi minha, mas acho que ela exagerou bastante e não me deixou explicar porque lhe tinha mentido.
- Mas o que é que lhe disseste para ela não te ter perdoado?
- Eu não fiz nada de mais. Eu tinha-lhe dito que tinho ido almoçar com um colega, pois não queria que ela pensasse que eu estava a sair com outras mulheres... Mas ela viu-me ontem a almoçar com a Patrícia e ficou completamente passada comigo.
- Já devias saber melhor... Mais facilmente se apanha um mentiroso do que...
- Mas foi uma mentirinha inocente. Tu sabes que eu e a Patrícia somos apenas amigos...
- Sim, mas a Inês não. E ainda pioraste as coisas, quando lhe mentiste. Mais valia teres-lhe dito a verdade...
- Mas eu não queria estragar as coisas com ela. Estava tudo a correr tão bem, que não queria causar-lhe uma crise de ciúmes...
- É fácil de perceber que já não estás numa relação séria há muito tempo... Sabes que a confiança é daquelas coisas que mais demora a construir, mas basta uma pequena coisa para a destruir completamente. E começar a mentir, logo no início da relação, por mais pequena que seja a mentira, é meio caminho andado para algo correr mal...
- Agora sei disso, mas ela nem me dá uma oportunidade para eu me desculpar...
- Imagino que ela nem atenda as tuas chamadas...
- Ela rejeita logo as chamadas... Já tentei enviar várias mensagens a dizer-lhe que preciso de falar com ela, mas nem sei se ela as leu....
- Tens de ter calma... Tens de ser paciente e dar-lhe algum tempo para acalmar.
- Achas que ela irá alguma vez atender as minhas chamadas?
- Acho que se ela gosta tanto de ti como tu dizias, então mais cedo ou mais tarde, vai acabar por ceder, e dar-te uma hipótese para explicares...
- Achas mesmo?
- Tenho a certeza disso. Só não te posso garantir que as coisas voltem a ser como dantes...
- Eu sei disso, mas se ela me ouvir, tenho a certeza de que ela compreenderá que só lhe menti, pois gosto tanto dela que não a queria magoar.
- Vê-se mesmo que tu não és o Pedro que eu conhecia... A pensar no que os outros sentem antes de pensar nele...
- O amor que sinto por ela mudou-me muito. Podes achar que eu estou a exagerar, mas quando estou com ela, quero ser uma pessoa melhor por ela... Nem imaginas o que me está a custar saber que ela não me quer ver mais...
- Achas que não? Todos os que amaram verdadeiramente alguém, muito provavelmente também já sofreram por esse amor. E nem todos acabaram por conseguir o que queriam.
- Já percebi que és um expert nessa matéria.
- Quem me dera poder dizer que nunca sofri assim. Mas posso dizer-te que as coisas melhoram e que nem tudo está tão mal como pode parecer...
- És mesmo um romântico incorrigível. Mas eu não sou assim. E tenho muito medo de perde-la... Mas já sabia que isto só poderia correr assim. Sempre que me acontece alguma coisa boa, acabo por estragá-la...
- Pedro.. Tem calma... se ela gosta mesmo de ti, então tens de ter paciência. Quando ela também se acalmar, já terás maior facilidade em explicar-lhe tudo. Talvez o melhor seja dares-lhe algum tempo para ela reflectir. Tenho a certeza de que ela vai responder ao teu telefonema... Mas dá-lhe algum tempo. Não estragues ainda mais as coisas...
- Mas eu não consigo fazer nada enquanto não souber que as coisas estão resolvidas entre nós os dois...
- Ouve-me... Se queres ter alguma hipótese com ela, tens de ouvir o que te digo. Tu cometeste um erro... Tens agora de arcar com as consequências... mesmo que isso implique sofrer enquanto ela não te perdoa.

Pedro reflectiu nas palavras do amigo e soube que ele tinha razão. Mas ele tinha medo dela nunca mais querer falar com ele.. Mas lá no fundo, ele sabia que Carlos tinha razão...

Carlos tentou consolar o seu amigo e dar-lhe alguma esperança de que Inês iria ser capaz de lhe perdoar... Mas chegou a um ponto em que percebeu que o seu amigo nunca iria voltar ao normal, enquanto não falasse com ela.

E isso viu-se durante o dia todo. Carlos notou que Pedro estava constantemente distraído durante os brainstormings para a nova campanha... Sempre que alguém lhe pedia uma opinião, notava-se que ele não estava a acompanhar as ideias lançadas pelos colegas. Decididamente, não era o Pedro que todos conheciam...

Pedro estava a sofrer... Não se lembrava de ter sofrido no passado por alguém de quem gostava tanto... Ele já tinha estado do lado oposto... E sentia-se agora um pouco culpado por ter feito sofrer algumas das raparigas com quem tinha estado e que tinham esperanças de ter uma relação séria com ele, e que a partir de certa altura ele tinha deixado de dar notícias... Era assim que se sentia alguém com o coração partido...

Ele pensou várias vezes durante o dia em ligar novamente para Inês, mas as palavras da Carlos ecoavam na cabeça dele... Talvez fosse mesmo pelo melhor dar-lhe algum tempo... Mas o que iria ele fazer entretanto? Sentia aquela sensação de perda de algo que nada conseguia preencher...

Quando saiu do escritório, ainda pensou em ir a um bar perto de sua casa para afogar as mágoas, mas achou que isso não iria resolver a situação... Podia faze-lo esquecer por umas horas a dor que estava a sentir, mas de manhã quando acordasse, tudo iria estar na mesma... Decidiu então ir para casa... Assim que chegou, pensou em preparar o jantar, mas não estava com fome... Ao contrário do que acontecia na grande maioria dos dias, estava sem qualquer apetite... Só lhe apetecia ligar novamente para Inês... Mas conseguiu controlar os seus impulsos a muito custo...

Mas não conseguia evitar olhar para o seu telemóvel de cinco em cinco minutos. Ele esperava desesperadamente que Inês lhe ligasse para resolverem as coisas. Ele sentia às vezes que se olhasse para o telemóvel iria fazer com que Inês lhe ligasse mais depressa. Mas ele sabia que estava a ser irracional... Mas não o conseguia evitar... Realmente o amor transforma as pessoas... Ele sempre tinha sido uma pessoa confiante, com uma grande autoestima, e que não se preocupava com a impressão que os outros tinham dele... Mas desta vez, estava completamente inseguro sobre si e por vezes passava-lhe pela cabeça que Inês nunca mais lhe iria perdoar.

E foi nesta ângustia permanente que Pedro passou a noite inteira até finalmente adormecer a altas horas da madrugada, sem ter tido qualquer notícia de Inês...

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Capítulo 16

A primeira discussão...

Pedro tinha regressado ao escritório após o almoço. Estava satisfeito por finalmente ter tido a oportunidade de falar com Patrícia. Ele já estava a sentir-se culpado por ter escondido durante tanto tempo a sua vida amorosa a uma das suas melhores amigas. Ele prezava os conselhos dela mais do que os de ninguém, pois não existia ninguém em cujos conselhos confiasse mais. E ela achava que ele devia dizer a Inês o que sentia.

Ele tinha estado a pensar constantemente nisso nos últimos tempos, e estava bastante indeciso, mas Patrícia tinha-o completamente convencido a dizer a Inês que a amava. Ele sabia que era um risco pois não tinha a certeza de que ela sentisse a mesma coisa por ele. Mas sentia que tinha de lhe dizer que a amava de verdade, como nunca tinha amado ninguém. Na verdade, ele já tinha dito a várias raparigas que as amava, mas sentiu que esta era a primeira vez em que estava a ser sincero, do fundo do seu coração.
Por isso, o seu coração batia de forma acelerada. Ele não parava de pensar na reacção dela quando ele lhe dissesse, pois desejava no seu íntimo, que ela sentisse o mesmo. Mas tinha tomado a decisão, e não existia nada que o fosse demover.

E hoje iria ser o dia em que lhe iria contar. Ligou a Inês para combinarem jantar juntos nessa noite. Mas algo parecia diferente. A forma como ela lhe tinha falado tinha sido um bocado esquisita. Ele sentia que algo estava errado, mas não sabia o quê. Talvez tivesse sido o exame que lhe tivesse corrido mal, ou outra coisa qualquer. Mas ele sabia que ela estava distante.
Quando desligou, Pedro começou a duvidar novamente se seria boa ideia dizer a Inês que a amava. Era um passo importante, e o facto dele não ter reconhecido naquela pessoa com quem tinha falado ao telefone a rapariga que tanto amava, mostrou-lhe que afinal não a conhecia tão bem. Seria ainda cedo demais, e estaria a precipitar-se? A indecisão começou a pairar na sua mente, mas decidiu que tinha de lhe dizer o que sentia.

- Então, quando é que lhe vais dizer-lhe? – disse Patrícia, ao mesmo tempo que lhe tocava suavemente no ombro. – Já decidiste?
- Ah? Ainda não sei. Talvez hoje à noite? – respondeu Pedro, visivelmente apanhado de surpresa pela frontalidade da sua amiga.
- Só hoje à noite? Não achas que lhe devias dizer-lhe agora?
- Agora? Não sei se é daquelas coisas que lhe devia dizer ao telefone, sabes?
- Mas do que é que estás a falar? Ele está ali, na sala dele, à espera de que digas alguma coisa sobre a campanha. É só levantares o teu rabo dessa cadeira, andar dez metros e entrar no gabinete dele.
- Desculpa. Pensei que estavas a falar de outra coisa. – Vou já ter com ele.
- Não me digas. Estavas a pensar naquela pessoa de quem falamos no almoço.
- Tu já me conheces. Achas que eu estaria a pensar em assuntos pessoais no meu horário de trabalho?
- Queres mesmo que te responda a isso?
- Não, é melhor não...
- Sempre vais dizer-lhe, não vais? – perguntou-lhe, pois ainda tinha a pequena esperança de que ele não seguisse o conselho que ela lhe tinha dado e mudasse de ideias. Talvez ele lhe dissesse que afinal já não amava aquela rapariga.
- Hoje à noite... Nem sei como lhe vou dizer...
- Sinceramente, acho que não deves planear nada. Sê tu próprio, e acho que as coisas irão sair-te naturalmente. Tu és das melhores pessoas a improvisar sobre pressão, como tantas vezes demonstraste aqui.
- Mas isto é diferente. Eu não quero que nada corra mal.
- Eu sei. Mas tenho a certeza de que tudo vai correr pelo melhor.- disse Patrícia, ao mesmo tempo que era chamada pelo chefe com alguma urgência.

Ao levantar-se, emitiu um pequeno suspiro que passou despercebido a Pedro, pois apercebeu-se que já não conseguia fazer mais este papel de melhor amiga. Cada vez que tentava apoiar Pedro e dar-lhe força para dizer a Inês o que sentia, sofria por dentro, pois ela amava-o tanto ou mais do que aquela rapariga. E custava-lhe muito vê-lo apaixonado de verdade por outra pessoa. E o que podia ela fazer? Nada, absolutamente nada. Mas mais do que tudo, era amiga dele e lá no fundo, tudo o que queria era que ele fosse feliz. Só não percebia porque ele não podia ser feliz com ela...

A tarde foi agitada para ambos, pois tiveram de fazer um esforço de última hora para conseguirem acabar o draft das respectivas campanhas a tempo de enviarem as coisas ainda no final desse dia para os clientes. Ao final da tarde, Pedro reparou nas horas. Ia mesmo ligar a Inês a dizer-lhe que ia chegar atrasado, mas foi chamado de urgência pelo chefe que estava numa conference call com o cliente. Após essa reunião, o stress era tanto, que não se tinha mais lembrado de ligar a Inês. Já tinha passado quase meia hora da hora combinada, quando ele finalmente lhe ligou a dizer que estava naquele momento a saír do escritório e que ia já a correr para o restaurante. Sentiu logo pelo tom de voz dela que ela não tinha gostado muito fo facto dele não a ter avisado mais cedo, mas imaginou que ela iria compreender a situação assim que ele lhe explicasse o que tinha sucedido.

Quando ele finalmente chegou, dirigiu-se à mesa que tinha reservada, na qual já Inês estava à espera há cerca de três quartos de hora. A caminho da mesa, reparou no ar de Inês. Ele nunca a tinha visto assim. Ela tinha sempre um ar radiante e irradiava simpatia por todos os lados. Mas não era isso que ela aparentava hoje. Soube logo que tinha de pedir imensas desculpas pelo atraso e compensá-la de alguma forma. E achou também que talvez hoje não era o dia certo para dizer-lhe que a amava. Ele sentia claramente que o ambiente não estava apropriado para o que lhe tencionava dizer.

