domingo, abril 03, 2011

Capítulo 27- Dar tempo ao tempo...

Apesar de já ter passado um dia, Inês não conseguia de deixar de mostrar um sorriso sempre que pensava na conversa que tinha tido com Pedro. Ela sabia que os dois eram feitos um para o outro. Mas sabia também que nem sempre duas pessoas que gostam uma da outra ficam juntas. Ainda para mais, quando a confiança entre elas tinha sido quebrada no passado.
Por isso, sentia-se culpada de ter a esperança de que as coisas voltassem a ser como dantes. Tinha de ter paciência e ver como as coisas corriam. Mas era complicado gerir estes sentimentos, pelo que decidiu que precisava da ajuda da sua melhor amiga e dos seus bem-intencionados conselhos.

Combinou então com a Rita passar em casa dela, para falarem um pouco ao final da tarde. A amiga, que também já não a via há algum tempo devido aos horários complicados que Inês tinha tido nos últimos tempos, insistiu que ela fosse visitá-la.

Inês ficava sempre com remorsos quando ia visitar a amiga, pois a sua casa parecia uma arrecadação em comparação com a casa perfeita da amiga. Nunca tinha visto uma casa assim… Estava sempre decorada com as coisas certas no lugar certo e sempre limpa e arrumada. Parecia aquelas casas que se viam nas revistas de decoração que costumava ler quando estava na sala de espera do seu dentista.

Mas à hora combinada, lá chegou à casa da sua amiga. E logo depois de ter deixado o seu casaco em cima da cama que estava no quarto de hóspedes, foi logo metralhada com as perguntas que Rita queria fazer desde o dia anterior.

- Então… Como é que correu? – disse Rita, com um tom de impaciência, bem patente na sua voz.
- Correu bem… ou melhor… correu muito bem. Pareceu que nunca tínhamos deixado de estar juntos…
- E como é que te sentes?
- Não sei bem… estou muito confusa…
- E tens motivos para estar… Não te podes esquecer do que ele te fez.
- Não… não me esqueci. Mas… - tentou justificar Rita antes de ser interrompida.
- Não pode haver mas… Já te esqueceste do que sofreste com ele?…Eu pelo menos, não me esqueci do que passaste na altura. Sei que para ti, é fácil pensar que ele mudou, pois queres a todo o custo arranjar uma desculpa para que as coisas voltem a ser como antes.
- Rita… Posso assegurar-te que não me esqueci do que passei… nem do apoio que me deste… Mas não é fácil… queria tanto voltar para ele...
- Sim, eu sei, querida. Mas ainda é cedo para isso. Tens de esperar mais um pouco, para saber se ele mudou mesmo.
- Eu sei que ele está diferente. Deu para perceber ontem. Deu para perceber no jantar de anos dele. Acho que ele percebeu que errou e que quer que eu volte para a vida dele.
- Sim, acredito nisso. Mas a pergunta que tens de te perguntar é se tu queres que ele volte já. Ainda por cima, agora encontras-te numa fase em que estás a descobrir quem és e o que queres da tua vida.
- O que hei-de fazer?
- Tu sabes no teu íntimo qual é a decisão correcta a tomar. Não é a mais fácil… mas a longo prazo, será a melhor…
- Tens razão…Tens sempre razão…

Rita abraçou a amiga, pois sentiu que esta precisava do seu apoio naquele momento. Viu um pequeno brilhozinho nos olhos da amiga, pois as primeiras lágrimas começavam a aparecer, quando tomou consciência do caminho que deveria seguir.

- Vá… vamos falar de coisas mais alegres – disse Rita, tentando distrair a amiga. – Parece que já tens um tempinho livre durante a semana para sair com as tuas amigas.
- Pois… o trabalho vai acalmar por uns tempos. Já estava mesmo a precisar…
- Também diria que sim. Já não te via há tanto tempo. Já quase passas mais tempo com os teus novos colegas do que com os teus amigos.
-Nos últimos tempos tem sido assim. Mas também já deu para fazer novas amigas lá dentro. Senão, não teria aguentado estas semanas infernais…
- Ainda bem… mas quando é que conheço algumas dessas tuas novas amigas?
- Temos de combinar um cinema para vos apresentar… Vais gostar delas… são muito divertidas…
- Então combina… por mim, pode ser quando quiseres… Não sou eu que tenho estado sempre indisponível nos últimos tempos…
- Tens toda a razão… escusas de dar-me novamente na cabeça…
- E vou finalmente conhecer esse tal homem com quem tens passado o tempo todo?
- Quem? O Diogo? Ele é apenas um colega…- disse Inês com uma voz indignada. Não o considero que seja um amigo. Não que não tenha já tentado aproximar-me dele, pois tendo em conta o tempo todo que iríamos estar juntos a trabalhar, seria sempre mais fácil passar o tempo com alguém com quem me desse bem… mas ele é muito…. Como é que hei-de dizer? Muito fechado e muito profissional… não é daquelas pessoas com quem eu normalmente me dou bem…
- Pois…já estou a ver o tipo de pessoa que ele é… Mas é assim tão complicado trabalhar com ele? Coitada de ti…
- Não é assim tão mau. Ele não é uma pessoa antipática. Parece-me mais uma pessoa introvertida, que está no seu próprio mundo. E não me posso queixar. Ajudou-me muito… sempre que eu tinha uma dúvida, ele parava o que estava para fazer e ajudava-me… Foi sempre muito prestável… mas era sempre um pouco frio na forma como me explicava as coisas… acho que ele não gosta assim muito de mim, mas como tem de trabalhar comigo, faz um esforço para parecer minimamente sociável…
- Não te queixes… podia ser pior… ele podia não te ajudar, só para fazer boa figura perante os vossos chefes, em comparação contigo…
- Não… ele não faria isso. Pelo que pouco que conheço dele, ele é uma pessoa muito íntegra…muito profissional… Ao menos, não me tenho de preocupar com isso.
- Outra coisa? Ele é giro?- disse Rita com um sorriso maroto.
- Acho que ele é normal… não é daquelas pessoas que me chamaria a atenção se o visse na rua…- respondeu Rita à provocação - Mas também não se pode dizer que seja feio… Mas mesmo que se parecesse com o George Clooney, com aquela personalidade, nunca me interessaria por ele…
- Pois… já vi que só tens olhos para o Pedro…
- Não tínhamos combinado em não falar de coisas tristes?
- Tens toda a razão… Olha, já te mostrei o quadro que comprei para o meu quarto de hóspedes?
- Ainda não… Mostra, mostra…

Depois de ter sido deslumbrada pelo quadro da amiga, Inês passou o resto da tarde a falar com a sua amiga sobre muitas coisas… Sem dar por isso, tinha conseguido passar umas horas sem pensar na sua relação difícil com Pedro. Se os próximos tempos fossem tão fáceis assim…

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