- Desculpa lá o atraso. Peço imensa desculpa, mas hoje tive mesmo um dia muito complicado no trabalho, e as reuniões que tive prolongaram-se por mais tempo do que estava à espera. Mas podes estar descansada que nem todos os dias são assim.
- Não há problema. Acontece... Só gostaria que me tivesses avisado que estavas atrasado. Não te custava nada e eu escusava de estar aqui sozinha. Sentia que toda a gente estava a olhar para mim, a ter pena de mim, pelo facto do meu namorado se ter baldado...
- Inês, se esse foi o teu problema, podes estar descansada. Tenho a certeza de que toda a gente estava a olhar para ti, mas por outro motivo. Eles estavam todos a olhar para a mulher mais bonita desta sala...

Inês não conseguiu evitar um esboço de um sorriso. Ele tinha esse efeito nela, e por mais que estivesse chateada com ele, ele conseguia conquistá-la novamente.

- Espero que não penses que os elogios desculpam o teu atraso... – respondeu, fingindo que estava ainda zangada com ele.
- Eu acho que os meus actos não têm desculpa. Qualquer homem seria parvo em deixar-te aqui sozinha, pois corria o risco de seres abordada de cinco em cinco minutos por alguém a oferecer-te uma bebida.... Por isso podes estar descansada, que esta será a última vez que isto acontece...
- È só mesmo por causa disso que vais fazer tudo para que isto nunca mais aconteça...
- Claro que sim.. Que outra razão poderia existir?

Ambos sorriram ao mesmo tempo. Pedro sentiu que este primeiro precalço tinha sido ultrapasssado, e que as coisas estavam a voltar ao normal. Ele sabia que tinha de fazer tudo para que esta relação corresse bem, porque a amava de verdade e não saberia o que fazer se a perdesse. Nada poderia correr mal e ele sabia que não poderia repetir os erros que tinha cometido no passado com outras mulheres.

- Queres então dizer que não confias em mim... – inquiriu Inês...
- Eu confio plenamente em ti. Não confio é nos homens que aqui estão. Eu conheço-os bem e sei que eles só têm uma coisa no pensamento.
- Queres então dizer que tu também só tens uma coisa no pensamento.
- Eu não. Eu sou diferente da maioria dos outros homens...
- Tens a certeza? Pela minha experiência, os homens são todos iguais...
- Nem todos. Se queres que eu te diga a verdade, todos os homens nascem iguais. Mas existem certos momentos na vida que nos mudam para sempre... – Pedro fez uma pequena pausa...- E um dos momentos mais marcantes foi quando que tu entraste na minha vida. E toda a gente que conheço dir-te-á isso.
- Tens a certeza? Se calhar é melhor pedir-te agora os telemóveis de todos os teus amigos e ligar-lhes para confirmar isso, antes de continuarmos a jantar – brincou Inês.
- Estás à vontade. Mas acho que podes poupar o teu dinheirinho. Podes confiar em mim.
- Posso mesmo? – perguntou Inês, mas desta vez com um tom mais sério.
- Podes ter a certeza que sim... Eu nunca te iria mentir ou esconder nada. Quero que a nossa relação seja o mais transparente possível. E não quero que exista nada que te faça duvidar disso.
- Sabes que a confiança é algo que se conquista.
- Sim, tenho a perfeita noção disso. Mas ainda não fiz nada que quebrasse a tua confiança em mim...
- Disseste bem... Ainda não fizeste nada. – disse Inês, tentando não mostrar o que realmente sentia, fingindo que se estava a meter com Pedro.
- Pois, mas podes ter a certeza de que isso irá continuar assim. Pois eu gosto muito de ti e não te queria magoar. E estou disposto a fazer tudo para que tenhas plena confiança em mim.
- Talvez possas começar por escolher o meu jantar... – disse Inês, que já estava com fome há algum tempo.

Pedro escolheu uma das especialidades da casa, o salmão grelhado, para os dois. Pediu também um vinho tinto já com alguns anos e que ele, apesar dos seus parcos conhecimentos em termos de vinhos, sabia que era dos melhores vinhos naquele restaurante.

Os dois estiveram a conversar durante a noite toda. Aquele pequeno precalço tinha sido ultrapassado e Pedro sentiu que a rapariga que estava agora à sua frente já era novamente a Inês por quem se tinha apaixonado. Mas de repente, Inês colocou uma cara mais séria e lançou uma pergunta, vinda do nada.

- Mas diz-me uma coisa? Achas que vou ficar à noite muitas vezes à tua espera?
- Só mesmo quando estamos próximos do nosso deadline e o cliente pressiona-nos para ter as coisas prontas para ontem.
- E isso acontece muitas vezes?
- Depende um pouco da campanha e do cliente. O meu trabalho é muito dinâmico e posso encontrar de tudo.
- Mas hoje à tarde, quando me ligaste, as coisas pareciam mais calmas.
- Tens toda a razão, mas isso não quer dizer nada. As coisas mudam ali dentro, de um instante para o outro. Basta o cliente pedir alguma coisa com urgência, que as nossas prioridades mudam logo. Posso dizer-te que antes do almoço, as coisas estavam calmíssimas e que eu pensava que iria sair cedo à tarde no escritório.
- Que engraçado. Já vi que o teu horário é muito flexível. Nem fazia a mínima ideia. Por exemplo, hoje até poderíamos ter almoçado juntos depois do meu exame. Bastava termos combinado para um pouco mais tarde, que dava...
- Normalmente sim, pois posso gerir o meu tempo. Desde que consiga ter a campanha pronta antes do deadline, posso ir almoçar à hora que quiser e voltar à hora que quiser. Mas por exemplo, hoje não podia, pois tive uma almoço de trabalho com um colega. Mas em qualquer outro dia, é só uma questão de combinarmos.
- Mas costumas dar-te bem com os teus colegas?
- Para ser sincero, o ambiente lá é um pouco competitivo, e mesmo quando estamos a trabalhar para a mesma campanha, todos procuram marcar pontos juntos dos chefes. Cada um está a fazer por si, pois só assim se consegue progredir na carreira. Mas para quem vê de fora, parece que todos lá dentro fazem parte da mesma equipa.
- Assim é complicado fazer amigos por lá... Nunca sabes se eles são mesmo teus amigos ou não.
- Lá dentro, são muito poucos os colegas em quem confio plenamente e que posso considerar como sendo meus amigos. Quanto aos outros, tenho sempre cuidado com o que lhes digo.
- E tens muitas colegas lá dentro na agência? – disse Inês, tentando mostrar de propósito o ciúme na sua voz.
- Algumas, mas podes estar descansada. Não existe nenhuma mulher como tu lá dentro.
- Sinto-me bastante mais tranquilizada – disse Inês, com um tom irónico muito perceptível para Pedro.
- Podes acreditar no que te estou a dizer. Não tenho nenhuma amiga lá dentro. As minhas colegas são todas muito competitivas e tenho uma relação estritamente profissional com todas elas.

Pedro nem imaginava que esta inofensiva mentira iria ter tantas repercussões. O que ele não sabia é que Inês tinha-o visto com Patrícia na hora de almoço. Por um acaso do destino, o restaurante que Rita tanto queria experimentar era o mesmo em que ele estava a almoçar. E Inês tinha visto, ao longe, o comportamente de Pedro para com a sua colega. Notou logo que eram duas pessoas chegadas e quando viu Pedro beija-la levemente na face, não conseguiu aguentar mais e saiu a correr do restaurante. Rita foi atrás dela e conseguiu acalmá-la um pouco.

- Tem calma. O que vimos pode ter uma explicação.
- Como é que ele pode enganar-me desta forma? Eu confiei nele... – disse Inês, já com lágrimas visíveis no rosto.
- Eu sabia que isto iria acontecer... Já com o Alfredo tinha sido a mesma coisa.
- Não estás a precipitar-te um pouco? Eu não vi nada fora do normal.
- Tu não viste o mesmo que eu? Ele está a enganar-me com aquela mulher...
- Inês, eu sei que o Alfredo magou-te muito. Mas isso não pode ser uma justificação para começares a desconfiar do Pedro por uma coisa que tu podes não estar a intepretar correctamente. Nem todos os homens são como o Alfredo. Ele traiu a tua confiança sem tu o esperares. E isso faz com que te seja difícil confiar em alguém novamente. Mas tu gostas dele. É o que me tens dito desde o dia em que o conheceste. Achas que vale a pena acabar com ele, sem lhe dar uma oportunidade de se explicar. Não achas que ele merece isso?

Inês ouviu as palavras da sua amiga e sabia que ela tinha razão. Mas já tinha saído magoada uma vez e não queria que isso acontecesse novamente. Mas ela tinha ficado tão incomodada em ver Pedro com aquela mulher desconhecida. Decidiu então esperar pelo jantar que iam ter à noite para clarificar a situação. Foi por isso que quando Pedro começou a mentir-lhe na cara dela, que ela não aguentou mais.

- Posso mesmo acreditar em ti? – perguntou Inês com alguma rispidez.
- Porque é que estás a dizer isso? O que é que passa?
- Já sabia que não devia confiar em ti. Não posso acreditar numa única palavra que me tenhas dito.
- Mas o que é que eu fiz para te irritar tanto?
- Tu sabes bem o que fizeste. Eu vi-te hoje à tarde... Com aquela mulher ao almoço...

Pedro foi apanhado em contrapé. Só lhe restava tentar justificar porque lhe tinha mentido. E esperar que os danos causados não fossem irreparáveis.

- Eu posso explicar...
- A única coisa que eu sei que é que tu me mentiste.
- Mas ela não é nada para mim... É só uma amiga...
- Uma amiga... Não foi isso que me disseste há bocado... Tu mentiste-me...
- Eu peço imensa desculpa, mas não foi por mal. Podes ter a certeza de que ela não é mais do que uma amiga. Podes acreditar em mim...
- Como é que eu posso acreditar em ti? Como posso acreditar numa única palavra que me vás dizer... Como é que eu sei que não me vais mentir novamente...?
- Inês, tem calma. Deixa-me explicar. Eu não sabia que me tinhas visto...
- Essa é a tua melhor justifificação?... Pensei que conseguias fazer melhor – interrompeu Inês, com um tom irónico.
- ... Eu não sei porque menti, mas na realidade eu podia ter-te dito a verdade. A mulher com quem me viste é mesmo uma colega e é uma das minhas melhores amigas, a Patrícia. Ela não é mais para mim do que uma amiga e podes perguntar-lhe que ela irá dizer-te o mesmo.
- Então porque é que não me disseste logo isso?
- Não sei porque tive receio de te dizer. Sinceramente, tive medo de dizer-te que estive a almoçar sozinho com outra mulher. Podias interpretar mal a situação...
- Ao invés do que aconteceu... Se não aconteceu nada de mais, porque é que tinhas medo de dizer alguma coisa? O que é que pensaste?
- Não sei. Na realidade, acho que não pensei. Entrei em pânico, pois achei que estavas um pouco estranha comigo quando falámos ao telefone hoje à tarde e não queria dizer algo que piorasse as coisas...
- E preferiste mentir-me.
- Se eu pudesse fazer tudo novamente, eu faria de maneira diferente. Mas agora não posso mudar o passado. O que queres que eu faça?
- Eu não quero que faças nada. Só quero é ir para casa...
- Inês, tu não queres que as coisas acabem assim. Eu tenho a certeza de que conseguimos resolver isso.
- Sinceramente, eu acho que não. Eu gostava de ti. Mas não posso estar com alguém em quem eu não confie. Eu já te tinha confessado que tinha sofrido muito no passado e tu prometeste não me magoar...
- Desculpa, mas.... – pediu novamente Pedro.
- Mas tu magoaste-te... Tu nem sabes o quanto eu gostava de ti. Eu pensava que eras diferente. Mas és como todo os outros... Não existe nada que possas fazer para que as coisas fiquem como dantes...
- Não existe nada que eu possa dizer ou fazer para que mudes a opinião?
- Infelizmente, acho que não. Nem consigo mais olhar para ti e falar contigo.

Um silêncio constrangedor invadiu a mesa, pois nenhum sabia mais o que dizer ao outro nesta situação. Notava-se que Inês estava triste e magoada, enquanto que Pedro estava com um ar desconsolado por saber que tinha estragado tudo. Passado cinco minutos, Inês levantou-se e disse que era melhor ela ir-se embora. Pedro ficou sem palavras e assistiu sem qualquer reacção à partida da única mulher que ele tinha amado na vida.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Capítulo 15

O passado escondido...

Inês respirou fundo e suspirou. Tinha acabado de terminar o último exame do último semestre do último ano do seu curso. Sabia que estava prestes a iniciar-se uma fase importante da sua vida profissional.

Porém, também estava a iniciar uma nova fase na sua vida pessoal, pois estava agora envolvida com um homem que tinha conhecido há pouco tempo, pelo qual estava completamente apaixonada. Ela também sabia que Pedro estava completamente apaixonado por ela. Mas lá no seu íntimo, ela tinha ainda algum receio de o deixar entrar no seu coração.
Ela ainda estava a recuperar de um namoro prolongado e que lhe tinha causado muito sofrimento e tinha jurado não se envolver com ninguém nos tempos mais próximos. Mas Pedro tinha conseguido convencê-la de que ele era a alma gémea dela... Mas era também o que ela pensava do Alfredo, o seu ex-namorado. E ele tinha-a magoado mais do ela pensava possível.

Ela ainda se lembrava do primeiro dia em que o conheceu. Tinha sido na faculdade, pois eram ambos da mesma turma. No início, ela não lhe tinha prestado muita atenção. Apesar dele ser o rapaz mais bem parecido da turma, a primeira impressão que tinha ficado dele não tinha sido muito boa, pois ele estava constantemente a flirtar com todas as raparigas da faculdade. E envolver-se com uma pessoa como ele era algo que Inês não tencionava fazer. Mas muitas vezes, as coisas não correm como pretendíamos.

Ela nem sabia que iria cometer o maior erro da sua vida, quando aceitou o pedido de uma colega que fazia parte do seu grupo de estudo, para que Alfredo também passasse a integra-lo.
Quase sem se dar por isso, ela e Alfredo começaram a dar-se cada vez melhor, até porque os inúmeros trabalhos de grupo a que os alunos do primeiro ano estavam sujeitos os obrigavam a passar juntos inúmeras noites. Quanto mais tempo estavam juntos, mais ela percebia que ele não era a pessoa que ela tinha imaginado. Ele era uma pessoa muito extrovertida como ela e que tinha necessidade de estar no centro das atenções. Mas era também um homem muito sensível e divertido. E não foi surpresa que ela se apaixonasse por ele. No início ela não queria admitir essa situação, mas passado algum tempo passou a ser impossível esconder os seus sentimentos, até porque sempre que estavam os dois sozinhos, existia um desconforto evidente.

E este ambiente durou até ao final do primeiro semestre, quando finalmente aconteceu algo que quebrou a apatia existente. Um dia, Inês recebeu uma mensagem de Alfredo, através da qual ele lhe pedia para o ajudar a estudar para a oral que ele ia ter no dia seguinte, pois estava em risco de chumbar naquela cadeira. Mesmo com o ambiente estranho que pairava entre os dois, ela não podia deixar de ajudar o seu amigo, pelo que ambos combinaram encontrar-se na biblioteca a seguir ao almoço.

Quando ela chegou à biblioteca, Alfredo já lá estava. Inês começou logo a fazer-lhe perguntas, por forma a prepara-lo para a oral. A tarde passou depressa, pois a matéria era muita e o tempo era cada vez mais escasso para o que ainda faltava cobrir. Por volta das dez da noite, Alfredo sugeriu que ambos fizessem uma pausa e fossem jantar, pois nem tinha reparado que já era tão tarde. Inês assentiu e decidiram ir a um pequeno café que ficava numa esquina perto da faculdade, e comer rapidamente qualquer coisa.
Ainda hoje ela se lembrava do que se tinha passado no café, como se tivesse sido ontem... Palavra por palavra...

- Muito obrigado por me estares a ajudar, Inês. Não saberia o que fazer sem ti.
- Tu sabes que os amigos são para as ocasiões. Tu bem sabes, ou já te esqueceste daquela noite em que me ajudaste a estudar para o exame de Introdução à Psicologia I? Nem sei como é que não chumbámos nessa cadeira.
- Sim, eu lembro-me perfeitamente daquela noite. Ou pelo menos, lembro-me do facto de não ter conseguido concentrar-me durante a noite toda, pois estava sempre a olhar para ti, pois estavas muito gira naquele vestido que estavas a usar. – disse Alfredo, antes de Inês corar como nunca tinha corado antes.
- Ainda te lembras do que eu estava a usar naquele dia? Eu nem me lembro do que almocei ontem.
- Eu só me lembro daquele dia, pois foi o dia em que percebi que eu nunca iria ser feliz, enquanto não estivesse contigo...

Inês nem acreditava no que estava a ouvir. Ela sabia que ele sabia que ela sentia algo por ele, mas nunca imaginou que ele sentisse o mesmo. E pela primeira vez na vida estava sem palavras.

- Eu sei que estou a ser muito lamechas, mas é o que eu sinto. Nos últimos meses, acho que posso dizer que fiquei-te a conhecer bem e sei que tu também sentes algo por mim. Não podes negar isso... Mas sei que tu nunca serias capaz de tomar qualquer iniciativa, sem teres um sinal de que eu sentia o mesmo... Por isso, tens aqui o teu sinal...
- Alfredo... Tens toda a razão quando dizes que eu sinto algo por ti, mas estou numa fase da minha vida em que quero encontrar alguém com quem possa ter uma relação séria e assentar. Foi por isso que eu nunca te disse nada sober o que sentia, pois acho que tu...
- ... que eu não sou uma pessoa séria e que nunca seria capaz de me comprometer... Que eu não sou homem de uma só mulher e que nunca seria capaz de te ser fiel... Era isso que querias dizer? – Interrompeu Alfredo, que já estava preparado para esta reacção de Inês.
- Eu não te quero ofender, mas sim... Era nisso em que eu estava a pensar.
- Inês... Eu posso ter sido assim no passado. Mas temos passado muito tempo juntos nos últimos seis meses. Consegues dizer-me que viste alguma atitude da minha parte que indicasse que eu ainda sou a mesma pessoa?
- Não. Para dizer a verdade, tu surpreendeste-me muito, pois acabaste por te revelar muito diferente do que estava à espera.
- Então dá-me uma hipótese. É só isso que te peço... Consegues olhar-me nos olhos e dizer-me que eu não mereço pelo menos uma hipótese?

Ela ainda tentou pensar em algo para refutar o que ele lhe dissera, mas não conseguiu encontrar nenhuma objecção. E foi nessa noite que começou o namoro, selado com um beijo apaixonado.

No início tudo era um mar de rosas. Ela estava completamente apaixonada por ele. Ele também demonstrava variás vezes, com gestos românticos, que ela era a mulher da sua vida. Isso não queria dizer que de vez em quando, não existissem alguns arrufos entre eles, principalmente pelo facto de Inês ser um bocado ciumenta. Ela ficava muito irritada quando algumas colegas e amigas dele mais atraentes falavam com ele. Esta situação foi complicada para ela de início, mas o tempo fez-lhe ver que os seus receios eram infundados e que ela podia confiar nele, pois mesmo que essas raparigas estivessem interessadas nele, ele gostava demasiado dela para lhes dar alguma conversa.

Os dois passavam cada vez mais tempo juntos, e começavam a pensar no futuro, ao ponto de terem começado a pensar em comprar uma casa em conjunto e passar a viver juntos. Assim, cerca de dois e anos e meio após terem começado a namorar, Alfredo arranjou um emprego em part-time para conseguir amealhar algum dinheiro para concretizar o sonho deles. Poucas eram as ocasiões em que ela e Alfredo conseguiam estar juntos, pois ele passou a frequentar a turma da noite e só chegava quando ela já estava deitada. Ainda por cima, ela notou que com o avançar do semestre, ele chegava a casa cada vez mais tade e cada vez mais cansado. Mas ela pensava que esta situação era apenas temporária, pois estavam quase a acabar o curso. Só tinham agora de fazer um pequeno sacrifício.

O que Inês não contava é que acontecesse algo que iria mudar profundamente a vida dela. Ainda hoje, ela não percebeu o que pode ter corrido mal... Mas o facto é que o período dela estava atrasado, o que não era nada normal, pois o ciclo dela era muito regular. Ainda pensou que fosse do stress, pois este último ano tinha sido muito complicado.
Infelizmente, não foi esse o caso, como o teste de gravidez que ela reluntantemente decidiu fazer lhe demonstrou. Ela não conseguiu deitar-se essa noite, tal era o nervosismo que tinha, por não saber a reacção que Alfredo teria. Isto iria mudar para sempre as suas vidas, pois eles já tinham falado em ter um filho, mas só daqui a três ou quatro anos, quando já tivessem uma vida mais estabilizada.
Ela decidiu então que tinha de contar-lhe o mais rápido possível. Porém, este não seria o tipo de novidades que ela queria dar por telefone. Decidiu então ir ter com ele à faculdade, pois ele costumava ficar na faculdade mais algum tempo após a última aula do turno da noite, a trocar apontamentos com os colegas.
Durante o caminho, ela só pensava na forma como lhe iria dizer. Repetiu várias vezes na sua cabeça os diversos cenários possíveis, mas tinha um pressentimento que tudo ia correr bem. Quando entrou na faculdade, viu Alfredo sentado numa mesa com uma colega.

Eles pareciam muito íntimos enquanto conversavam, mas Inês pensou que eram os seus ciúmes a falar mais alto. Por isso, qual não foi o seu espanto quando ela viu o seu namorado a beijar apaixonadamente a colega na boca ao mesmo tempo que acariciava o corpo dela. A sua supresa apenas foi superada pelo choque que Alfredo que teve quando a viu e percebeu que ela tinha assistido a tudo.
Inês ainda pensou em ir-se embora, mas não era do seu feitio fugir das situações difíceis, embora as lágrimas que lhe corriam pelos olhos não parassem de jorrar. Quando finalmente chegou ao pé de Alfredo, ele desmanchou-se em desculpas, mas ela não conseguia ouvir o que ele lhe dizia, pois estava visivelmente transtornada. Ela apenas voltou a dar atenção a Alfredo quando ele disse que não era assim que ele queria que ela descobrisse.

- Que eu descobrisse o quê? – murmurou Inês, com uma voz carregada da dor que estava a sentir.
- Que eu tinha encontrado outra pessoa. Eu não queria magoar-te, mas...
- Cala-te. Não quero ouvir mais uma palavra tua.
- ... mas eu amo a João. Eu amo-a de verdade. Quando estou com ela, sinto algo que já não sentia há muito tempo...

Inês tinha pensado que as coisas não podiam ter ficado pior, mas quando ouviu o namorado a dizer-lhe que amava a outra mulher, ela ficou ainda mais destroçada.

- Desculpa, mas é a verdade. Desde que a conheci no início do ano, que me sinto mais feliz do que quando estou contigo. Eu ainda gosto de ti, mas aquela atracção que sentia no início tem vindo a desaparecer, e com o tempo os meus sentimentos mudaram. E isso notou-se mais este ano, pois acho que começámos a afastar-nos e eu não queria enfrentar isso.

A reacção de Inês ao que Alfredo lhe estava a dizer era de perfeita incredulidade. Ela nunca tinha imaginado que isto lhe podia acontecer, pelo que não conseguia dizer nada, mas apenas continuar a chorar, pelo que Alfredo continou a tentar justificar-se.

- Há algum tempo que queria dizer-te alguma coisa, mas temos passado tão pouco tempo juntos que nunca surgiu a oportunidade de por tudo em pratos limpos. Eu não queria que tu descobrisses assim, mas eu tinha prometido à João que te ia contar tudo...
- Que nobre da tua parte. – disse com ironia Inês, que tinha finalmente conseguido recompor um pouco do choque que tinha tido. – Fico satisfeita por teres decidido dizer-me a verdade, seis meses após teres andado a enganar-me. Nem sei como te agradecer...
- Não sejas assim.. Eu sei que estás magoada, mas eu não queria que as coisas terminassem assim.
- Nem eu. Posso-te garantir que não era assim que eu esperava que esta noite terminasse... Odeio-te e nunca mais te quero ver na vida... – disse Inês antes de virar as costas a Alfredo e vê-lo pela última vez.

Logo que chegou a casa, Inês telefonou a Rita a contar-lhe tudo o que se tinha passado, que foi também completamente apanhada de surpresa por toda esta situação. Uma vez que Rita tinha voltado a Aveiro para estudar, raras eram as vezes em que estavam juntas. Mas estavam em contacto quase todos os dias por mail, pois tinham-se tornado muito próximas e amigas íntimas. Hoje, era a vez da Rita ouvir os desabafos da sua amiga.

- Sinto muito o que te aconteceu. Nem consigo imaginar o que estás a sentir agora – disse Rita, que tentava ser o menos condescendente possível.
- Eu não percebo o que aconteceu. Pensei que ele estava a fazer um esforço para que podessemos viver juntos, e afinal ele queria separar-se de mim...
- Ele não te merece. Se calhar foi melhor teres descoberto agora...
- Mas eu ainda o amava. – disse Inês, que recomeçou a chorar. O que eu hei-de fazer agora?
- Já pensaste em contar-lhe...?
- Não, nem pensar. Não o quero ver mais durante o resto da minha vida.
- Então, o que é que estás a pensar em fazer?
- Sinceramente, não faço ideia. Eu sou ainda nova e não consigo criar um filho sozinha. – respondeu Inês, com um ar hesitante - O que é que achas que devo fazer?
- Inês, nem sei como responder a essa questão. Tu sabes como é difícil para mim dar-te um resposta objectiva nesta matéria.
- Sim, eu sei... Mas alguma vez arrependeste-te da tua decisão?
- Foi uma decisão difícil na altura, mas mesmo hoje sei que foi a melhor decisão que podia tomar. Mas claro que de vez em quando aindo penso em como as coisas seriam se eu não tivesse.... Tu sabes...
- Pois... Desculpa estar a fazer-te reviver outra vez esta situação...
- Eu sei que a decisão não é fácil, mas tu sabes que eu vou estar ao teu lado, independentemente do que decidires.
- Sim, eu sei... Só não sei o que é que eu hei-de fazer...


Estas palavras ecoaram novamente na mente de Inês, mesmo tendo passado já quase um ano sobre essa noite. A decisão tinha sido difícil, mas ela não estava arrependida da decisão que tinha tomado. Mas hoje não era dia de pensar no passado. Ela estava certa de que a sua sorte tinha mudado quando conheceu Pedro.

De repente, sentiu o seu telemóvel a vibrar. O seu corpo tremeu só de pensar que poderia ser o Pedro, pois ele tinha ficado de ligar para combinar um jantar para comemorar o fim dos exames. Mas era apenas a sua amiga Rita, que queria apenas avisar que estava um pouco atrasada para o almoço que tinham combinado num restaurante que lhe tinham recomendado e que ela queria experimentar há algum tempo...

domingo, setembro 10, 2006

Capitulo 14

As palavras que nunca te direi

E tudo parecia correr bem na relação entre Pedro e Inês. Apesar de não conseguirem encontrarem-se todos os dias, quer por causa dos exames de Inês, quer por causa da campanha complicadíssima que tinha surgido na empresa de Pedro e que estava a aproximar-se do seu deadline, passavam quase uma hora por dia ao telemóvel a conversar.
E quando se juntavam para jantar, as emoções vinham à flor de cima. Ambos sentiam-se bem um com o outro e não havia um segundo em que as suas mãos não estivessem juntas. Há muito tempo que Inês não se sentia assim tão feliz. Depois do que tinha passado, nunca tinha imaginado que pudessse encontrar novamente um homem que a fizesse assim tão feliz. Mas também era esse o problema. Quanto mais se apaixonasse por alguém, maior seria o sofrimento se as coisas não corressem bem. Inês tinha jurado nunca mais deixar que alguém a magoasse como no passado. Mas com Pedro, as suas defesas abriram-se totalmente e estava a deixar este homem entrar no seu coração. E sabia que ele sentia o mesmo por ela.
Mas a relação ainda estava um bocado indefinida. Ambos gostavam de estar um com um outro, mas nenhum tinha ainda dado o primeiro passo no sentido de clarificar as coisas. Os dois andavam juntos, era certo. Mas nunca ninguém tinha falado numa relação mais séria.

Pedro nunca tinha tido no passado essa necessidade de ter uma relação com alguém. Para ele, o que interessava era o presente e viver dia a dia. Tinha sido esse um dos motivos para todas as relações dele terem acabado. O seu medo de compromissos era evidente para todos os que o rodeavam e quando as suas namoradas se apercebiam disso, estava dado o primeiro passo para o fim da relação.
Mas desta vez era diferente. Pedro não queria perder Inês por nada deste mundo. E ele estava disposto a fazer tudo por ela. Pela primeira vez na vida, Pedro sentia-se preparado para uma relação séria com uma mulher que ele achava que iria amar para o resto da vida. E estava disposto a demonstrar a Inês o que sentia.

Por seu turno, Inês também estava um pouco preocupada com esta indefinição. Mas por motivos diferentes de Pedro. Ela tinha acabado de sair de uma relação há pouco mais de seis meses, que não correu muito bem. Ela tinha sofrido bastante numa relação que tal como esta tinha começado muito bem. Mas com o tempo, ela acabou por conhecer melhor o agora ex-namorado. E se soubesse o que sabia agora, nunca se tinha dedicado de corpo e alma a ele. O seu coração andou magoado por muito tempo. Desde o fim desse namoro, que o seu coração estava fechado. Muitos tentaram romper a barreira que Inês tinha criado à sua volta. Mas só Pedro o tinha conseguido. Ela no início encontrava-se receosa de que a história se repetisse novamente. No seu íntimo tinha receio de que ele a magoasse. Mas agora que se estavam a conhecer melhor, ela sentiu que isso não iria acontecer, pois acreditava que Pedro a amava realmente e que faria tudo para que ela não saísse magoada. Inês começava assim a voltar a acreditar no amor. Mas mesmo assim, gostava desta indefinição. Não queria assumir nada mais sério enquanto não estivesse preparada. E achava que Pedro estava na mesma situação. E era isso que bastava a Inês por agora.

Porém, Inês não imaginava que Pedro pensava cada vez mais nesse asssunto, pois não queria partilhá-lha com mais ninguém. Ele sabia que ela não tinha saído com mais ninguém desde o dia em que se conheceram. Mas mesmo assim, ele queria que todos soubessem que ela era dele e que mais ninguém a podia ter.
Pedro sentia que estava numa nova fase da sua vida. Tinha finalmente encontrado alguém com quem queria passar o resto da vida. Sentia também que tinha mudado nas últimas semanas. E precisava de partilhar isso com uma das pessoas em quem mais tinha confiado no passado. Se bem que ultimamente, tinha deixado de confidenciar tanto com a Patrícia o que lhe ia na alma e preferido falar com o Carlos sobre a sua nova paixão. Pedro achava que era mais normal estar a falar de uma rapariga com um amigo do que com outra rapariga e tinha sido esse o único motivo para ter sido mais reservado com a Patrícia sobre esta nova fase da sua vida,
Mas tendo em conta que a sua relação com Inês estava tornar-se cada vez mais séria, Pedro achava que já era altura de falar com a amiga e saber a opinião dela. Patrícia tinha-o já apoiado várias vezes no último ano, sempre que ele tinha precisado dela. Tinham-se tornado próximos, ao ponto de terem combinado sair várias vezes fora do trabalho. Pedro estranhava sempre que Patrícia nunca vinha acompanhada quando eles saíam, mas pensou que devesse ao facto dela estar muito preocupada com a ascensão na empresa e não ter tempo para se envolver numa relação. Pedro conhecia bem a sua amiga e sabia que ela não era uma mulher para se envolver com alguém por quem não sentisse algo, apenas para não estar só. Era uma mulher forte e independente, que qualquer homem teria muita sorte se fosse o escolhido dela. E estava já a sentir-se mal por não partilhar com a amiga os sentimentos mais recentes.
Por isso decidiu almoçar com a Patrícia nesse dia. Só não sabia se ela estaria disponível, pois estavam em campanhas diferentes e não sabia se ela estaria muito ocupada. Mas nada melhor do que lhe perguntar. Pedro dirigiu-se à mesa de Patrícia, que estava absorta nos seus pensamentos a pensar numa nova ideia, e sem esta se aperceber de que ele tinha entrado, colocou-se atrás dela e deu-lhe um pequeno toque no ombro.
Patrícia quase deu um salto, pois tinha apanhado um pequeno choque. Não era novidade, pois tinham colocado recentemente uma alcatifa nova no escritório e o que não faltava era electricidade estática. Já tinha apanhado alguns choques, mas nenhum tão forte como este.
- Já vi que estás muito eléctrica. – Disse Pedro, não conseguindo evitar um sorriso.
- Parvo. Assustaste-me um bocado. Já ouviste falar em bater à porta?
- Tu é que me disseste que a tua porta estava sempre aberta para mim. Mesmo a da tua casa de banho.
- Hoje estás muito engraçadinho. Diz-me lá o que queres, pois estou um bocado atrapalhada com esta campanha. Tenho uma apresentação ao cliente amanhã, e ainda não consegui terminar tudo. Não tenho tempo para parvoíces. – disse Patrícia, tentando fingir que estava zangada com Pedro. Mas ela gostava quando ele vinha ter com ela e brincar um pouco. Já algum tempo que não o fazia.
- Já vi que vim cá perder o meu tempo. Queria ver se vinhas almoçar comigo, mas se estás assim tão ocupada, vou retirar-me dos teus aposentos e deixar-te trabalhar em paz…
- Fazes muito bem. – disse Patrícia, também não conseguindo evitar um ligeiro sorriso.
- Mas de certeza que não te consigo convencer? Conheço um arroz de polvo que está a chamar pelo teu nome.
- Já te disseram que és um chato? Tu tens o dom de chatear tanto as pessoas, que elas fazem tudo o queres, só para as deixarem em paz.
- Isso é claramente um sim. Então, saímos de cá quando forem quinze para a uma…
- Olha que vou contrariada. E tu pagas o almoço.
- Tu és uma negociadora difícil. Mas negócio fechado. Tudo para ter o prazer de almoçar contigo.

Após Pedro ter saído, Patrícia continuou a pensar. Mas agora, a campanha já não estava no seu pensamento. Ela não parava de pensar no motivo pelo qual ele a tinha convidado para almoçar. Não era a primeira vez. Na realidade, já tinham ido variadíssimas vezes almoçar um com o outro, mas já há algumas semanas que ela sentia que ele já não lhe dava tanta atenção como no passado. Por isso, este convite surgido do nada começou a incomodá-la. Só podia ser por causa da Inês. Essa mulher mistério de que já tinha ouvido Pedro tanto elogiar a Carlos nos últimos tempos.
Patrícia começou a ficar incomodada, com receio de que ele lhe dissesse que estava a apaixonar-se por essa rapariga. Tudo menos isso. Ela já tinha passado pela experiência de Pedro ter estado com muitas raparigas, mas nunca se tinha preocupado, pois ela percebia que as coisas não eram sérias e nunca iriam ter qualquer futuro. Mas desta vez ela diferente. Ela tinha já percebido que Pedro estava diferente para melhor e que eram cada vez menores as hipóteses dele vir a apaixonar-se por ela.
Por isso, respirou fundo e decidiu que iria contar-lhe durante o almoço o que sentia por ele. Antes que ele tivesse a oportunidade de dizer alguma coisa sobre a nova namorada, iria despejar o que tinha dentro dela quase desde que o tinha conhecido. Foi uma decisão difícil. Patrícia sabia que as coisas nunca mais iriam ser as mesmas. Fosse qual fosse o resultado, tudo iria mudar na relação com Pedro. Se ele também gostasse dela, a sua relação iria evoluir de uma amizade para algo mais profundo e complicado. Se ele não sentisse o mesmo, as coisas ficariam constrangidas entre ambos a partir desse momento. Sempre que os dois falassem, ele iria sentir-se culpado por não retribuir os sentimentos dela e ela iria sentir-se embaraçada pelo que tinha acontecido. Mas era a altura de arriscar. Patrícia sempre foi uma pessoa muito cautelosa e só se expunha a alguém quando tinha a certeza de que era correspondida. Ela teve sempre um grande receio de sofrer e por isso contavam-se pelos dedos as situações em que tinha decidido assumir o risco. Mas esta era uma daquelas decisões que iria ter grande impacto no seu futuro. Ela só tinha pensado no Pedro nos últimos tempos e o receio de perdê-lo era mais forte do que tudo. Ela nunca tinha sido impulsiva e qualquer decisão requeria sempre muita reflexão para pensar em todas os cenários possíveis e os prós e os contras de qualquer alternativa. Mas agora ia ser diferente.
Patrícia respirou fundo de novo e não conseguiu pensar em mais nada até à hora do almoço.
- Isso não está fácil. – interrompeu Pedro. - Já está a sair fumo da tua cabeça. Se calhar é melhor deixares de pensar na campanha e fazer uma pausa para recuperar um pouco. É mesmo a altura certa para irmos almoçar.
- Tens toda a razão. Às vezes, quando não chegamos a uma conclusão, é melhor não continuar a pensar e seguir o que o instinto nos diz.
- É o que te estou a dizer há algum tempo. Estou a ver que finalmente começas a seguir alguns dos meus conselhos. Vamos?
- Estou mesmo atrás de ti.

Os dois saíram do escritório e foram almoçar num restaurante pequeno onde já tinham ido várias vezes no passado. Era um sítio sossegado onde não havia muita confusão e a comida era muito boa. Mas Pedro sabia que Patrícia adorava aquele restaurante pelas sobremesas. Eram das mais originais e mais saborosas que se podiam encontrar. E mesmo ele, que não era grande apreciador de doces, provava sempre da sobremesa de Patrícia.

Quando se sentaram à mesa foram logo atendidos por um empregado que já os conhecia há algum tempo e fizeram os pedidos. Enquanto esperavam pela comida, Patrícia pensou que esta seria a altura certa para fazer o que tinha decido no escritório.

- Já há algum tempo que não íamos almoçar juntos – disse Patrícia, tentava abrir caminho para a revelação que iria fazer.
- Pois é, eu sei. E a culpa é toda minha. Sei que tenho andado ocupado nos últimos tempos....
- Sim, só um bocadinho...
- Mas foi por um bom motivo. E tu já sabes do que estou a falar.
- De quem estás a falar... – corrigiu Patrícia.
- Sim, tens razão. Mas tu tens de conhecer a Inês. Nunca conheci ninguém como ela. Tenho a certeza de que ias gostar logo dela.
- É só uma questão de me a apresentares. Pois já a conheceste há algum tempo e quase não me falaste dela.
- A culpa é toda minha. É que as coisas estavam ainda no início, e não tinha a certeza de que iam durar. Mas está a correr muito bem e agora acho que é altura certa para os meus amigos a conhecerem.
- Vê-se pela tua cara. Nunca te vi tão feliz.
- Mas eu estou mesmo feliz. Tu não tens ideia do efeito que ela tem em mim. Eu só penso nela o dia inteiro. Pela primeira vez, existe alguém com quem eu queira estar por muito tempo ao meu lado. ...E queria dizer-te que...
- Eu também queria dizer-te... – disse Patrícia, ao mesmo que Pedro tentava completar a sua confissão.
- Oh! Desculpa interromper-te.
- Não, eu é que te peço desculpa. Diz tu primeiro...
- Não! Diz lá o que ias dizer... Eu digo-te daqui a bocado – disse Patrícia, sentido-se cada vez mais ansiosa para dizer o que sentia.
- Bem... Patrícia... Queria pedir-te o teu conselho. Eu sinto-me feliz com ela, mais ainda não nos conhecemos muito bem, e não sei como ela iria reagir se...
- Se...
- Se eu lhe dissesse que a amava..
- Pedro, tu sabes que eu faria tudo para te ajudar, mas eu nem conheço a rapariga...
- Pois não. Mas conheces-me a mim. Eu nunca te disse isso, mas eu acho que tu conheces-me melhor do que ninguém. Até mesmo do que a Inês. Tens sido a pessoa em que mais confio e cuja opinião eu mais respeito. Eu considero-te uma das minhas melhores amigas e gostaria de saber qual seria a tua reacção se uma pessoa como eu te dissesse que te amava.
- Pedro, tu sabes que eu sou muito amiga, mas nunca pensei em ti nesses termos.- respondeu Patrícia de forma hesitante.

Naquele momento, com aquela resposta espontânea, Patrícia apercebeu-se de que ainda não estava preparada para dizer a Pedro o que sentia. Melhor, sentiu que independentemente do que dissesse, nada iria acontecer entre os dois, pois era demais evidente que ele gostava mesmo de Inês, e que dizer-lhe alguma coisa apenas iria estragar a amizade que tinham.
- Sim, eu sei. Apenas querias que fingisses que eras a Inês e que um tipo que te conhece há pouco menos de um mês, e que tu sabes que nunca teve uma relação que durasse mais de um mês, mas com quem tu te tens passado um bom bocado te disesse que te amava. Qual seria a tua reacção? Acreditavas que eu estava a ser sincero?
- Pedro, eu não sei o que a Inês te diria, mas se ela te conhecesse como eu te conheço, eu saberia que ela seria a mulher mais feliz do mundo por tu lhe dizeres isso. Qualquer mulher daria tudo para que uma pessoa como tu lhe dissesse que ela era a mulher que tinha mudado a tua vida e que tinha transformado tanto.
- Obrigado por seres sincera. Acho que tu me convenceste. Eu estava com algumas dúvidas, mas agora acredito sinceramente que tenho mesmo de confessar-lhe o que sinto.
- Tudo para te ajudar. Sabes que eu fui sincera no que te disse e acho mesmo que ela nem sabe a sorte que tem em tu gostares dela.
- Patrícia, não sei o que faria sem ti. – disse Pedro a pegar na mão direita de Patrícia, que sentiu um pequeno choque no momento em que sentiu o toque da mão do seu amigo.

Patrícia colocou a mão esquerda por cima da de Pedro com muito carinho, ao mesmo tempo que se esforçava para esconder os seus sentimentos e não demonstrar a enorme dor que sentia por não ser ela a escolhida.

- Eu também não sei o que farias sem mim...- disse a rir, tentando quebrar aquele momento esquisito.
- Já estou farto de te dizer que ainda não percebo porque não existe ninguém na tua vida. Tu és daquelas pessoas que qualquer pessoa gostaria de ter ao seu lado para o resto da vida. Mas tenho a certeza de que um dia irás encontrar a pessoa certa – disse ao mesmo tempo, que também colocou a outra mão sobre as maõs de Patrícia.
- Vamos lá ver se isso acontece – mentiu Patrícia, que tinha a certeza de que já a tinha encontrado, e que estava mesmo à sua frente.

Pedro levantou-se da sua cadeira e colocou-se muito perto de Patrícia e deu-lhe um pequeno beijo na face.

- Tenho a certeza de que sim. Tal como eu encontrei a Inês, também tu irás encontrar alguém. – disse Pedro, antes mesmo de ser interrompido pelo empregado que trazia os pratos para a sua mesa.


O que Pedro não imaginava é que duas raparigas que tinham entrado no restaurante que estava completamente cheio e que estavam à entrada do restaurante à espera de que uma mesa ficasse livre tinham assistido a esta última cena, tendo logo de imediato saído do estabelecimento.

domingo, julho 16, 2006

Capítulo 13

A Amiga...

Após fechar a porta da sua casa, Inês suspirou. Já há algum tempo que não se sentia assim. O seu coração não parava de bater rapidamente com a emoção do encontro que tinha tido naquela noite. Desde o beijo de despedida, que ela não conseguia deixar de pensar nele. Ela não sabia como é que ele tinha conquistado o coração dela em tão pouco tempo.
Não há muito tempo, ela tinha jurado que nunca iria deixar que outra pesssoa chegasse tão próxima dela e a magoasse novamente. Mas Pedro tinha conseguido aos poucos convencê-la de que ele era diferente dos homens com que ela tinha estado no passado.
Ela começou a recear que se ele soubesse o passado dela, os sentimentos dele iriam mudar. Por um momento passou-lhe pela cabeça a ideia de que se ele gostasse mesmo dela, o seu passado não iria importar. Mas depressa voltou à realidade e decidiu que por mais que lhe custasse esconder algo dele, caso o não fizesse, ele iria deixá-la num piscar de olhos mesmo antes da relação começar.
Era um pequeno preço a pagar pela sua felicidade. E tomou a decisão de lhe contar tudo, quando estivessem juntos há mais tempo e isso já não iria causar qualquer problema entre os dois. Mas até esse momento, iria fazer tudo para que ele nunca soubesse nada. E isso incluía esconder coisas dele.
Inês cedo tinha aprendido que a vida não era um mar de rosas. Apesar da sua tenra idade, já tinha passado por muitas coisas que possivelmente pessoas já muito mais velhas nunca iriam passar. Ela tinha muita vergonha do que tinha feito e quanto menos pessoas soubessem, melhor seria para ela.
Logo após ter tomado essa decisão, Inês começou novamente a pensar em Pedro. Era algo que não conseguia parar de fazer, mesmo se quisesse. E ela não o queria, pois sentia-se invadida por uma sensação tão estranha, que só poderia ser o amor. E tinha que partilhar o que sentia com alguém.E esse alguém, apenas podia ser a Rita.

A Rita era a sua melhor amiga. Tinha-a conhecido na secundária há cerca de seis anos. Ainda se lembrava do dia em que a tinha encontrado. Desde sempre que Inês tinha sido uma rapariga muito sociável e que era sempre a alma do grupo dela. Ela foi sempre o centro das atenções, não só por causa da sua beleza latente mas também por causa da sua personalidade. Por seu turno, a Rita era uma rapariga que primava pela descrição e parecia deslocada no meio da turma. Ela era uma rapariga nova na escola que tinha sido transferida de uma escola em Aveiro, donde se tinha mudado com os pais e a irmã para Lisboa. E por esse motivo, não conhecia ninguém na escola, e não parecia integrar-se no resto da turma ao fim de duas semanas de aulas. Ocasionalmente, alguém metia conversa com ela, mas ela parecia não querer criar laços com ninguém.
Inês lembrou-se da primeira impressão que tinha tido dela. Era uma rapariga muito tímida, que se vestia muito discretamente e que procurava não dar muito nas vistas, apesar dos seus enormes cabelos louros. Era uma rapariga que qualquer rapaz consideraria engraçada, mas nada mais do que isso. A ideia com que tinha ficado das primeiras semanas de Rita na escola, era de que ela era uma rapariga muito mimada pelos pais e que se achava superior às outras pessoas da escola. Tinham corrido rumores de que ela vinha de uma família com algumas posses e que tinha vindo de um colégio privado com elevada reputação e distinção. E o facto de não se querer integrar com o resto da turma apenas reforçava essa ideia.
Por seu turno, Inês era a rapariga mais popular do ano dela. No último ano, o seu corpo tinha-se desenvolvido muito rapidamente e tinha-se tornado o olhar de todos os rapazes da turma dela, incluindo os comprometidos. E tinha-se tornado a inveja de todas as raparigas, que se sentiam incomodadas pela enorme atenção que todos os rapazes dedicavam a ela. Mas mesmo assim, ela andava sempre rodeada do seu grupo de amigas que a acompanhavam desde a preparatória. E nunca pensaria em incluir Rita nesse grupinho.
Mas um dia, a professora de Psicologia decidou dividir a turma em grupos de dois, para fazer um trabalho sobre a influência dos genes na personalidade das pessoas. E acabou por juntar a Rita com a Inês, esperando que aquela aluna que estava sempre calada e quietinha nas aulas espevitasse um bocado ao passar algum tempo com a rapariga mais irrequieta da turma e que estava sempre a interromper as aulas, pois do início ao fim estava sempre a sussurar com a colega do lado. Inês, logo após a professora a ter juntado à Rita, pensou que com tantas pessoas naquela turma, ela tinha logo que juntá-la a uma rapariga que não tinha nada a ver com ela e que insistia em se manter afastada do resto da turma.
Após o fim da aula, a Rita foi ter com Inês, para combinar onde iriam fazer o trabalho. Ambas decidiram que o melhor seriam encontrarem-se na biblioteca à tarde para pesquisarem para o trabalho.
Quando Inês chegou ao local combinado um quarto de hora atrasada, já a Rita tinha colocado em cima da mesa de trabalho quatro ou cinco livros de Psicologia, a maioria dos quais de psicólogos com nomes impronunciáveis. Inês pensou logo que estaria na presença de uma daquelas pessoas que dava muita importância ao estudos e que não se importava com mais nada. Pediu desculpa pelo atraso e começaram as duas a percorrer os livros, à procura dos capítulos que tinham a informação necessária para o trabalho delas. Foram praticamente duas horas de quase silêncio, apenas interrompido por algumas piadas de Inês, que não obtiveram qualquer reação por parte da sua colega. A Rita praticamente não disse qualquer palavra durante a tarde toda, tirando as respostas a algumas questões que Inês ia colocando. Após terem tirado fotocópias daquilo que lhes interessava, combinaram que no dia seguinte se iriam encontrar outra vez, desta vez na casa da Rita, para redigir o trabalho.
Durante a noite, Inês telefonou a uma das amigas do seu grupinho, a dizer que nunca tinha tido uma seca tão grande e que a sua colega de trabalho era uma das pessoas mais chatas e fechadas que tinha conhecido. Não tinha ficado com uma boa impressão dela e apenas queria terminar o trabalho o mais depressa possível para não ter mais qualquer contacto com ela.

No dia seguinte, após o almoço, Inês foi para a casa da Rita. Ficava numa zona de vivendas, a mais fina da cidade. Tocou à porta e foi atendida pela empregada que a convidou a esperar um pouco na sala, enquanto ia chamar a Rita. Inês deu uma vista de olhos rápida pela sala e reparou que parecia uma daquelas fotografias que se encontravam naquelas revistas de decoração das casas de pessoas famosas. Percebeu logo que a Rita vinha de uma família com posses e que seria esse o motivo para não se querer misturar com os colegas. Entretanto a Rita chegou e sugeriu-lhe irem para o quarto dela. Quando lá chegaram, Inês surpreendeu-se imenso. Ao contrário da exuberância do resto da casa, o quarto dela pautava-se pela simplicidade. Era um quarto que primava pela arrumação, sem nada fora do sítio, com uma pequena televisão e onde se destacava um enorme poster dos Backstreet Boys. Sentaram-se na secretária dela, onde já lá estava um computador portátil e algumas folhas impressas da Internet com mais alguma informação que Rita devia ter pesquisado durante a noite passada.
De início, decidiram que seria a Rita a escrever no computador, uma vez que Inês era daquelas pessoas que nunca conseguiria um emprego como secretária, pois era impossível existir alguém que teclasse mais lentamente do que ela. Começaram ambas a falar sobre o que tinham lido no dia anterior. A tarde passou devagar, não tendo sido tocado outro tema de conversa para além do trabalho. A Inês detestava falar só de trabalho. Achava que o trabalho em conjunto correria melhor se ambas estivessem mais descontraídas e menos formais e brincassem uma com a outra. Mas qualquer tentiva de quebrar o gelo era imediatamente recusada pela Rita que dizia que elas só se deveriam preocupar em acabar o trabalho. Este até estava bastante bom e faltava apenas o capítulo em que se tinha de dar a opinião pessoal sobre o tema. Inês perguntou à Rita o que ela achava do assunto ao que Rita ficou a reflectir por uns instantes antes de lhe responder.

- Eu não acredito que os nosso genes determinem a nossa personalidade. A nossa personalidade vai-se desenvolvendo à medida que o tempo vai passando e as pessoas mudam com o tempo.
- Mas tu não achas que as pessoas têm algumas características que herdam dos pais? – retorquiu Inês.
- Eu acho que a única coisa que herdamos dos nossos pais são as nossas características físicas: a cor do nosso cabelo, os nossos olhos ou o nariz. Mas não é pelo meu pai ou a minha mãe serem pessoas calmas, que eu também o vou ser.
- Eu não penso bem assim. Há certas pessoas que nascem tímidas e que nunca vão deixar de ser tímidas. Há certas características inatas que por mais que as pessoas tentem mudar, nunca o irão conseguir. Eu por exemplo, já nasci assim expansiva e faladora. Os meus pais sempre me disseram que desde bebé que era assim, e que sempre chamava as atenções de todos desde muito cedo.
- Eu também penso que isso é verdade. Mas isso não tem a ver com o que estamos a discutir. Tu estás a dizer que há certas características com que nascemos e que irão para sempre influenciar o que nós fazemos. Eu também concordo com isso. Mas eu acho que isso não se herda dos pais.
- Ao contrário de outras coisas... – disse Inês que detestava que as pessoas não concordassem com ela e estando já a ficar farta do tratamento algo frio da Rita desde o dia anterior.
- O que queres dizer com isso? – perguntou Rita com uma entoção que indicava que ela não tinha gostado do comentário.
- Vê o teu caso. Nota-se que os teus pais são ricos. Eles devem-se achar melhor do que os outros. E tu pelos vistos estás a seguir o mesmo caminho.
- Estás completamente enganada. Vê-se que tu não me conheces mesmo nada.
- Ai não? Então porque é que estás sempre afastada do resto das pessoas da nossa turma e mal lhe diriges uma palavra? Só pode ser pelo facto de achares que ele não merecem que lhes digas alguma coisa.

A dicussão estava a ficar cada vez pior. Mas Rita decidiu por um termo ao rumo que a conversa estava a tomar. Ela era uma pessoa calma e pacífica por natureza e não estava interessada em discutir mais.

- Se tu e todos os outros acham isso, então estão no vosso direito. Cada um é livre de pensar o que quer. Mesmo que estejam completamente errados.
- Não acredito em ti. Estás agora a fazer de coitadinha. – disse Inês, que nunca foi uma pessoa que deixasse as coisas a meio. – Prova-me o contrário. Tu nunca mostraste abertura para com os outros e sempre que eu tentava falar contigo com outra coisa para além do trabalho, tu não me ligavas. Diz-me lá então como é que eu estou enganada.

Rita hesitou antes de dizer qualquer coisa. Por um momento, ela pensou no que lhe iria responder. Não queria dizer a ninguém o que realmente passava pela cabeça. Muito muito menos a alguém como a Inês, que não era minimamente amiga dela.

- Tu nunca irias compreender. – suspirou com um ar de resignação.
- Experimenta-me.
- E ainda por cima, achas que eu iria contar alguma coisa à rapariga com a maior boca da escola? Se eu te dissesse alguma coisa, amanhã já todos saberiam disso.
- Agora vê-se que és tu que não me conheces. Se soubesses como eu sou, saberias que sou alguém em que toda a gente confia. Eu sou incapaz de mentir ou de trair a confiança de alguém.
- Não é o que parece. A imagem que passa de ti é de alguém que não tem qualquer preocupações com o futuro e que está disposta a fazer tudo para ter o que quer. Nem que isso implique perder a amizade de alguém, se isso permitir que mais pessoas passem a gostar de ti. Só queres ser popular, independentemente do que os outros possam sofrer.
- Eu não sou assim. Podes perguntar a qualquer amiga minha.
- Amigas tuas? Achas que elas gostam a sério de ti? Elas só andam contigo para aproveitarem a tua popularidade. Pelo menos, são os comentários que tenho ouvido das outras pessoas.
- Ai é? Também já deves ter ouvidos os comentários muito elogiosos que toda a gente faz a ti desde o dia em que chegaste à escola – disse Inês com uma voz muito irónica.
- Não, não ouvi. Mas imagino o que devam dizer. Mas não me importo nada com isso. Nunca me preocupei com as aparências, ao contrário de muitas pessoas.
- Espero que não te estivesses a referir-te a mim. Pois eu acho que tu também estás a julgar-me pelas aparências e a imagem que construíste de mim, e não pelo que eu sou na realidade.
- Talvez estejamos as duas a cometer o mesmo erro. – reconheceu Rita, já com algumas lágrimas nos seus olhos. Ela foi sempre um pesssoa que apesar de ter sofrido muito por dentro, sempre tentou nunca demonstrar aos outros qualquer fraqueza. Mas neste momento, não estava a conseguir guardar as emoções só para ela e começou a chorar.

Inês sentiu que estava no dever de tentar confortar a sua colega, pois as lágrimas não paravam de fluir dos olhos azuis que tinham agora um brilhozinho. Mas apercebeu-se que não tinha sido só a discussão que tinham tido que tinha provocado esta situação. Deveria existir algo mais que justificasse não só a atitude de Rita nesta tarde, mas a atitude dela desde que veio de Aveiro. Passado cinco minutos, a crise de choro tinha terminado, mas os olhos de Rita demonstravam que ela ainda estava muito perturbada com a situação.
- Peço desculpa por esta cena – disse Rita aos soluços.
- Não faz mal. Eu é que peço desculpa por te ter feito chorar.
- Inês, não foi culpa tua. Eu não estava a chorar pelo que me disseste. Mas a conversa que estávamos a ter, fez-me lembrar de uma coisa no passado que me causou muita dor e que eu estou a tentar esquecer há algum tempo. Mas de repente voltou e eu não consegui evitar chorar.
- Rita, eu sei que nós não somos amigas, mas parece-me que estás a precisar de desabafar com alguém. Parece que estás a carregar o peso do mundo nos teus ombros. Eu sei que tu já tens uma imagem de mim que se calhar não vais conseguir mudar, mas eu posso garantir-te que podes confiar em mim. Tens todo o direito de não o fazer, mas se não queres que os outros te julguem pelas aparências, eu peço-te que não faças o mesmo a meu respeito.
- Não é por ti, mas por mim. Eu não sei se te consigo contar. Eu já percebi que provavelmente fiz uma imagem de ti que não corresponde à realidade. Mas eu não sei se....

Inês interrompeu-a a meio e pôs a sua mão no ombro da sua colega.

- Tu não tens de me contar nada se o não quiseres. Todos temos os nossos segredos, muitos dos quais não revelamos aos nossos melhores amigos. Eu também já passei por muita coisa, mas cheguei à conclusão que há coisas que temos de guardar para nós.

Rita ficou em silêncio uns minutos, antes de decidir revelar o que tinha acontecido com ela no passado. Inês ouviu a história e começou também a chorar, pois sentiu uma grande empatia com a sua colega. Inês soube que a família da Rita tinha vindo de Aveiro de Lisboa apenas por causa dela, para se afastarem do local onde tudo se tinha passado.
Ela começou a perceber por que motivo Rita tinha manter-se afastada dos seus colegas desde que tinha chegado. Também ela achava que seria difícil para alguém que tivesse passado por aquela situação, que conseguisse confiar novamente nos outros. Mas decidiu que iria fazer todos os esforços para ajudar Rita a superar aquela fase em que se encontrava. Antes de lhe contar qualquer coisa, Rita apenas pediu a Inês que não tivesse pena dela. Mas no final, não era pena que Inês sentia pela sua nova amiga. Era um grande orgulho pelo esforço que Rita tinha feito para ultrapassar a tragédia que a tinha afectado no passado e pela força interior que ela tinha demonstrado, pois muitas outras raparigas na situação dela teriam caído numa depressão da qual seria difícil saír.
Foi nessa noite que surgiram os laços de confiança entre as duas que permaneceram até hoje. E Inês pensou que teria sido muito difícil ultrapassar as dificuldades que tinha tido ainda há pouco tempo, sem o apoio da sua amiga...
Mas pelo menos hoje tinha boas notícias para partilhar...

terça-feira, agosto 09, 2005

Capítulo 12

Uma noite inesquecível...

Estava uma noite um bocado fria. Já era final de Novembro e o Inverno estava a chegar.
Pedro encontrou-se com Inês à porta do cafézingo, que estava a abarrotar. Era dia de jogo e ninguém queria perder pitada do jogo que envolvia o Sporting com uma equipa turca com um nome impronunciável.
Ele era um fanático de futebol e do Sporting, e nunca perdia um jogo. Mas hoje, nada mais para além de Inês parecia importante.

Sentaram-se numa mesa que entretanto tinha ficado vazia. Pedro foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- Senti imenso a tua falta.
- Eu também. Não consegui concentrar-me no exame, porque só pensava no que te havia de dizer.
- Não me digas. Então correu-te mal.
- Não tão bem como queria, mas tinha coisas mais importantes em que pensar.
- Eu também só pensei em ti desde aquela noite. Ainda não percebo porque me beijaste... Eu pensei que...
- ... que eu queria que as coisas corressem mais devagar? – interrompeu Inês - Era também o que eu pensava. Mas quando estava a entrar em casa olhei para ti e não resisti. Fiz algo que o meu coração me estava a pedir mas que a minha cabeça não me deixava.
- Não está arrependida do que fizeste? – disse Pedro, ao colocar as suas mãos por cima das mãos dela.
- Não. Por estranho que pareça, não. Eu não quero que ninguém saia magoado.
- Mas porque é que alguém haveria de magoar-se?

Patrícia hesitou um bocado antes de responder. Mas finalmente decidiu desabafar as suas inseguranças.

- Nós dois sabemos que as relações são difíceis e que exigem sempre muito trabalho para que as coisas corram bem. Existem sempre obstáculos que são difíceis de ultrapassar. E que certas pessoas quando sentem dificuldades, preferem afastar-se. E isso causa sempre muito sofrimento à outra pessoa.
- Eu prometo-te que isso nunca irá acontecer. Eu estarei sempre do teu lado. Eu sei que não sou um homem perfeito e que o meu passado não é nada famoso. Mas eu estou disposto a mudar. Acredita em mim...
- Eu acredito, mas lá no fundo tenho medo que um dia destes, um de nós decida abandonar o outro sem sequer dar uma explicação.
- Eu também tenho medo. Eu tenho medo de que um dia não estaremos juntos, porque isso me faria sofrer muito.
- Mas então se nós dois sabemos que poderemos sofrer, porque é que vale a pena começar uma relação?
- Porque se não tentarmos, nunca saberia o que poderia ter acontecido. E isso poderia ser algo que nos iria marcar para toda a vida.
- Mas e se...
- Mas e se nós fossemos perfeitos um para o outro? – interrompeu Pedro.

Inês ficou sem palavras. Por alguns momentos, ambos ficaram em silêncio, a olhar um para o outro. Inês apertou com força as mãos de Pedro e por fim decidiu-se a dizer o que tinha medo de dizer:

- Queres mesmo tentar? Apesar de só nos conhecermos há alguns dias?
- Por vezes, podemos conhecer uma pessoa há muitos anos, mas não conhecê-la mesmo. Sabes o que eu quero dizer?
- Sim – murmurou Inês.
- Mas noutras vezes, basta conhecer uma pessoa um segundo para sabermos que ela será a mulher da nossa vida.
- E foi o que te aconteceu.
- Não. Foi o que nos aconteceu. Por mais difícil que seja para ti admitir isso.

Inês sorriu e assentiu com um ligeiro acenar da cabeça.

Depois de pagaram a conta levantaram-se da mesa e saíram para fora do café. A noite continuava fria.
Pedro sem pergutar, pôs o seu casaco nas costas de Inês. Ela sorriu e ele foi atrás dela.
Ambos tinham medo do que poderia acontecer, mas sabiam que se não tentassem, talvez perderia a melhor oportunidade das suas vidas.
Pedro agarrou a mão de Inês. Ela agarrou com suavidade a maõ dele. Enquanto andavam lado a lado de mãos dadas, sentiam que hoje era mesmo o primeiro dia do resto das suas vidas.

De repente estavam ao pé da casa de Inês. Ambos pararam ao mesmo tempo a pensar no que se iria passar a seguir.

- Queres subir um bocado?
- É uma proposta tentadora. Mas tenho de ir dormir, pois estou muito cansado.

Inês pareceu desapontada com a reacção dele. Ela tinha dúvidas sobre o que queria que acontecese naquela noite. Por um lado ela gostava muito dele. Por outro, ainda só tinham saído juntos duas vezes. Mas ficou a pensar no que Pedro estaria a pensar.

- Também acho que foi uma noite comprida. Também me sinto algo cansada. Eu depois telefono-te...

Inês deu um beijo ligeiro nos lábios de Pedro. Este olhou para os olhos lindos de Inês e retribuiu o beijo. Passou com as mãos pelos cabelos longos dela e fechou os olhos. Nenhum deles queria deixar de beijar o outro. Ambos sentiam-se como se estivessem a beijar alguém pela primeira vez.
Era uma sensação indescritível.
Pedro sentiu que nunca tinha beijado ninguém a sério. Pela primeira vez. beijava alguém que amava.

Inês já estava a ficar sem fólego, mas também não quis parar. Ela sentiu que talvez pudesse ser realmente feliz com ele. A sua cabeça era um turbilhão de emoções que a fazia sentir-se confusa.

Quando ambos pararam, sorriram um para o outro. Pedro deu um ligeiro beijo na face da Inês e despediu-se.

Inês ficou a olhar para ele enquanto ele se ia embora. Quando ele desapareceu da sua vista, sorriu e entrou na sua casa.

domingo, novembro 14, 2004

Capítulo 11

O segundo encontro?

Tinham passado três dias desde o primeiro encontro e Pedro estava extremamente ansioso por receber o telefonema de Inês. Já por duas vezes tinha conseguido controlar os seus impulsos e não lhe telefonou.

Nunca se tinha sentido tão bem na vida. Se soubesse que o amor era assim, já se teria apaixonado há mais tempo. Era uma sensação indescritível. Ele sentia que o seu coração batia mais depressa quando pensava nela. A mínima coisa fazia-lhe recordar-se dela. Ele sentia uma enorme emoção e um grande prazer apenas em pensar nela. E não era uma coisa sexual. Ele ficaria satisfeito apenas pela oportunidade de lhe tocar na mão ou de cheirar o seu perfume.

E todos no escritório repararam na mudança. Mas somente Carlos e Patrícia sabiam do motivo.

Pedro sabia que ela estava em alturas de exames, pelo que o tempo dela era escasso. Mas porque é que ela não esquecia a faculdade e ia ter com ele? Seria o que ele faria. Mas isso seria muito egoísta da parte dele. Deu-se por si a pensar que era a primeira vez que pensava nos interesses da pessoa com quem estava em detrimento do que ele queria. O que estaria a acontecer com ele? Será que o amor estava a transformá-lo? O pior de tudo, é que ele não se importava de mudar por ela.

De repente o seu telemóvel tocou. Pedro respirou fundo antes de atendê-lo, porque não queria parecer muito nervoso.

- Está sim?
- Olá! Sentiste a minha falta?
- Tu nem sabes quanto. Estive nestes últimos três dias a pensar em ti.
- Por acaso não foste o único homem em quem eu pensei.
- Não me digas? Estás a tentar fazer-me cíumes? Devo avisar-te de que não sou ciumento, pelo que estás a perder o teu tempo.
- Por enquanto. Mas só para descansar-te, eu estive a entreter-me com o Freud e com o Jung. São velhos amigos...
- Realmente são um bocadinho velhos para a tua idade. Mas também se pode dizer isso de mim.
- Tu não és assim “tão” velho.
- Obrigado pelo teu apoio. Estou numa crise de meia idade, pelo que estou agora a entreter-me com míudas mais novas, para dar a impressão que sou mais novo.
- E eu fui estúpida suficiente para cair nos teus braços.
- Pois foste. Mas és a minha estúpida. Mas falando mais a sério, quando é que eu poderei te ver outra vez?
- Estava a pensar hoje à noite. E desta vez sou eu que escolho o local.
- Por mim tudo bem. Apenas quero estar contigo, em qualquer sítio do mundo.
- Tu estás a sair-me um romântico.
- Eu sei. É uma faceta minha que teimou em aparecer.
- Eu conheço um cafézinho muito simpático. É perfeito para conversarmos mais um bocadinho. Eu gostei imenso do que se passou entre nós na outra noite.
- Eu também. Mas queria falar-te daquele beijo que me deste.
- Não gostaste? E eu que pensei que tivesse sido tão bom para ti como foi para mim?
- Não, eu também gostei. Mas queria saber porque é que fizeste aquilo?
- Não consigo explicar-te por telefone. Mas logo à noite eu digo-te o motivo. E se tiveres sorte, tens também direito a uma repetição.
- Não consigo esperar tanto tempo.
- Vais ter de fazer um esforço. Beijinhos.
- Beijinhos.

Quando desligou o telefone, Pedro teve novamente de respirar fundo. O seu coração não parava de saltitar pela emoção de a ver outra vez.
Mas ainda faltavam algumas horas, pelo que teve de voltar novamente ao trabalho.

No final do dia, Pedro preparava-se ansiosamente para sair do trabalho, quando sentiu uma palmada nas costas. Era Carlos, que também tinha terminado o seu dia de trabalho.

- Sabes que a minha mulher hoje foi a um seminário sobre o papel da mulher no século XXI? E os míudos estão com a minha querida sogra. Queres tomar um copo? Já há muito tempo que não fazemos isso...
- Desculpa lá, mas hoje é um péssimo dia. Já tenho planos marcados.
- Agora que és um homem comprometido, já não tens tempo para os teu amigos – brincou Carlos.
- Se fosse na semana passada, tinha aceitado a tua sugestão. Mas hoje tenho mesmo um compromisso a que não posso faltar.
- Estás mesmo a falar a sério. Nunca te tinha visto assim tão entusiasmado com alguém.
- Nunca estive mais sério na minha vida. Até amanhã.

Pedro despediu de Carlos e dirigiu-se para o café onde iria finalmente ver a mulher que tinha alterado para sempre a sua vida.

sexta-feira, agosto 06, 2004

Capítulo 10

O amor impossível...

Quando chegou a casa, já eram cerca de onze horas da noite. Atirou os sapatos para o meio da sala, para ficar mais confortável.

Decidiu tomar um duche. Despiu-se completamente e atirou as roupas todas que trazia para o chão. Como não vivia mais ninguém em casa, não se importava com o facto de ter a casa completamente desarrumada.
Foi para o quarto de banho e tomou um duche relaxante. Era um dos momentos que mais gostava no seu dia, pois tinha tempo para estar só e pensar a sério na sua vida.

Após o duche, lembrou-se que não tinha o jantar preparado. Detestava cozinhar. Mas lá descongelou uns bifes que preparou com algumas batatas fritas e um ovo. Sempre tinha que comer, apesar achar que tinha ganho alguns quilos nos últimos tempos.

Durante o jantar, recordou-se do dia passado na agência de publicidade. De repente ouviu o telefone a tocar.

- Está sim?
- Olá, tudo bem contigo? Não te estou a interromper, pois não? – ouviu-se uma voz feminina do outro lado da linha.
- Por acaso estava a jantar. Mas soube bem ouvir a tua voz. Estava mesmo a precisar de desabafar contigo.
- Diz-me lá o que te aconteceu que te fez ficar assim...

Foi uma conversa longa em que nenhum acontecimento dos últimos dias ficou por contar. Contou tudo o que estava dentro do seu coração pois já não conseguia aguentar dentro de si o que sentia.
A voz do outro lado da linha foi bastante compreensiva e soube ouvir o desabafo que saiu da sua boca, tendo feito os possíveis para transmitir um sinal de esperança no futuro.

Terminado o telefonema e o jantar, eram horas de se ir deitar. Mas antes teve de escrever no seu diario. Era algo que fazia todos os dias desde a adolescência.

“Querido Diário:

Hoje foi um dia de grandes revelações. Finalmente descobri que já não acredito no amor.
Já te falei várias vezes das inúmeras desilusões que já tive. Mas nunca nenhuma teve um impacto tão grande como a de hoje. Tu já sabes que amo alguém que nunca teve qualquer interesse por mim. Para ele, somos apenas bons amigos.
Mas eu sempre tive a esperança que ele um dia acordasse e reparasse em mim.
É legítimo acreditar nisso, não achas? Quantas vezes não se diz que às vezes não vale a pena procurar incessantemente o verdadeiro amor, porque ele está mesmo ao pé de nós. E mais cedo ou mais tarde, o destino nos irá juntar.
Bem, como estás a imaginar, não foi isso que aconteceu. Como é que foi possível ele não reparar nos inúmeros sinais que tenho enviado? Ele será cego? Ou serei assim tão repulsiva, que nenhum homem gosta de mim?
Não acho que seja esse o caso, pois já muitos homens se mostraram interessados em mim. Mas não aquele que eu quero desde o dia em que o conheci.

Eu lembro-me do primeiro dia em que o vi no escritório. Era um daqueles típicos machos portugueses, que não se inibia de se atirar às miúdas giras que não conhecia. Mas como já te contei isto, e não te quero maçar novamente, só te relembro que ele tinha qualquer coisa que me atraiu. Eu nunca me interessei por aquele tipo de homens que só têm uma coisa na cabeça. Mas senti que ele era diferente. Era apenas uma fachada, que se desmoronaria quando ele encontrasse a mulher certa que o obrigasse a mudar. E eu ingénua como era, sempre pensei que seria eu.

Mas já lá vão quase quatro anos e eu não consigo esquece-lo. Podem chamar-me patética e incurável, mas nunca deixei de gostar dele. Ele falava comigo sobre as suas conquistas e reparei que ele ainda não tinha encontrado alguém que realmente amasse. Por isso sempre mantive a esperança.
Claro que sempre que ele falava comigo ou flirtava um bocado, sempre tentei encontrar indícios de que ele gostava de mim. Coisas que para ele deviam ser perfeitamente normais, como um toque no ombro, um elogio ao meu penteado, um comentário menos próprio sobre o meu peito, ou uma confidência mais íntima, eram interpretados como sinais de que ele estava interessado por mim.
Às vezes, com o imenso stress que nós estamos, esquecemo-nos disso e acomodamo-nos com a nossa vida complicada. Mas é nos momentos mais calmos, que não consigo deixar de pensar nele. Ele não sai da minha cabeça. Por mais que eu tente pensar noutra coisa, não consigo.
Mas hoje, algo fez-me cair à terra. Soube por um amigo mútuo que ele finalmente encontrou alguém que ele realmente amava. Eu já tinha notado que ele andava diferente nos últimos dias. Ele andava mais distraído e parecia que estava sempre nervoso com qualquer coisa. Pelo que contou ao nosso amigo, era o amor.
Meu Deus, o que eu fiz para merecer isto? Foi um choque tão grande para mim. Senti como se uma parte de mim tivesse morrido. Todas as minhas esperanças desvaneceram-se num segundo. O que é que eu poderia agora fazer?
Nada. Absolutamente nada. Tive a minha oportunidade e não a aproveitei. Tive cinco anos em que o coração dele estava livre, mas sempre tive receio de que ele me rejeitasse. Tive medo de arriscar, pois preferi manter a nossa amizade. Sempre pensei que tinha tomado a decisão certa, pois um dia ele iria aperceber-se de que me amava.
Mas não foi isso que aconteceu. Se soubesse o que sei hoje, teria tomado uma decisão diferente há quatro anos. Estávamos os dois a falar, quando ele me disse que estava a ter problemas com a namorada nessa data, e que não sabia o que fazer. Ele sentia que ela não era a mulher certa para ele, mas que já estava farto de procurar. Perguntou porque é que ele não conseguia arranjar uma mulher como eu. Eu devia ter arriscado nessa altura e revelado os meus sentimentos. Porque é que eu não o fiz? Agora é fácil dizer, mas na altura eu era uma mulher um bocado tímida. Acabada de sair da faculdade, sempre tive um pequeno grupo de amigos a quem conseguia falar de tudo. Mas sempre tive um certo receio de me expor a outras pessoas com quem não tinha confiança. Como o decorrer dos anos e da minha necessidade de contacto permanente com desconhecidos na publicidade, perdi essa timidez. É uma situação perfeitamente normal. Só lamento não o ter feito mais cedo. Se naquela noite, eu tivesse maior confiança em mim, tudo hoje poderia ser diferente.
Poderia estar hoje a contar-te como é que o nosso filho estava a crescer ou o jantar romântico que eu lhe tinha preparado. Mas isso nunca irá acontecer.

Disseram-me para ter esperança no futuro. Mas que futuro posso ter, se não estou junto do homem que eu sei que é a minha alma gémea? Fomos feitos um para o outro e eu compreendo o que ele sente e ele compreende-me a mim. É por isso que somos bons amigos.

Mas falando nisso, não consigo perceber porque é que ele não me contou sobre ela. Ele sempre me contou tudo sobre a vida íntima dele. Porquê?
Mas já tenho preocupações a mais para pensar ainda mais nisso.
Só me apetece dormir e esquecer que este dia alguma vez aconteceu.
Por isso, Querido Diário, boa noite para ti. Amanhã será outro dia e tu és sempre o meu primeiro confidente.

Patrícia “.


Patrícia fechou o seu diário e guardou-o na gaveta da sua mesa de cabeceira. Sentiu algumas lágrimas a cairem, que não conseguiu parar... Os seus olhos brilhavam como as estrelas numa noite de lua cheia. Sentia-se nos seus olhos uma tristeza muito grande...

quarta-feira, agosto 04, 2004

Capítulo 9

O dia seguinte...

Parecia-lhe que tudo estava a correr bem. Estava a ter as melhores ideias desde há algum tempo. Todos os seus colegas o elogiavam pela campanha que ele estava a desenvolver.
Era tudo por causa da sua musa. Ela dava-lhe inspiração, e ele não conseguia esquecê-la.

No final do brainstorming, deixou-se ficar na sala de reuniões, enquanto todos os seus colegas tiraram uma pausa para o café.

Pedro estava absorto nos seus pensamentos, a pensar quando é que ela lhe iria telefonar, quando ouviu algo.

- Então, pá. Estás a dormir? Eu perguntei-te como é que tinha corrido a noite de ontem.
- O que é que te parece?- disse Pedro, respondendo a Carlos.
- Pela tua disposição durante a manhã, diria que muito bem.
- Foi melhor ainda. Não me farto de pensar que nunca sentido tão feliz com a vida.
- Não acredito. O velho Pedro, o Don Juan do escritório, está apaixonado por alguém. Vais desapontar muitas raparigas, que ainda não tiveram oportunidade de estar contigo.
- Não me interessa. Para mim, só existe uma mulher no mundo. Não vou pensar em mais ninguém para o resto da minha vida.
- Não é a primeira vez que dizes isso. Mas acabas sempre por voltar a ser o bom e velho Pedro. Mais cedo ou mais tarde.
- Desta vez é diferente. Eu sinto que é diferente. Não acreditas em mim?
- Eu acredito que tu acredites nisso. Mas não acho que tu possas mudar tão de repente. Uma pessoa não dá uma volta de 180 graus, desta forma...

De repente, sentiram que alguém tinha reentrado na sala.
Os dois amigos viraram-se e viram Patrícia, que tinha também decidido participar na conversa, pois parecia muito animada.

- Estávamos só a discutir o Benfica. Acho que este ano é que vai ser. Demos uma volta de 180 graus e nem mesmo a mudança de treinador irá fazer-nos parar. – disfarçou Pedro, que não queria que as novidades sobre a sua vida pessoal fossem do conhecimento de Patrícia.
- Os homens e o futebol. Eu também gosto de ver os jogos, mas não sou nenhuma fanática. Arranjem uma vida.
- Eu já tenho uma. – respondeu Carlos. Ou já te esqueceste que sou um homem de família.
- O mesmo já não posso dizer do Pedro. Do que é que estás à espera para assentar. Não achas que já é idade de cresceres e apareceres?
- Muito obrigado pela tua preocupação. Mas já sou crescidinho para tomar as minhas decisões - retorquiu Pedro, evitando reconhecer que Patrícia tinha toda a razão no que dizia.
- Desculpa se fui longe de mais. Mesmo sendo amigos há algum tempo, se calhar não te devia ter dito isto. Mas acho que nunca irás ser realmente feliz, se continuares a agir da mesma forma desde os teus tempos de faculdade.
- Patrícia... Já nos conhecemos há alguns anos e ainda não sabes quando estou a brincar. Eu não fiquei chateado com o que disseste, porque tens toda a razão. Mas a vida é minha e eu faço com ela o que eu quiser. Mas já que estamos a falar das nossas vidas amorosas, eu estou preocupado contigo, pois já não te ouço falar de um namorado há algum tempo.
- Tu sabes como é a nossa vida. Não consigo arranjar tempo suficiente para investir numa relação a sério. E eu não consigo envolver-me com alguém só com o intuito de me divertir como tu...
- Ah! Essa magoou-me – brincou Pedro, apontando para o seu coração.
- Mas estou a falar a sério. Tu sabes que eu sou uma pessoa um bocado tímida com as pessoas que não conheço, e... acho que se eu estiver destinada a alguém, mais cedo ou mais tarde, os nossos destinos irão cruzar-se.
- Mas que romântica que me saíste, Patrícia. Essa postura de mulher independente que não precisa de homens para ser feliz, afinal esconde uma sonhadora por baixo.

Carlos finalizou desta forma a conversa, que já estava a tornar-se um bocada embaraçosa para os três.
Eles sempre tinham sido bons amigos e divertiam-se sempre bastante no escritório. Mas sentiu que Pedro não queria que a conversa continuasse.

Pedro desculpou-se a dizer que tinha de fazer uns telefonemas e deixou os seus colegas na sala de reuniões.

- Não sei porque é que ele age desta forma, Carlos. Não concordas comigo?
- Oh, Patrícia, até parece que não o conheces. Ele faz sempre o que ele quer, independentemente do que eu diga, do que tu digas ou do que outra qualquer pessoa diga.
- Mas acho que ele está a desperdiçar uma boa oportunidade de ser feliz. Daqui a 5 anos, ele vai arrepender-se da vida que levou e nessa altura já poderá ser um bocado tarde.
- Tarde para quê?- perguntou Carlos.
- Tarde de mais para ele- disfarçou Patrícia, que compreendeu que já tinha falado de mais. – Se calhar ele já encontrou alguém que lhe podia fazer feliz, mas ainda não se apercebeu disso.
- Realmente, acho que ele já encontrou alguém. Não fui eu que te contei, mas acho que ele agora está realmente interessado em alguém.
- Não acredito- exclamou Patrícia, que ficou realmente surpresa com o que lhe foi dito.
- É melhor acreditares. Mas qual o teu interesse nisso?
- Nenhum em especial. Nós somos amigos, e preocupo-me com ele. E ele nunca mais me contou nada sobre a vida amorosa dele. Antes, ele contava-me tudo.
- Não sei porquê, mas algo me diz que não é só isso.
- Então, isto é um local de trabalho ou um bar? – gritou o chefe de ambos, quando os viu a conversar na sala.
- Já estamos andando- disse Carlos, ao levantar-se rapidamente da cadeira e acompanhando o chefe até à sala dele, pois tinha umas ideias que queria desenvolver.

Patrícia ainda se deixou ficar na cadeira mais um bocado. Ouviu-se um pequeno suspiro e ficou com uma expressão de resignação. Se estivesse alguém naquela sala, teria notada uma pequena lágrima a cair dos seus olhos.

terça-feira, agosto 03, 2004

Capítulo 8

Mais vale tarde...

Tinha sido uma das melhores noites da sua vida. Pedro iria para sempre lembrar-se deste dia. Nunca se tinha sentido tão apaixonado por ninguém.
Afinal ele sempre era capaz de amar...

- E agora? – Disse Inês interrompendo os pensamentos de Pedro. – O que é que estás a pensar fazer?
- Sinceramente?... Estava a pensar levar-te a casa.
- Já? A esta hora? Sempre pensei que tivesses mais jeito para conquistar as raparigas com quem tu sais.
- Eu tenho muito jeito para isso. Mas como tu já estás conquistada, não preciso de me esforçar tanto.
- Não me digas. Não tomes as coisas como garantidas. Pretendo fazer-te trabalhar muito para conseguires alcançar os teus objectivos.
- E que objectivos são esses?- questionou Pedro, sem conseguir esconder um sorriso malicioso.
- Tu sabes bem do que eu estou a falar... – respondeu Inês, sem evitar um esboçar de sorriso.
- Não sei, não. Diz-me lá...
- Tu sabes. É aquilo em que todos os homens pensam quando levam uma rapariga inocente para jantar.
- Estás a falar da sobremesa?
- Sim, se é assim que tu lhe chamas.
- Eu e toda a gente que eu conheço. Como é que tu lhe chamarias?
- Devo avisar que não tenho muita paciência para estes jogos. É uma das coisas que tens de aprender sobre mim.
- Se queres mesmo saber, eu não queria prolongar esta noite, pois tenho medo de fazer algo que a estragasse completamente. Está tudo a correr tão bem, que não quero correr riscos.
- Eu também gostei bastante desta noite – disse com a voz mais suave que Pedro tinha ouvido, ao mesmo tempo que agarrava na sua mão. Pedro sentiu um arrepio e um nervoso interior. Gostou do toque suave e da leve carícia na sua pele. Sentiu o perfume que tanto tinha gostado e que nunca iria esquecer. Sentiu o desejo de beijá-la e de dizer a Inês que a amava. Mas controlou os seus instintos naturais e apertou com ternura a mão dela, indicando que também que também tinha vontade de reforçar a relação.
- Vamos então acabar por hoje, antes que me arrependa.
- Queres que eu te leve a casa?
- Não deixa estar que eu tomo um taxi.
- A esta hora? Nem penses. Eu dou-te boleia.
- Não é preciso. Eu não sou uma donzela indefesa que não se consegue defender. Esta não é a primeira vez que saio à noite.
- Eu insisto. Não quereria que acontecesse algo à melhor coisa que me aconteceu nos últimos tempos.

Ele conseguiu finalmente convencê-la a ir com ele. Continuaram a conversar animadamente durante a viagem, sem darem pelos quilómetros a passar. Quando estavam perto da casa da Inês, ela pediu para ele parar o carro. A noite estava quase a chegar ao fim.

- Eu vivo já ali à frente. Eu sei que não parece grande coisa, mas é limpa e tem espaço suficiente para guardar todas as minhas coisas.
- Realmente, não parece grande coisa. – brincou Pedro. Não queres vir morar comigo?
- Não achas que é um bocado cedo? – disse Inês com uma cara séria. Ainda agora nos conhecemos...
- Estava só a brincar. Não te queria assustar. – tentou Pedro tranquilizar a sua companhia.
- Eu percebi. Não tens grande sentido de humor. Um ponto a menos.
- Um ponto a menos? O que queres dizer com isso?
- Eu tenho um jogo com as minhas amigas, em que classificamos os nossos encontros, atribuindo pontos positivos e pontos negativos.
- E qual foi o meu resultado?
- É melhor nem saberes. Tiveste a minha pior pontuação nos últimos três anos.
- Tu és mesmo mázinha...
- Eu bem te disse que não tinhas sentido de humor. Mas é um defeito teu que vou tentar aceitar nas próximas vezes que nos encontrarmos...
- Próximas vezes? Significa que queres voltar a sair comigo?
- O que é que achas? Foi uma das melhores noites da minha vida. Nunca tinha conversado tanto com um rapaz. Parece que encontrei finalmente alguém que está interessado em algo mais do que o meu corpo.
- Por acaso, é essa a impressão que estou a tentar passar. Na prática, só me interesso por ti, porque tens um corpo espectacular. Não estou interessado no resto.
- Retiro o que disse há bocado. Afinal, sempre tens um sentido de humor.
- Parece que sim.
- Não sei porquê, sinto que me esqueci de alguma coisa.
- Tens contigo a tua bolsa?
- Não, não é isso. Bem, se fosse importante eu lembrava-me. Mas uma coisa que eu sei é que gostaria imenso de te ver outra vez...
- Eu também. Que tal amanhã?
- Vai ser complicado, pois tenho de estudar para um exame. Eu telefono-te quando puder.
- De certeza que me telefonas? Vou ficar à espera...
- Eu não perdia a oportunidade de estar contigo novamente por nada deste mundo. – disse Inês antes de dar um beijo na face de Pedro.
- Gosto mesmo de ti. E tu sabes disso, não sabes?
- Sim, eu sei.

Pedro despediu-se de Inês e viu-a a entrar o edício onde se situava o apartamento dela. Sentiu-se frustrado por não a ter beijado. Era o clímax perfeito para aquela noite. Pedro, dirigiu-se lentamente para o carro, a lamentar a sua sorte, mas com a esperança que no próximo encontro o beijo seria ainda melhor, pois a intimidade entre eles seria ainda maior.

Quando ia a abrir a porta do carro, sentiu um toque no ombro. Quando se virou, não teve tempo de reagir ao beijo nos lábios que Inês lhe deu. Sentiu que estava no céu e que se morresse naquele instante, morria como a pessoa mais feliz do mundo. Ainda tentou beijá-la novamente, mas Inês afastou lentamente os seus lábios e disse calmamente antes de se deslocar novamente para a casa dela:

- Eu sabia que me havia esquecido de algo.